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Falar a escrita

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FOTO D.R.

REINALDO SERRANO

“O homem não é nada. O trabalho é tudo.” Permito-me desde já discordar do amigo Gustave, Flaubert de apelido, francês de nascimento, escritor de talento imenso e representante exímio de um estilo literário marcadamente realista.

Uma observação mais superficial da frase supracitada concluiria que a mesma é o reflexo de uma certa modéstia, em que conta menos “quem” e conta mais “o quê”. Ora, justamente – e no que às artes particularmente concerne – “o quê” resulta inevitavelmente do “quem”, pelo que a obra não pode nem deve ser dissociada do seu autor, até porque inúmeras vezes este se sobrepõe àquela e/ou vice-versa.

Nada disto significa que o raciocínio já em andamento (assim o espero!) derive em perigosa análise mais ou menos filosófica sobre a relevância intrínseca de quem faz o quê. Estranhe-se ou não, o desabafo inicial tem como propósito único refletir sobre o trabalho do autor (neste caso, de um escritor) e da sua obra.

O escritor é um italiano já aqui mencionado em anterior prosa e que a ela volta em virtude do lançamento de um curioso documentário sobre o multifacetado Andrea Camilleri. A cadeia italiana de televisão RAI chamou a si a grata tarefa de assinalar os 90 anos do escritor, dramaturgo, argumentista e encenador que, entre muitas outras obras, deu às letras o incrível comissário Montalbano. Não por acaso, o trabalho da dupla Claudio Canepari e Paolo Santolini recebeu o nome internacional de “Montalbano and Me: Andrea Camilleri”.

Os relatos e os retratos que perpassam ao longo dos escassos mas preciosos e despretenciosos 50 minutos do documentário são expressos na primeira pessoa: seja a pessoa primeira do próprio visado, sejam os diversos testemunhos de gente que com ele trabalha e trabalhou, com quem ele aprendeu (“Il Maestro”, assim lhe chamam e por causa disso o importunam), de quem dele recolheu matéria humana e artística que nunca mais esqueceu.

O homem é, em si mesmo, uma figura, extraordinária ao ponto de se estar nas tintas para esse facto. Assume sem complexos a homenagem a Manuel Vasquéz Montalbán e a ele se refere sem tréguas quando, em 2014, foi outorgado com o IX Prémio que ostenta o nome da grande figura das letras espanholas. E lembra o seu início tardio na literatura policial quando, em 1994, surge o primeiro romance com o irascível e inteligente comissário Montalbano. Desde então, vendeu cerca de 30 milhões de livros, está traduzido em 34 línguas (entre as quais mandarim) e, como muito bem se lembra no documentário, é o único “produto” italiano que não conhece a crise.

Ouvir Camilleri é assistir a uma prova viva e irrefutável de quem está bem consigo e com a vida: “Se algum dia a minha escrita degenerar em trabalho, deixarei de escrever nesse mesmo dia.” Os que passam a caminho dos 91 anos (no próximo dia 6 de setembro) têm rituais muito próprios: escanhoar o rosto de forma irrepreensível, vestir-se apropriadamente para o exercício da escrita, e fazer tudo para que cada obra tenha 18 capítulos e sensivelmente o mesmo número de páginas!

As idiossincrasias de Andrea Calogero Camilleri não ficam por aqui; o melhor mesmo é vê-lo, pleno de vitalidade e cigarro atrás de cigarro, a desfiar o novelo de uma vida invejavelmente preenchida e recordada com a mesma bonomia com que embeleza os seus muitos romances, quase todos editados entre nós, todos absolutamente imperdíveis. E ainda por cima (como detesto dizer isto) inequivocamente apropriados para férias.

“Montalbano and Me: Andrea Camilleri” vê-se num ápice, ao mesmo tempo que nos torna cúmplices sem esforço de um homem que quer ver-se a si mesmo como... um trapezista: de sorriso no rosto enquanto executa as acrobacias mais perigosas, não revelando nunca ao espectador o imenso trabalho por trás de cada exercício. De cada proeza, acrescento eu, nesta que é uma das muitas lições de vida transmitidas por “Il Maestro”. Quer ele goste, quer não.