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A vida depois da morte de um santo

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Paul Hamy, Fernando 
e António, homem e santo, 
no novo filme de João 
Pedro Rodrigues

DR

A solidão, o abandono, o medo de deixar de ser amado ou de poder amar: quem sabe se não foram sempre estas as magníficas obsessões de João Pedro Rodrigues. Que agora as enfrentou, de corpo e alma, com um filme redentor e profano. De Locarno, uma obra enorme: “O Ornitólogo”. O português venceu este sábado o Leopardo de Prata de Melhor Realizador, um dos três mais importantes prémios do Festival Internacional de Cinema de Locarno

Não sabemos quase nada daquele homem. Perante um filme secreto como este, mais um em que João Pedro Rodrigues nos pede nervo e paixão, total entrega, os mistérios nunca nos serão dados de barato. Agarremo-nos então a coisas concretas. O homem é um ornitólogo. É uma personagem de ficção antes de tudo, sem deixar de ser também o ornitólogo que João Pedro um dia sonhou ser. De sonhos, muito nos contará este filme. De duplos e de transmissões de personalidade, também. Desconfiamos das palavras. As personagens de João Pedro nunca foram muito faladoras. As sensações, aqui, chegam sempre rarefeitas. Mas são suficientes para que percebamos que Fernando, o ornitólogo do título (papel de Paul Hamy), não anda bem. Está sozinho, num espaço amplo, sempre a céu aberto, magnificamente fotografado em CinemaScope por Rui Poças, num Douro mítico e transmontano, de acesso difícil a seres humanos, na fronteira entre Portugal e Espanha. Uma homilia do padroeiro de Lisboa que morreu em Pádua, apresentada pelo filme em epígrafe, já nos falara de “corações elevados”, prometidos pelo santo a quem se aproximar do Espírito.

Só que Fernando, que é homem de ciência e de nenhuma fé, só acredita no que vê: na vida dos pássaros que ele persegue e anota com instinto predador, a nado ou de caiaque Douro acima, binóculos pendurados no pescoço. Surge então um elemento perturbador daquele ritual, um toque de telemóvel naquela praia fluvial deserta que até a rara cegonha preta espanta. Fernando fala com um namorado que nunca veremos, Sérgio. A comunicação entre eles, naquela paisagem inóspita e quase sem rede telefónica, será cada vez mais escassa. Porque se isolou Fernando, em cuja voz se reconhece a voz de João Pedro Rodrigues? E porque se chama esse namorado Sérgio, que tem o mesmo nome da personagem de “O Fantasma” (2000)? O grande círculo de regresso ao passado que traça “O Ornitólogo”, filme que existe por si próprio mas que condensa também todos os outros do cineasta, começa porventura neste momento de ficção que não deixa de insinuar a autobiografia.

Do desmaio à conversão

Se o telemóvel de Fernando vai mantendo uma ligação à realidade (com mensagens, datas, etc.), tudo a partir do acidente de caiaque — em que ele se perde e desmaia — se torna uma aventurosa história, a convidar o onirismo e a transcendência. Fernando quer regressar ao local de partida. Duas caprichosas católicas chinesas, peregrinas também elas perdidas a caminho de Santiago de Compostela (e que só podem vir dos ‘filmes asiáticos’ de João Pedro), salvam Fernando das águas antes de lhe infligirem, sádicas, o primeiro dos seus martírios. Atado a uma árvore, surge aqui uma primeira representação iconográfica sacra (a recordar outro santo, Sebastião), que evoca o religioso e o místico pela matéria do próprio plano e pelo corpo do ator, mas que não é ‘apenas’ isso: é também — e em simultâneo — uma representação homoerótica e sado-maso.

É necessário frisar bem este aspeto porque nada em “O Ornitólogo” se resume tão-só a um catalogar de elementos (e muito menos a um ‘empilhar’ de cineastas de referência em que grande parte da crítica se refugia a medo), mas sim à fusão absoluta deles: a fusão da natureza (filmada com paciência e devoção) e da mitologia (a de um santo do século XIII cuja biografia é mais imaginada que real). A fusão da cristandade (“como se este pudesse ser um biopic de Santo António”, disse João Pedro) e do paganismo (os Caretos de Trás-os-Montes que Fernando encontra, vertidos pelo filme em embriagados e noturnos demónios que tão bem estariam num filme de Carpenter).

A fusão do sagrado, que este filme respeita absolutamente, e do profano que daí se extrai. Até chegarmos a esse estado de “alegre blasfémia” que o cineasta, ele que só crê no cinema, sublinhou querer atingir (na conferência de imprensa), e que é todo um programa de reformulação do desejo. Com um pastor de cabras surdo-mudo, sugestivamente chamado Jesus — seja ele real ou imaginado, pouco importa — rolam dois corpos na areia e consubstanciam-se Eros e Thanatos, amor e morte desde sempre entrelaçados em todas as ficções de João Pedro. Depois, Fernando tira do pescoço de Jesus o apito que ele usava para chamar as cabras e faz dele o seu amuleto, enquanto lava o sangue no rio e olha para a cruz de pedra no alto da ravina. Sonhos, outra vez os sonhos, apoquentam-no. E nunca mais será quem costumava ser.

Na aventura dos sentidos

“O Ornitólogo” é a história de um homem contada de quadro em quadro, tal como outrora se contava a vida dos santos. É também um western com cenas de vida animal em que também estes, em especial as aves (por intermédio de câmaras instaladas em drones), terão direito a um ponto de vista. Poderão ver os animais aquilo que os humanos deixaram de conseguir ver?

As perguntas misteriosas e de difícil resposta não acabam aqui. Num momento em que Fernando já se transformou em António aos nossos olhos, o filme reserva-lhe um novo episódio. É um milagre que não se denuncia, selado com dedos na ferida e um beijo na boca, uma espantosa cena erótica em que António evoca o fogo do Espírito que a epígrafe já evocara. “Não vale a pena tentar perceber”, diz o santo antes de se entregar ao seu derradeiro martírio. Pois neste filme ‘de acreditar’, é naquela frase que é preciso crer. Até que dois homens possam ganhar de novo carne e osso, voltando à realidade da vida.

Depois vem a coda, uma das maiores canções portuguesas dos anos 80, seguramente a que mais contou para o cineasta, e pela qual o círculo de que falámos acima se completa definitivamente. E completa-se com esse sentimento voraz, avassalador, que nos disse que o amor não depende do tempo, mas do momento (“em que me dou, em que te dás”). Talvez “O Ornitólogo” seja o filme em que João Pedro Rodrigues nos veio dizer simplesmente isto: é preciso matarmos os nossos sonhos para podermos continuar a sonhá-los, uma e outra vez, no mesmo movimento perpétuo. Até os corações ficarem lá no alto