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O melhor Harry Potter desde o último

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GLOBAL Lançamento da obra na livraria Lello e Irmão, no Porto, cuja escadaria inspirou as da escola de Hogwarts

FOTO LUCÍLIA MONTEIRO

A oitava parte da história é uma peça de teatro em exibição em Londres. Já lemos o guião, publicado há dias. Não é perfeito, mas merece aprovação

Não é mais um romance de Harry Potter. A autora da saga, J.K. Rowling, não se cansa de o explicar por ativa, passiva e perifrástica. Mas é mais um livro de Harry Potter, e isso é quanto baste — passados nove anos — para os fãs da série. Guião da peça homónima em exibição no Palace Theatre, em Londres, “Harry Potter and the Cursed Child” saiu em livro a 31 de julho (dia do aniversário do protagonista e de Rowling) e bateu recordes de pré-encomendas, ao ponto de um diretor da cadeia livreira Waterstones ter chamado a Rowling “santa padroeira das livrarias”. Editora, autora e produtores conseguiram evitar revelações precoces e os bilhetes, que começaram por ser vendidos até maio de 2017, vão agora até dezembro do próximo ano.

É certo que nem toda a gente aplaudiu. Houve quem se desiludisse ao perceber que o livro era mesmo, e só, o texto da peça (diálogos e didascálias, nada de prosa corrida). Afinal, nem sequer foi Rowling quem o escreveu, cabendo o crédito ao dramaturgo Jack Thorne, em colaboração com a escritora escocesa (que teve a ideia da história) e o encenador John Tiffany.

Cedo chegaram, também, as inevitáveis reações dos que se indignam nas redes sociais, afirmando que o novo livro pouco mais é do que fan fiction e procurando obsessivamente incongruências. Há-as, mas não acompanhamos a bílis de tais puristas. Lido o tomo — equivalente a cinco horas de teatro, representadas em duas partes —, certificamos que é Potter genuíno.

TEATRO Harry Potter and the Cursed Child está em cena no Palace, em Londres

TEATRO Harry Potter and the Cursed Child está em cena no Palace, em Londres

FOTO JACK TAYLOR - GETTY IMAGES

Lembram-se do epílogo de “Harry Potter e os Talismãs da Morte”, último livro do cânone? Dezanove anos depois da Batalha de Hogwarts, voltavam a reunir-se na plataforma 9 ¾ da estação de King’s Cross, em Londres, os três heróis da série: Harry Potter, Hermione Granger e Ron Weasley (estes são um casal, tal como Harry e Ginny, irmã de Ron). Trintões, como são hoje os primeiros leitores que seguiram as suas aventuras, despediam-se dos filhos, agora alunos da escola de bruxaria e feitiçaria mais famosa do mundo. É aqui que a nova obra arranca, com a prole a pegar no testemunho, a embarcar a medo no comboio, a fazer amizades e inimizades.

Ecos e nostalgias

Aos ingredientes tradicionais de Potter junta-se uma pitada de “Regresso ao futuro” (as viagens no tempo suscitaram aceso debate nos fóruns online) e muito drama edipiano (como não?). O universo dos romances é reconhecível, os cameos são mais do que muitos e quase todos deliciarão os incondicionais, desaconselhando-se peça e livro a quem souber pouco ou nada dos anteriores.

Se Harry sempre foi um poço de emoções, ressentimentos e traumas, ser filho de tal celebridade não melhora as coisas para o jovem Albus Severus, de resto batizado em honra a dois portentos, Dumbledore e Snape. Tanto peso leva a decisões tomadas a quente, que geram situações quasi-catastróficas, que por sua vez têm de ser resolvidas com algo mais do que poderes mágicos. A humanidade de personagens e enredos sempre foi um ponto forte das histórias de Rowling.

EXPECTATIVA Os fãs esperaram nove anos desde Harry Potter e os Talismãs da Morte

EXPECTATIVA Os fãs esperaram nove anos desde Harry Potter e os Talismãs da Morte

FOTO LUCÍLIA MONTEIRO

São muitos os ecos do passado. Os jovens protagonistas também são três, embora o elemento feminino (Rose Granger-Weasley) se apague a favor de um Scorpius Malfoy de apelido outrora e ainda maldito. Albus e Scorpius são personagens novas e bem conseguidas, adolescentes com voz própria, mas cujos dilemas espelham os dos pais.

A revisitação de figuras dos sete livros originais mantém-nos em terreno familiar e responde à nostalgia tão na moda entre millennials. Não há artefactos anacrónicos à “Doc” Emmet Brown a gerar gargalhadas, mas também não os há que distingam gerações separadas por um hiato de 19 anos. Podiam ser a mesma. Esta última é falha menor, havendo também surpresas que fazem erguer o sobrolho (às vezes com agrado, outras com indesejado ceticismo) até a quem, como o autor destas linhas, está longe de ser um geek caçador de incongruências. Don’t mess with my — ok, your — characters!

Quero ver isto em palco!

O melhor do livro — além, claro, de dar mais Potter aos que não queríamos que Potter tivesse acabado — é desfazer o nada credível “tudo estava bem” que rematava o sétimo volume da série. É claro que nunca está tudo bem (de novo, a humanidade do mundo mágico) e era claro, desde o fim da série em 2007 (e da versão filmada em 2011), que isto ia continuar, nem que fosse por pressão comercial. Ainda este ano estreia o primeiro de três filmes adaptados do magro volume “Monstros Fantásticos e Onde Encontrá-los”, uma espécie de spin-off que Rowling deu à estampa em 2001 para fins humanitários (há outro sobre Quidditch, além dos “Contos de Beedle, o Bardo”, de grande importância diegética no desfecho da saga original.

É claro, portanto, que a cicatriz de Harry tinha de voltar a doer, que o mundo tinha de voltar a estar em perigo. Porque é claro que, se há novo Potter, tem de haver nele algo de Voldemort, ainda que, a nosso ver, não da forma mais conseguida. Entre o que não nos convenceu no novo volume está o à-vontade com que todos agora proferem o nome do Senhor das Trevas, a dado momento com anuência do próprio.

DURADOURO O fenómeno Harry Potter já não se limita à primeira geração que leu os livros

DURADOURO O fenómeno Harry Potter já não se limita à primeira geração que leu os livros

FOTO LUCÍLIA MONTEIRO

Se concordamos com o diário “The Daily Telegraph”, que escreve que “na página, o guião parece o esqueleto de uma desejada experiência global”, não é por o argumento ser fraco, que não é (sem que seja genial), mas porque a riqueza e a intensidade do diálogo dão vontade de o ver dito em voz alta, e a complexidade cenográfica indiciada faz-nos querer ver esta história ao vivo (o jornal elogia, e com razão, a qualidade literária das próprias didascálias). “Cursed Child”, como assegura “The New York Times”, “tem a capacidade viciante dos romances de Rowling”. Com fidelidade geral ao cânone, mas mantendo a capacidade de encantar, acrescentaríamos.

É esqueleto e, como tal, descarnado. Faltam as descrições de Rowling, algures entre Enid Blyton e Roald Dahl, gigantes da literatura infanto-juvenil britânica (ainda hoje se republicam “Os cinco” ou “O colégio das quatro torres”, de Blyton, e se adapta “O gigante amigo” de Dahl). Faltam o ambiente inebriante de Hogwarts, a gente por vezes indiferenciada que povoa a escola, as paisagens que o cinema ajudou a fixar na mente, mas que começaram por existir em papel. Os méritos do novo livro de Harry Potter não eliminam o facto de se tratar como que de uma receita, com ingredientes e instruções. E nós queremos o bolo completo. O ideal seria comê-lo à mesa do “The Hog’s Head” ou do “The Three Broomsticks”, em Hogsmeade, regado com butterbeer. Mas já nos contentamos se for num bom lugar da plateia, na próxima ida ao West End.