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Dicionário à moda do Porto para ficar “fino como um alho”

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João Carlos Brito, professor e bibliotecário, é o autor de uma obra com mais de 3000 entradas e 4000 significados

André Manuel Correia

D.R.

Todos nós já ouvimos alguém dizer que “o Porto é uma naçom”. Assim, com a pronúncia carregada, porque essa é uma das marcas identitárias da Invicta. A história da cidade, onde muitas vezes se julga que o calão é utilizado como vírgula, faz-se dos seus traços singulares, entre os quais figuram milhares de palavras e expressões tipicamente “tripeiras”. Para que deixe de ser “lorpa” e fique “fino como um alho” (inteligente), agora pode descodificar de forma divertida o linguajar portuense com o auxílio do “Dicionário de Calão do Porto”. O Expresso sentou-se à mesa, no emblemático café Piolho, não para “laurear a pevide” (vadiar), mas para trocar alguns “bitaites” sobre o livro com o autor João Carlos Brito.

São mais de 3000 entradas, 4000 significados e 30 artigos. A sério, não é “pêta”! Este dicionário de “partir o côco” a rir, com edição da “Lugar da Palavra”, proporciona-lhe uma viagem completa até à cultura do Porto.

Numa conversa nada “cheia de nove horas”, que é o mesmo que dizer num registo descomprometido, João Carlos, professor e bibliotecário, explicou que o título da obra serve para simplificar. “Isto não é calão, são falares marginais. Mas não lhe podia chamar Dicionário de Idiomatismo, Vocalismos e Registos da Linguagem Popular e Urbana do Porto.” Pois não. “Nicles.” Se o fizesse, corria o risco de “meter verdete” e isso seria o mesmo que “falar para a central”.

O livro reúne termos de provável origem portuense, bem como palavras e expressões que, não sendo oriundas do Porto, acabaram por ser assimiladas pelas gentes da cidade. Neste arrojado dicionário constam também vocábulos mais recentes importados dos “camones”, como “baby”, por exemplo, e há ainda espaço para referências históricas a factos, locais e personalidades ligadas à cidade. “As palavras, se nós as lermos e escutarmos, têm muitas histórias para contar”, frisa João Carlos Brito.

Remar contra a massificação da linguagem

O interesse pelo calão e pelos níveis de linguagem familiar, regional e gírias nasceu há vários anos quando foi estudar para Aveiro. Sessenta quilómetros separavam-no nessa altura do Porto, mas apercebeu-se que a distância linguística era bem mais extensa. Palavras como “sertã”, “apanhador” ou “picheleiro” eram termos inteiramente desconhecidos na cidade onde se formou academicamente.

“Atualmente, assistimos a uma massificação da linguagem. Por um lado é positivo, porque facilita a comunicação. Por outro lado vamos perdendo algumas das nossas palavras e expressões, que passaram à categoria de arcaísmos”, denota.

Licenciado em Línguas, Literaturas e Culturas modernas, João Carlos Brito é um portuense e portista de 49 anos todo “prá frentex”. Interessa-se sobretudo pelas tradições e metamorfoses idiomáticas. “A língua é um fenómeno vivo que não tem barreiras nem muralhas. Todos nós somos portadores desse registo e acabamos por influenciar e ser influenciados por outros falantes.”

Este é um livro para os habitantes do Porto e também para todos aqueles que possam não estar tão familiarizados com o “paleio” nortenho. Se não conhecer vários dos termos, não fique “assarapantado” (preocupado). Basta consultar o “Dicionário de Calão do Porto” e vai perceber que é tudo bem simples. “Não há espiga!”

“A melhor forma de transmitir conhecimentos é com sorrisos. E é isso que o livro pretende. Não é um trabalho académico nem é esse o objetivo, mas de uma forma simpática e divertida consegue agradar desde um falante comum até a um linguista”, enaltece João Carlos Brito, autor de outras obras “Heróis à Moda do Porto” (2010) ou “Dicionário de PORTOguês-Inglês” (2015), este último em colaboração com Ana Cruz e Cristina Vieira Caldas.

Estas aventuras deram “um quitos” de trabalho e obrigaram João Carlos a “vergar a mola” durante 15 anos de recolha sistemática. “Enquanto uns colecionavam cromos e selos, eu ia colecionando palavras.”

Todas as expressões utilizadas nesta reportagem, que não pretende “encher chouriços”, podem ser encontradas no livro