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Todos em rebanho para a Serra

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A banda toca, os pastores perfilam as ovelhas a rigor com chifres arredondados e pompons nas pontas, enquanto um drone sobrevoa Salgueirais. Na Serra da Estrela não há festa como esta

"O Santo António é de Lisboa, mas demora tempo a chegar à Serra", é com ironia que por Salgueirais, uma aldeia na Serra da Estrela, Rui Fonseca justifica que a romaria de Santo António aconteça no final de julho. A alteração da data tem motivos mais nobres que o atraso na viagem do Santo. Como qualquer aldeia do interior do país, Salgueirais tem sido muito afetada pela emigração, e é no final de julho e início de agosto que chegam, com a mala cheia de saudades, os emigrantes que fugiram da calmaria da Serra.

Não é raro que pelas aldeias do país os meses do calor sejam sinónimo de festas, romarias e abraços a quem passa o ano fora. Mais raro é que numa aldeia envelhecida, tenha sido um grupo de cinco jovens — tristes com o "panorama parado" da aldeia — a fazer tudo para dar uma vida nova à terra. Esses tempos parados são do passado e há, pelo menos, um fim-de-semana por ano em que a festa não para durante três dias (e que o número de pessoas em Salgueirais dobra), mas já lá vamos. Antes importa recuar até 2007, ano em que Rui Fonseca,Joaquim Almeida, Paulo Fonseca, Joaquim Carvalho e Carlos Morais quiseram fazer mais pela aldeia que no passado os juntava para partidas de futebol. Tinham que fazer qualquer coisa "o que quer que fosse, mas que fosse pelo benefício da aldeia". Nasce uma associação e passado um ano a festa que tinha estado afastada durante 18 anos volta ao centro dos casadios no meio de salgueiros, carvalhos e pinheiros.

Este ano não foi diferente, já com a aprovação dos mais velhos e as viagens marcadas dos que estão fora, e dia 29 começou a festa. À entrada de Salgueirais veem-se os enfeites e ouve-se a música da banda de gente dali de perto. Este é um dos requisitos: se é para contratar que se peça a gente da zona. Durante o ano vão recebendo donativos, cobrando a quota mensal de €1 aos sócios da associação e o Salgueirinho — grupo de cantares por eles criado — vai angariando fundos em concertos, para que no verão tenham os €5000 necessários para fazer a romaria. Parece muito, mas grande parte deste valor é para pagar licenças e impostos, tanto que já tiveram que desistir dos foguetes que até aos anos 90 punham todos a olhar para o céu.

A primeira noite é de baile, de rifas e de copo de cerveja ou taça de caldo verde na mão. É no segundo dia, depois das danças e vozes dos grupos de cantares, que a festa religiosa se une à tradição cultural. Depois das danças e vozes dos grupos de cantares, já pela noite, vai-se buscar a Nossa Senhora do Ouvido — Santa padroeira daquela gente — à capela. É de velas na mão e banda a tocar que a transportam até à igreja, onde passará a noite depois de ouvir um coro afinado que lhe canta "enquanto houver portugueses tu serás o seu amor".

A seguir o baile continua e na cabeça de todos estará a frase "enquanto houver associação, Salgueirais será o seu amor". É que sem o esforço dos cinco nada daquilo seria possível. E ainda que no grupo dos mais velhos haja quem os critique, desvalorizam. Paulo Fonseca lembra mesmo que eles próprios não sabem o que irão criticar nos mais novos quando envelhecerem.

Quando a Associação foi criada tinham uma exigência: manter as tradições. "Só assim faria sentido", explica Joaquim Almeida, um filho da terra que por ali continua a viver. E se há tradição em Salgueirais é a dos pastores, que têm tanto amor pelos rebanhos que no verão dormem ao relento no meio deles. Dias antes da festa, começam a moldar caracois nos chifres dos animais, dão banho aos rebanhos e enfeitam-nos de cores.

Domingo de manhã um a um vão chegando ao centro da aldeia com os rebanhos, ostentando-os com orgulho enquanto dão voltas à arena ao som da banda, de manta no ombro, cajado na mão e ovelhas — com "e" e não com "a" como se diz no sul do país. Há até um pastor conhecido na zona por pastorar, em nome da modernidade, de carro. Terá a maior agilidade quem conseguir unir a primeira à última ovelha e se o conseguir será aplaudido por todos e até "pelos pastores de fora que vêm para ver", acrescenta Joaquim Carvalho. No final das voltas, há ovelhas oferecidas e leiloadas cujo valor reverte a favor da Associação.

Todos se lembram que antigamente havia mais rebanhos, mas que nos últimos anos as ovelhas voltaram a estar presentes com mais intensidade na aldeia. A fé e a tradição leva os pastores ali para que agradeçam o ano ao Santo António. Assim como na missa que se lhe segue, onde todos estão vestidos a rigor, as imagens, e os andores sejam enfeitados e transportados por quem fez promessas a Nossa Senhora. Depois chega a procissão que vai passando pelas janelas enfeitadas com colchas, por ruas e ruelas, enquanto a banda toca e um drone lhe acompanha os passos para registar tudo em vídeo.

Nem mesmo o grupo de motards Rodinhas da Serra se esqueceu de por ali passar a apitar em motas clássicas renovadas. De colete beje em cima das Zundapps, das Sachs e de outros modelos de antigamente, fizeram notar a sua presença.

Se a festa é de Santo António, por Salgueirais têm que agradecer a São Pedro, que fez cumprir o proverbio da zona "manhã de nevoeiro, tarde de soalheiro" e assim o calor da Serra não se fez sentir durante a manhã.

Aos rapazes da Associação agradacem pela festa, pelo esforço que torna aquele "o fim-de-semana mais feliz do ano", que traz turistas e crianças à aldeia. Já conseguiram que um casal novo e sem raízes na zona acabasse por comprar uma casa depois da festa de 2015. Eles só pedem uma sede e que a festa continue. Para o ano a banda já está marcada e as reservas dos de fora podem começar.