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O homem e o mito

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FOTO D.R.

As cataratas de Reichenback trouxeram à literatura um dos seus momentos mais fortes; foi na impressionante paisagem natural dos Alpes suíços que o ilustre Sherlock Holmes sucumbiu às mãos do temível vilão que a Londres vitoriana conhecia como o Professor James Moriarty.

TEXTO Reinaldo Serrano

O desaparecimento da figura única no universo dos detetives (Holmes preferia definir-se a si mesmo como “consultor privado”) constituiu, à época, fonte de comoção entre os que se renderam sem resistência às peripécias saídas da pena de Arthur Conan Doyle. Surgida nas páginas da “Beeton´s Christmas Annual” de 1887, com o notável “A Study in Scarlet” (“Um Estudo em Vermelho”, em português), a personagem tornou mundialmente conhecida a figura do seu criador, o médico e escritor escocês que ainda hoje, 86 anos passados sobre a sua morte, é uma referência obrigatória na literatura policial.

A fama de Conan Doyle ganhou maior amplitude quando Holmes e o seu fiel Watson se deram à estampa na mítica “The Strand” quando, em julho de 1891, nas páginas da “revista de seis pence mas que vale um xelim” apareceram os contos que popularizaram ainda mais a dupla de amigos e investigadores. Conan Doyle já havia também publicado “O Signo dos Quatro”, mas foram as “short stories” que a revista publicou até 1930 (ano da morte de Doyle) que criaram a imensa legião de seguidores que o tempo não esmoreceu (bem pelo contrário) e tornaram os habitantes do 221B de Baker Street em figuras lendárias do panorama literário à escala mundial.

De tal modo que foram proliferando, aqui e ali, os clubes dedicados à análise e idolatria das duas personagens, ao mesmo tempo que diversos estudos e biografias também viram a edição impressa consagrada a Holmes e a Sir Conan Doyle. É justamente este o curioso ponto de partida desta literatura de férias que me permito sugerir a propósito da edição entre nós de “O Homem que Matou Sherlock Holmes” (“The Sherlockian”).

Romance de estreia de Graham Moore, a obra cruza uma investigação dos nossos dias enraizada nos admiradores de Sherlock e Conan Doyle, ao mesmo tempo que este último mergulha, na sua própria época, no ambiente que tão primorosamente descreveu nas suas obras: o da investigação detetivesca.

“Thriller” inteligente e revelador de um notável conhecimento dos contos e romances que tiveram em Sherlock Holmes a figura central, este trabalho datado de 2010 é um absoluto regalo para os fãs do excêntrico e brilhante “consultor privado”, bem como da vasta obra do mestre escocês. Mas é igualmente um ótimo exemplo de uma literatura que pareceu ter tido o seu tempo e que tardava em voltar: despretencioso, magnífico nas descrições e caracterização das personagens, “O Homem que Matou Sherlock Holmes” tem tudo para se ler de um fôlego e por isso mesmo tem tudo para dar certo. E deu: traduzido em 15 línguas, mereceu prémios e apreço por parte de público e crítica, que não lhe poupou justos elogios nesta narrativa concentrada no que terá acontecido no hiato de tempo em que Doyle “matou” Holmes nas cataratas suiças em “O Problema Final” e o seu regresso, para espanto de Watson e gáudio dos leitores. Dois mistérios decorrem em paralelo ao mesmo tempo que se cruzam e aproximam à medida que a história evolui.

Cumprirá acrescentar que o autor, Graham Moore, norte-americano de Chicago nascido há escassos 34 anos é, nem mais nem menos, que o premiado argumentista de “The Imitation Game” (“O Jogo da Vida”), consagrado com o Óscar de Melhor Argumento Adaptado em 2015, graças à sua transposição para o grande ecrã da obra de Andrew Hodges que retratava a vida de Alan Turing.

É nos Alpes que o livro começa, com o homem que matou Sherlock Holmes. O resto é um mistério feito dois e onde surge também a figura de Bram Stoker, o “imortal” criador de Drácula, e inúmeras piscadelas de olho aos admiradores daquele que é sem dúvida alguma o maior detetive escrito e descrito por um médico medíocre e por um escritor que foi a génese de inúmeros seguidores, boa parte deles com um talento que nem Holmes conseguiria descortinar. Elementar.