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Se a acidez persistir

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O volume reúne duas centenas e meia de crónicas escritas por Vasco Pulido Valente entre 1998 e 2015

FOTO NUNO BOTELHO

Luís M. Faria

Jornalista

Faz quase 30 anos que Vasco Pulido Valente (VPV) assumiu o lugar cimeiro entre os colunistas portugueses. Embora já escrevesse na imprensa há bastante tempo, foi a crónica semanal em “O Independente” que o tornou em definitivo a voz pública que ainda hoje reconhecemos: culta, ácida, precisa, cortando a direito pelas ideias feitas e chegando a uma conclusão diferente, não raro exatamente oposta, muitas vezes irrefutável. Se o tom é duro, é por motivos de saúde. Num país onde abundam tolice e ignorância, VPV não diz mal só por dizer mal, mas também, e sobretudo, por pensar bem. Claro que isso não o torna universalmente popular. Ocasionais injustiças notórias, bem como as passagens por lugares menos adequados às suas características — Assembleia da República, televisão — revelaram algumas fraquezas e deram argumentos a quem o detesta. Mas o estilo manteve-se intacto, e o estatuto, no fundo, também.

Esta seleção de textos, feita pelo jornalista Miguel Pinheiro, abrange o período entre 1998 e 2015, isto é, os anos da nossa progressiva desilusão. São duas centenas e meia de peças, arrumadas em 14 áreas temáticas: ‘A Queda’, ‘Pagar a Conta’, ‘A Decadência’, ‘A Lenda da Europa’, ‘Os Nossos Políticos’, ‘Os Nossos Partidos’, ‘Jornalismo e Liberdade’, ‘O Triunfo da Corrupção’, ‘Estudar Para o Desemprego’, ‘Ordem e Muito Respeitinho’, ‘Futebol e Desporto’, ‘Três Papas’, ‘Terrorismo e Fanatismos’, ‘Não Fui Feito Para Isto’. As duas primeiras são sobre a atual crise. As duas seguintes, sobre algumas ilusões persistentes que a alimentam. Surgem então crónicas sobre os agentes ativos do sistema e sobre alguns sectores-chave, juntamente com textos sobre a Igreja Católica e sobre formas de ditadura secular no quotidiano (antitabagismos e companhia).

Na última secção, reminiscências pessoais acompanham desabafos melancólicos: “Já não pertenço a esta história. O meu interesse é forçado, a minha presença, pelo menos para mim, gratuita. Mas, por enquanto, não há remédio senão persistir.”

Isto foi escrito em 2007. Seis anos mais tarde, em plena crise financeira, VPV ainda se interessava suficientemente pela realidade para resumir assim uma certa confusão mental portuguesa: “Não há conversa pública ou privada que não chegue à mesma conclusão: quer queira, quer não queira, a Europa tem de nos salvar. Mas como? Financiando generosamente, e por interesse próprio, o desastre em que nos metemos […]. O pessoal político (incluindo os comentadores) percebe que essa nossa putativa benfeitora não anda bem, para não dizer que anda muito mal. Mas não percebe porquê. Para uns, porque Delors e Kohl foram substituídos por gente menor; para os socialistas, porque a direita manda; e para o cidadão pouco informado, por causa da infinita maldade da sra. Merkel e da fraqueza do sr. Hollande.”

Vintage Vasco, na qualidade retórica e mordaz do diagnóstico, na concisão expositiva, no pessimismo quase absoluto. A descrição da história moderna que se segue é de fazer chorar o mais indiferente dos europeístas. Como indicam as letras cadentes na capa, isto vai mesmo de mal a pior. E não tem remédio.

DE MAL A PIOR (4 estrelas)
Vasco Pulido Valente
Dom Quixote, 2016, seleção de Miguel Pinheiro, 542 págs., €22,90