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Clint, o homem que se fartou (e quando ele se farta costuma haver celeuma)

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O mundo conhece-o como um aclamado realizador e ator, vencedor de óscares e republicano convicto. Em tempos, Clint Eastwood foi autarca – recebia um salário de 200 dólares e conseguiu construir uma gelataria na sua cidade natal. A política nunca deixou de fazer parte da sua vida e em 2012 protagonizou um estranho discurso que envolvia uma cadeira vazia e piadas sobre Obama. Agora, Eastwood voltou a falar de política para atacar quem ataca a forma como Donald Trump diz as coisas. “Estamos numa geração de mariquinhas”, sustenta o cineasta, que se considera parte da “gente que está farta do politicamente correto”. Estas declarações têm uma semana, criaram celeuma e ainda se fala delas - mais uma prova de que Eastwood é um homem global (logo tremendamente influente e particularmente político)

Um mexicano, um asiático e um negro entram num bar. O que é que o dono do bar diz?” Suspense, para dar tempo à audiência de pensar numa resposta cómica. “Saiam já daqui para fora!” A piada é contada por um Clint Eastwood de boné na cabeça, dentro de um típico bar americano, e ouvida pelo grupo de amigos que o rodeia. Não estamos a falar do Clint real, ator e realizador aclamado, mas da personagem que interpreta em “Gran Torino” – um velho veterano da guerra da Coreia, amargurado e sozinho após a morte da esposa.

Na ficção de “Gran Torino”, a personagem de Clint Eastwood (que também realiza e produz o filme), Walt Kowalski, personifica a redenção quando se afeiçoa ao seu vizinho Thao, depois de passar a história toda a chamar “bárbaros” aos membros da comunidade asiática Hmong que vivem na mesma localidade. Na realidade de 2016, o realizador, que há muito se assume um republicano convicto, acaba de incendiar a imprensa depois de declarações sobre o carácter, as palavras, a forma e o conteúdo de Donald Trump.

“Estamos numa geração de mariquinhas. Toda a gente anda sobre cascas de ovo. Vemos pessoas a acusarem outras pessoas de serem racistas. Quando eu era pequeno, estas coisas não eram consideradas racismo”, disse Eastwood numa polémica entrevista à revista Esquire publicada há uma semana - e da qual ainda se fala. “Ambos os lados têm dito coisas estúpidas, mas eu teria de escolher Trump. Secretamente, toda a gente está farta do discurso politicamente correto.”

FOTO GETTY

As declarações de Eastwood chocaram muita gente e os jornais apressaram-se a lembrar algumas das frases mais racistas de Trump – como aquela vez em que acusou os mexicanos que tentam chegar aos Estados Unidos de serem “violadores” ou quando quis impedir muçulmanos de entrarem no país. No entanto, esta não é a primeira vez que o realizador defende o candidato: no final do ano passado já afirmara que “qualquer candidato republicano será melhor do que Obama”, elogiando Trump pela sua “atitude corajosa”. “As pessoas estão à procura de alguém que diga o que pensa e que não tenha medo. Ele é ótimo”, referiu Eastwood.

As críticas sucedem-se: a Vox lembra que no fim de 2015 a taxa de desemprego entre os negros nos Estados Unidos era de 9,5%, enquanto entre a população branca o número descia para 4,5%, e que se a taxa de pobreza no primeiro grupo é de 27,2%, entre os brancos passa para 8,6%. Para mais, acrescenta a Vox, quando Clint Eastwood - que nasceu em 1930 e conta agora 86 anos - estava a crescer, “havia segregação racial nas escolas e os afro-americanos e americanos nativos não tinham direito a votar”.

Clint, o autarca que cumpria as suas promessas

Mas esta não é a primeira incursão de Clint Eastwood no mundo da política – o realizador já chegou mesmo a assumir cargos de governação, ainda que a nível local. Foi em janeiro de 1986 que o jornal local de Carmel, a pequena cidade californiana em que nasceu e cresceu, anunciou que a Clint Eastwood seria candidato à autarquia, arriscando-se a ganhar um salário de… 200 dólares (181 euros). O realizador esclareceu desde logo que o seu interesse era apenas fazer algo pela cidade e não usar aquela plataforma para se lançar em voos políticos mais altos.

A decisão de concorrer à autarquia terá sido tomada pela estrela de Hollywood após lhe ter sido vetado um projeto de construção de um edifício de escritórios junto a um restaurante que possuía. Farto de burocracias e da forma como a cidade era governada, Eastwood concorreu de forma discreta, com poucas entrevistas e sem publicidade paga, contra um bibliotecário reformado de Carmel. Venceu sem surpresas por 2166 contra 799 votos, e cumpriu apenas o primeiro mandato, de dois anos, enquanto continuava a fazer filmes – segundo a “Time”, nessa altura terá despedido os responsáveis pelo veto à sua obra, defendido causas ambientais e cumprido as grandes promessas da sua campanha, como a construção de um passeio junto da praia e de uma gelataria na cidade.

Embora Eastwood tenha cumprido o que disse e nunca se tenha aventurado em nenhum outro cargo de responsabilidade política, nunca se absteve de partilhar as suas opiniões – e reafirmar as suas ideias republicanas, o que nem sempre lhe trouxe boas críticas. Um dos momentos mais polémicos aconteceu em 2012, na convenção republicana que antecedeu as eleições presidenciais desse ano.

A estranha convenção de 2012

FOTO GETTY

O cenário era quase idêntico ao que vivemos hoje: um palco colorido, republicanos e democratas a trocarem acusações, um presidente Obama em fim de mandato – embora este estivesse a lutar pela reeleição contra o oponente Mitt Romney do lado dos republicanos. Ao palco subiu Eastwood, que já apoiara Romney anteriormente, para discursar; ao seu lado estava uma cadeira vazia que não abandonaria a memória de quem testemunhou o momento.

“Há muita gente conservadora, republicana, na indústria do cinema. Sei que não parece, mas elas estão lá, pessoas que pensam da mesma maneira que nós”, garantiu Eastwood perante uma audiência entusiasmada (“guardem alguns aplausos para o Mitt”, gracejou quando subiu ao palco). Depois, começou o estranho sketch que marcou o seu discurso: o realizador começou, de improviso, a dirigir-se à cadeira vazia, fingindo que Obama estava ali sentado e que não tinha respostas para as suas perguntas (ou que respondia recorrendo a vernáculo).

“Quando Obama foi eleito toda a gente estava a chorar, a Oprah [Winfrey] estava a chorar, até eu estava a chorar e continuei a chorar porque neste país há 25 milhões de desempregados”, prosseguiu Eastwood. De vez em quando, e como parte da atuação, calava-se repentinamente e dirigia-se à cadeira: “O que é que queres que diga ao Mitt? Não, não lhe posso dizer para fazer isso a ele próprio. Deixa-me falar, cala-te”.

Embora na altura o realizador tenha defendido o discurso, atribuindo as críticas à “esquerda” e garantindo que os republicanos estavam “muito entusiasmados” com a ideia, na entrevista à “Esquire” desta semana Eastwood aproveitou para falar do incidente, garantindo que se arrepende da ideia “tonta” que teve depois de ouvir a música de Neil Diamond “I am… I said”, que inclui o verso “E ninguém ouviu nada / Nem sequer a cadeira”.

“Ele [Obama] não vai trabalhar. Não vai ao Congresso para chegar a acordos. O que raio está ele a fazer na Casa Branca? Certo, os congressistas são preguiçosos, e então? Tu és o mais importante, o presidente da empresa. Tens de fazer com que as coisas funcionam”, justificou na altura. O livro “Double Down”, que descreve as negociações que aconteceram para que Eastwood discursasse na convenção, desmente a sua versão do sucedido, garantindo que o estratega sénior de Romney “viu o desastre no palco, pediu licença e foi vomitar para outro quarto”.

FOTO GETTY

No mesmo ano, na noite da final da Super Bowl, o realizador voltou a causar polémica quando protagonizou um anúncio da fabricante de automóveis Chrysler, depois de no ano anterior ter criticado Obama por ter resgatado bancos e empresas de automóveis durante a crise – sendo uma delas precisamente a Chrysler. “Se um CEO não consegue tornar a sua empresa lucrativa, não deve ser CEO”, defendeu na altura, assumindo defender “a diminuição do défice” e ser contra “a ideia do estímulo à economia”.

Mas voltando ao cinema, uma das mais recentes polémicas que envolveram Eastwood aconteceu no ano passado e rodeou o seu filme “American Sniper”, baseado na história real do sniper Chris Kyle. O filme bateu recordes de bilheteira e reuniu críticas positivas, pelo menos até figuras públicas como o realizador Michael Moore ou o ator Seth Rogen começarem a chamar “cobarde” a Chris Kyle e a referir excertos do seu livro de memórias como este, sobre o seu tempo no Iraque: “Se virem alguém dos 16 anos aos 65 anos e for um homem, disparem. Matem todos os homens que virem”.

No Twitter, o ator Max Blumenthal escreveu: “Ainda não vi ‘Sniper Americano’, mas corrijam-me se estiver errado: ele mata iraquianos sem rosto e a verdadeira vítima é a sua alma angustiada”. Lindy West, do “The Guardian”, argumentava: “o verdadeiro sniper americano era um assassino cheio de ódio. Porque é que os patriotas simplistas o tratam como se fosse um herói?”.

Mas não se pense que o retrato de Clint Eastwood, o realizador com fortes opiniões políticas, é linear. Na altura, defendendo-se das críticas ao filme, argumentou que este é na verdade “um filme antiguerra”, recusando as acusações de estar a “glorificar” a violência e garantindo que seria positivo mostrar o “stress” que os veteranos de guerra enfrentam. Outra declaração que mostrou os traços liberais de Eastwood foi o seu apoio ao casamento gay: assinou mesmo um documento, juntamente com outros 100 republicanos, a pedir a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo ao Tribunal Supremo norte-americano.