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João Pedro Rodrigues vence prémio de Melhor Realizador em Locarno

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ALEXANDRA WEY / EPA

"O Ornitólogo" chega ao palmarés do festival de cinema suíço, conquistado por "Godless", da búlgara Ralitza Petrova. "Scarred Hearts", do romeno Radu Jude, ficou com o Prémio Especial do Júri

O Festival de Locarno, que hoje à noite põe termo à sua 69ª edição, acaba de acrescentar mais uma etapa fulgurante à história do cinema português, atribuindo a João Pedro Rodrigues o Leopardo de Melhor Realizador por “O Ornitólogo”. Esta coprodução entre Portugal/França/Brasil, apontada como uma das favoritas desde a sua passagem, prolonga uma brilhante série de êxitos da cinematografia nacional no festival suíço ao longo desta década: recorde-se que, há dois anos, Pedro Costa (por “Cavalo Dinheiro”) venceu o mesmo galardão que Rodrigues agora leva para casa. E em 2013, também Joaquim Pinto ganhou aqui o Prémio Especial do Júri, por “E Agora Lembra-me”.

Glória lusa em Palmarés infeliz

Nada há, a priori, a dizer deste prémio à realização para além de sublinhar que ele é inteiramente justo: “O Ornitólogo”, que em jeito de provocação se apresentou ao mundo como um biopic de Santo António travestido de western num douro transmontano e mítico, não é apenas um filme onírico e livre em que um homem, Fernando (Paul Hamy), se procura a si próprio, descobrindo em simultâneo os caminhos da fé e as leis do desejo que o transformam num homem diferente. “O Ornitólogo” é também, das 17 obras que se apresentaram a concurso, a que mais deu provas de fidelidade à mise en scène e à sua capacidade de transfigurar a realidade.

"Paul Hamy" em "O ornitólogo", de João Pedro Rodrigues

"Paul Hamy" em "O ornitólogo", de João Pedro Rodrigues

D.R.

E no entanto, o júri presidido pelo cineasta mexicano Arturo Ripsein selou a ouro, e “numa escolha unânime” (disse-o na conferência de imprensa), uma obra búlgara infinitamente inferior à portuguesa, “Godless”, primeira longa-metragem de Ralitza Petrova. Conta-nos o percurso de Gana, uma mulher que trata de idosos, alguns dementes e acamados, num sinistro asilo de uma cidade de província, roubando-lhes os bilhetes de identidade para tráfico no mercado negro. E se impressiona o trabalho da atriz Irena Ivanova (venceu o Leopardo de Melhor Atriz), capaz de construir uma personagem a partir de silêncios e de estados de angústia, “Godless” não deixa de ser um filme típico de denúncia social, a pedir-nos da primeira à última imagem uma leitura metafórica do passado recente da Bulgária desde a queda do comunismo. Já foi feito mil vezes e nem os salmos ortodoxos que atraem a personagem salvam o filme de uma convencional abordagem ao realismo.

Irena Ivanova em "Godless", de Ralitza Petrova: Melhor Atriz e Leopardo de Ouro em Locarno

Irena Ivanova em "Godless", de Ralitza Petrova: Melhor Atriz e Leopardo de Ouro em Locarno

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Para “O Ornitólogo” perder assim, de forma tão gritante, o prémio máximo, antes o tivesse perdido para “Scarred Hearts”, que venceu o Prémio Especial do Júri. O romeno Radu Jude (cuja obra anterior, “Aferim” triunfou no IndieLisboa do ano passado) foi desta vez para um sanatório da Roménia de 1937. Um jovem que procura curar a sua tuberculose óssea serve ao filme de gancho alegórico. Pelo menos, a teatralidade cabotina que agora explora Jude - e que em Locarno causou tantos espantos quanto alergias – é um programa estético coerente. O polaco Andrzej Seweryn fechou os prémios principais com um Leopardo de Melhor Ator por “The Last Family”, de Jan P. Matuszynski, e a nova obra do casal italo-austríaco Tizza Covi e Rainer Frimmel, “Mister Universo”, teve direito a uma Menção Honrosa num palmarés que ignorou por completo o cinema asiático (em particular o belo “Bangkok Nites”, do nipónico Katsuya Tomita).

"Scarred Hearts", de Radu Jude

"Scarred Hearts", de Radu Jude

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O pólo argentino

Na competição secundária de Locarno, Cineastas do Presente, dedicada a primeiras e segundas obras, não se podia ter pedido melhor ao júri liderado pelo italiano Dario Argento. Esta foi, de resto, a secção que mais diferença e ousadia trouxe ao festival e nenhum filme foi tão diferente nem tão ousado como “El Auge del Humano”, do argentino Eduardo “Teddy” Williams - de tão forte é a sensação de estranheza que ele é capaz de gerar. Há quem diga que Williams se está nas tintas (e está) para seguir as gramáticas da narrativa mas o que na verdade importa é salientar que ele se apropriou de uma maneira de fazer cinema que é só sua.

As suas personagens são sobretudo jovens rapazes que se movem e gastam o seu tempo no quotidiano. A câmara que os persegue, em movimento contínuo, entranha-se nesse movimento como se não estivesse ali - neste caso em três histórias complementares, filmadas com três tipos de câmara diferentes, e das quais é impossível isolar uma só história. O filme propõe-nos uma relação de descoberta de locais e de personagens. Os primeiros não são menos personagens que as segundas. Williams é um construtor de acidentes e consegue dar um sentido ao que parece efémero, inexpressivo, às minúsculas coisas da vida que se passam numa fração de segundos, e que aqui vemos com emoção. O seu filme (que tem coprodução portuguesa da Bando à Parte) venceu a Cineastas do Presente e levou o Leopardo de Ouro.

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Na mesma secção, também competia o argentino “El Futuro Perfecto” (prémio de Melhor Primeira Obra), segunda longa-metragem (após “Ricardo Bär”) da alemã radicada naquele país, Nele Wohlatz. O filme é um achado de originalidade e uma reflexão sobre a representação, a partir de episódios de uma rapariga chinesa de 17 anos que chega a Buenos Aires para se juntar à família por lá estabelecida. Nas horas em que não está a trabalhar, Xiaobin, que cedo ganha novo nome (Beatriz), frequenta um centro de línguas para aprender castelhano onde interage com outros estrangeiros.

É a partir desta experiência de aprendizagem que a personagem evolui (Beatriz conhece depois um rapaz indiano com quem começa a ponderar viver). E o filme constrói-se com ela, em números graciosamente encenados que fundem documentário e ficção, atentos às nuances de cada palavra e à busca do seu significado - à medida que o cinema vai quebrando as barreiras linguísticas e impondo o seu ritmo, permeável à comédia. Já “The Challenge”, do italiano Yuri Ancarani, é um filme muito conceptual, rodado no Qatar, sobre a arte da falcoaria praticada por excêntricos príncipes árabes. Venceu o Prémio Especial do Júri desta secção. Também distinguidos foram o japonês Mariko Tetsuta por “Destruction Babies” (prémio para Melhor Cineasta Emergente) e “Viejo Calavera”, de Kiro Russo, em representação da Bolívia (menção especial).

"El Futuro Perfecto", segunda longa-metragem da alemã Nele Wohlatz.

"El Futuro Perfecto", segunda longa-metragem da alemã Nele Wohlatz.

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