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Numa praia intermitente

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Entre escarpas, num recanto perdido do Brasil, as personagens de Ana Margarida de Carvalho, sobreviventes de um naufrágio, descobrem todos os cambiantes da sua humanidade

FOTO D.R.

O novo livro de Ana Margarida de Carvalho é um tour de force narrativo e um prodígio de linguagem. Fortíssimo candidato, desde já, a melhor romance português do ano

Entramos nas quase 50 páginas do primeiro capítulo deste romance com um misto de espanto e perplexidade. O que se ergue à nossa frente é exatamente o quê? Não sabemos ao certo e depressa deixamos de questionar, tomados por um dos mais empolgantes torvelinhos narrativos da literatura portuguesa recente. Quem nos enreda é a voz de uma santa de madeira, “ao mar arremessada”, uma Nossa Senhora de Todas as Angústias que recebe a devoção, bem como as súplicas, dos tripulantes e passageiros de um navio negreiro clandestino. Enquanto o barco, autêntico “túmulo navegante”, com o porão a abarrotar de escravos moribundos, sucumbe ao tédio de uma calmaria, permanecendo imóvel num mar liso, sem sinal de brisa, a santa tudo vê e tudo escuta, dos movimentos sub-reptícios e jogos de poder entre quem circula cá por cima, sob o sol de chumbo, ao clamor que vem lá de baixo, um murmúrio de “lava humana” revolvendo-se sobre si própria, semelhante a uma expetoração: “Já a sinto, num rumorejar de entranhas que se puxa e cospe. Escura e glutinosa como o rancor. Que bom solo é este, as pranchas do convés, para germinar o ódio. Cada gota de suor é uma semente de asco, cada gota de sangue de escravo flagelado é cultivo de abominação”.

Aos poucos, vamos conhecendo algumas personagens que se destacam, o capitão inglês que só se preocupa com os cavalos de boa estirpe (cobiçados pela fome alheia), ou um passageiro de cabelo cor de açúcar mascavado, entregue a amores não ditos por uma rapariga enfermiça, vigiada de perto pela mãe controladora. Mas a personagem central é o próprio navio, com os seus alaridos, escaramuças e ameaças de sublevação, tenebrosas pestilências e moléstias fatais. Quando a tensão a bordo atinge o limite do suportável, tudo se precipita: motim, súbita tempestade, incêndio, naufrágio. E a prosa de Ana Margarida de Carvalho, ao descrever esta história trágico-marítima, não fica aquém do que de melhor nos é dado ler, no cânone da nossa língua, sobre homens e mulheres buscando a salvação por entre as vagas de um mar cruel e assassino.

Diante de um começo tão forte, tão arrebatador, é natural que o leitor encare com desconfiança as restantes 300 páginas do romance. Sobretudo quando se apercebe de que provavelmente decorrerão no espaço confinado de uma praia “impossível”, rodeada de falésias altíssimas, sem aparente possibilidade de fuga. É neste huis clos, algures na costa do Brasil, que desembarcam os náufragos: o rapaz de cabelo cor de açúcar mascavado; a sua amada e respetiva mãe, mulher do dono do navio; um capelão; um capataz e seu criado, que traz consigo um rapazinho negro. Mais tarde, junta-se a eles um escravo, trazido pelas águas em cima de um cavalo morto. Naquele recanto de areia “intermitente”, à mercê do ciclo das marés, eles resignam-se a uma espera infinita pela salvação que, temem, nunca chegará. Ou seja, instalam-se numa espécie de limbo, fora do tempo, um purgatório entre o passado a que não podem escapar, por muito que o tentem esquecer, e um futuro que parece, mais do que incerto, inalcançável.

Ana Margarida de Carvalho descreve minuciosamente as estratégias de sobrevivência do grupo, o modo como se organizam e distribuem tarefas, otimizando os escassos recursos de que dispõem. Na maré baixa, surgem no areal fontes de água doce, pelo que o difícil é garantir a alimentação, sempre escassa. Mais difícil ainda é manter unida uma comunidade tão díspar, na origem social, na raça, nos hábitos e nos códigos morais. O certo é que a “máquina comunitária” põe-se em marcha sempre que as circunstâncias o exigem, seja para assegurar o mínimo de conforto na gruta em que se abrigam quando o mar os expulsa do areal, seja para aproveitar a gordura de uma cria de cachalote (transformada em óleo de iluminação), seja na urgência de um parto. Em condições extremas, as barreiras entre os náufragos caem umas atrás das outras e só assim conseguem resistir aos muitos tormentos a que uma natureza hostil os sujeita.

Não se julgue porém que a autora, manobrando os seus títeres do alto das escarpas, encena à força uma qualquer alegoria sobre a bondade, que vem ao de cima diante do infortúnio. Nada disso. Nenhuma das personagens deste livro é boa ou pura, mas são todas profundamente humanas. Isto é, caóticas, complexas, contraditórias. O tour de force literário de Ana Margarida de Carvalho consiste em criar uma situação de pretenso vazio narrativo, um longo intervalo na existência de meia dúzia de pessoas isoladas num recanto perdido do mundo, subvertendo depois a lógica, ao mostrar que durante esse impasse absoluto não param de acontecer coisas, ações atrás de ações, ao ponto de nos tornar sôfrega a leitura.

Particularmente conseguidas são as imersões no passado de cada um dos náufragos, derivas que revelam uma extraordinária capacidade efabulatória, levando-nos ao coração de histórias terríveis, pungentes, de uma violência crua, muitas delas sobre a escravatura, já abolida no momento histórico em que o livro decorre (fim do século XIX) mas ainda praticada com requintes de sordidez.

Falta referir a qualidade maior deste romance: a sua linguagem, de uma plasticidade espantosa e raríssimo fulgor. “Não Se Pode Morar nos Olhos de um Gato” é um hino à língua portuguesa e às suas infinitas possibilidades.

Não se pode morar nos olhos de um gatoAna Margarida de Carvalho Teorema, 2016, 350 págs., €17,50 (4estrelas)

Não se pode morar nos olhos de um gatoAna Margarida de Carvalho Teorema, 2016, 350 págs., €17,50 (4estrelas)