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Stephen Frears: “Lance Armstrong foi uma ferida aberta para a América”

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FOTO ANNALISA FLORI/GETTY

O que está no centro do novo filme do cineasta britânico? A ascensão e queda 
 de um ciclista? Ou as suas mentiras? Frears chamou à obra “The Program”, numa alusão 
 à dopagem. Por cá, o título é “Vencer a qualquer preço”

Há muitos documentários sobre Lance Armstrong, mas você optou por outra coisa: pediu a um ator, Ben Foster, que o interpretasse. Porquê?
Quis fazer uma ficção que não deixasse de documentar as coisas. É curioso falar disso: se você reparar bem nesses documentários, vai dar-se conta de que nenhum deles jamais mostra ou sequer sugere que ele se dopava. Deixaram de fora a melhor parte, chiça!

Foi isso que o levou a partir para a ficção?
Este filme só existe porque tem uma grande história de crime lá dentro. É um caso de polícia. Eu fiquei com ganas de o fazer quando li uma recensão ao livro de Tyler Hamilton, “The Secret Race: Inside the Hidden World of the Tour de France”. Só que o homem, sabe-se lá porquê, não nos quis vender os direitos. Virei-me então para “Seven Deadly Sins: My Pursuit of Lance Armstrong”, do jornalista David Walsh.

O filme é bastante factual e quase não toca na intimidade ou na família de Armstrong. Ele é um homem reservado, está quase sempre sozinho...
É verdade. O resto não me interessava, são fait-divers. Tudo já foi dito e escrito, e eu não queria sentir-me um intruso. Por outro lado, ao pensar nisso... A Sheryl Crow [namorada de Lance Armstrong entre 2003 e 2006] nunca falou de dopagem. Custa-me acreditar que ela não soubesse.

Tentou contactar Lance Armstrong?
Credo, por que diabo o faria? Há dez anos fiz um filme chamado “The Queen” e não foi por isso que fui chatear a rainha!

E ele contactou-o? Viu o filme?
Não, nem faço a menor ideia. Aquilo que me interessa é a sofisticação deste crime. “Vencer a Qualquer Preço”, acima de tudo, é um filme sobre o modo como o desporto se deixou corromper pelo dinheiro.

Percebe alguma coisa de ciclismo?
Nada. Nunca andei de bicicleta, sequer. Mas percebo de futebol. É um desporto que chegou a uma qualidade que eu jamais imaginei. Em contrapartida, os futebolistas são estupidamente ricos, e isso é muito peculiar. Acho que foi o Kevin Keegan [estrela do futebol britânico dos anos 70 e 80] quem disse que, quando jogava à bola, ganhava duas vezes e meia aquilo que a média do público no estádio ganhava. Havia uma conexão, uma vida, uma coisa realista dentro do campo entre quem jogava e quem via jogar, entende? Agora não há.

Qual é o seu clube?
O Arsenal!

Voltando a “Vencer a Qualquer Preço”: para si é um thriller?
Sim, acho que foi essa a forma que o filme acabou por ganhar. Viu-o assim? Ótimo. Não é um biopic, isso não. É por isso que não falo de mulheres e de crianças.

O filme evita julgar Lance Armstrong?
Essa é uma questão difícil. E os julgamentos são os espectadores que os fazem. O Armstrong é um tipo complicado que se deixa apanhar numa situação complicada. É isso que o torna interessante.

O que é que o chocou mais na história dele?
A compulsão para a mentira. As mentiras que ele depois reforçou quando escreveu a autobiografia. E que começam logo desde a primeira vitória no Tour, em 1999 — o livro de Tyler Hamilton prova-o. Claro que Armstrong alega depois que não era o único a dopar-se. Foi a sua desculpa. Mas ele não foi só um batoteiro. Mentiu. E a mentira, para mim, é mais grave do que a batota.

O seu ator, Ben Foster, contou ao “The Guardian” que se dopou na rodagem para melhor se sentir na pele de Armstrong. O que acha desse método?
Acho que ele está excelente no filme. Parece mesmo um ciclista profissional, a sério. E fico-me por aí. Prefiro beber chá.

Então valeu a pena ele ter feito o que fez?
Não faço ideia. Bom, ele ainda está vivo, não é? Não se desgraçou.

Acha que o seu filme admite um olhar de compaixão?
Por Armstrong? Não. Ele não tornou as coisas fáceis e deitou-se na cama que fez. E o que ele tem passado nos últimos anos, depois de perder os títulos... Só ele o saberá. Do ponto de vista humano, esta história é tramada. Há umas semanas, um jornalista francês contou-me que, quando ele ganhou o último Tour, em 2005, toda a gente o assobiou nos Champs-Élysées. As coisas já se sabiam...

O público americano vai conseguir lidar com este filme?
Percebo o que quer dizer. Lance Armstrong foi uma ferida aberta para a América. Passou de ídolo a canalha. A experiência foi traumática para o país inteiro. Mas acho que esse luto já foi feito, acabou. É sempre difícil vermos alguém que admiramos naquela situação. Quer dizer, se me dissessem que o Samuel Beckett se dopava quando escrevia, era para o lado que eu dormia melhor. Mas ficaria chateado — e muito — se se descobrisse que o Messi ou o Ronaldo se dopavam. Sentir-me-ia enganado.

Disse que não percebia nada de ciclismo. Mas o seu filme teve de ser — e mostra ser — bastante cuidadoso e preciso com os detalhes desse desporto. Que trabalho de pesquisa foi obrigado a fazer?
Rodeei-me das pessoas certas que fizeram esse trabalho por mim. E confiei nelas. Dizem que há bicicletas mais leves e mais rápidas a cada ano. Caríssimas. Todo aquele universo é insano. Eu gosto de fazer filmes sobre coisas de que não percebo nada.

O que aprendeu com essas pessoas?
Olhe, aprendi que os ciclistas pedalam agora a uma velocidade inferior. No tempo do Armstrong, a velocidade das corridas era alucinante. Eles estão claramente a tomar piores drogas agora! [risos]