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Histórias naturais

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Este volume junta o mais imprestável dos livros de Hemingway a uma seleção de alguns dos seus melhores contos

FOTO HULTON ARCHIVE/GETTY IMAGES

Pedro Mexia

Pedro Mexia

Escreve de acordo com a antiga ortografia

Primeira ficção longa de Ernest Hemingway, a novela “As Torrentes da Primavera”, de 1926, é uma paródia a Sherwood Anderson, escritor que à época gozava de bastante sucesso. Hemingway era dado a esses ajustes de contas. Como explica um dos seus biógrafos: “Parodiou Sherwood Anderson em ‘As Torrentes da Primavera’, satirizou Howard Loeb em ‘Fiesta’, condenou Scott Fitzgerald na primeira versão de ‘As Neves do Kilimanjaro’, ridicularizou John Dos Passos em ‘Ter e Não Ter’, arrasou Sinclair Lewis em ‘Na Outra Margem, entre as Árvores’, e atacou [Gertrud] Stein e [Ford Madox] Ford em ‘Paris É Uma Festa’.” Esta investida era especialmente lamentável, uma vez que Anderson influenciou Hemingway, era amigo dele, tinha-o ajudado no mundo editorial. Mais tarde, Hemingway reconheceu: “I was a son of a bitch to do it.”

Citando um mestre dos escritores cómicos, Fielding, que aconselhou a observação rigorosa por intermédio do ridículo, Hemingway faz uma crítica devastadora aos temas e tiques de Anderson, concebendo episódios destinados a denunciar o ‘pathos’ forçado, o sentimentalismo chão, a idealização primitivista, a “desinibição” programática, as reiterações poéticas, etc. O enredo anda à volta da vida de província, das memórias de guerra, da literatice, das tentativas românticas de dois colegas de fábrica. Pouco importa. O que interessa é mostrar Anderson como um escritor afectado e falso.

Acrescente-se a essa intenção óbvia os frequentes e cabotinos apartes ao leitor, e fica-se com o mais imprestável dos livros de Hemingway.

Felizmente, este volume inclui igualmente um punhado de histórias que apareceram nas colectâneas “In Our Time” (1925), “Men Without Women” (1927) e “Winner Take Nothing” (1933). Metade são sobre crises conjugais, outra metade sobre traumas de guerra. Há umas quantas narrativas elípticas e desconfortáveis que remetem para a degradação do primeiro casamento de Hemingway, algumas das quais, como “Um Gato à Chuva” e “A Viagem de Um Canário”, de cunho alegórico. Outras vezes, acompanhamos uns baços encontros e diálogos de americanos no estrangeiro, coreografia social que mal disfarça uma tensão íntima. E esta selecção recupera um dos melhores contos do autor, “Montes como Elefantes Brancos”: um casal no limbo, um calor tórrido, uma desolada estação de comboios no meio de Espanha, ela imaginativa, ele pragmático, conversas banalíssimas, e depois ele que sugere que ela faça “uma coisa de nada” (um aborto), ela irónica ou amarga pedindo (no original) “Would you please please please please please please please stop talking?”Das histórias de guerra, destaca-se “O Soldado no Seu Lar”, páginas autobiográficas sobre um ex-combatente e a sua fracturada relação com o emprego, a família e as mulheres. E a excepcional “História Natural dos Mortos”, em que Hemingway, que trabalhou como maqueiro, descreve a guerra como se fosse um naturalista: “A primeira coisa que vocês poderão descobrir a propósito dos mortos é que, atingidos a sério, morrem exatamente como animais.

Alguns muito rapidamente, mesmo de uma feridinha que se julgaria não ser suficiente para matar um coelho. (…). Outros morrem como gatos: crânio fraturado e estilhaços de metal no cérebro, jazem, ainda vivos, durante uns dois dias, precisamente como os gatos que, com uma bala na cabeça, ainda se arrastam para o depósito do carvão e só morrem depois de se lhes cortar as cabeças. Pode ser até que os gatos nem assim morram, porque dizem que têm sete fôlegos. Disso nada sei. O que sei é que a maior parte dos homens morre como animais, não como homens”.

As Torrentes da Primavera, Ernest Hemingway, Livros do Brasil, 2016, trad. de Maria Luísa Osório e Alexandre Pinheiro Torres, 208 págs., €14,40 (3 Estrelas)

As Torrentes da Primavera, Ernest Hemingway, Livros do Brasil, 2016, trad. de Maria Luísa Osório e Alexandre Pinheiro Torres, 208 págs., €14,40 (3 Estrelas)