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A noite em que Billy Bragg desafiou o ‘Brexit’ em Sines

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Billy Bragg transformou o seu concerto em Sines numa ‘arma’ de luta

MÁRIO PIRES/FESTIVAL MÚSICAS DO MUNDO

Há um Zé Mário Branco britânico... e os portugueses aplaudiram-no no Castelo de Sines. Um homem que como o músico português acredita que “a cantiga é uma arma”, e transformou a última noite do Festival Músicas do Mundo num panfleto pela solidariedade internacional e um libelo contra o cinismo

Billy Bragg disse que os outros músicos podem ter trazido as suas guitarras e instrumentos tradicionais ao Festival Músicas do Mundo mas que ele preferia trazer o seu tempo – o clima britânico entenda-se – nublado e sombrio, que de repente interrompeu o verão alentejano este sábado, em Sines, no último dia do Festival Músicas do Mundo.

Entre a maré de música étnica e de fusão do evento, o músico britânico fez erguer o manifesto ideológico de esquerda, que tem vindo a propagar desde os anos 1970, entre os seus acordes de guitarras anti-folk.

Bragg explicou que já não tocava em Portugal desde o século passado, porque depois de ter sido pai passou a ter a sua disponibilidade reduzida; mas como o “bastard” do seu rebento já está na universidade e a não querer saber mais dele para nada... teve agora oportunidade para corrigir essa situação e assim tocar em Sines parte do repertório que criou desde então. No decorrer do concerto acabou por recuar também é claro a temas anteriores, como “Sexuality” e “There is Power in a Union”.

Para além de ter levado a cabo o concerto mais politizado do festival, o músico candidatou-se também à distinção de melhor comunicador. Sozinho em palco com as suas guitarras elétricas e acústicas (acompanhando apenas de quando em quando por Cj Hillman com suas guitarras revivalistas pedal steel, dobro e Rickenbacker), não parou de falar e de acicatar o público, entre os apelos à solidariedade internacional sindicalista nos tempos da globalização e os picanços futebolísticos, com a vitória de Portugal no Europeu a servir de mote para a conversa.

Billy Bragg foi o melhor comunicador do Festival Músicas do Mundo, em Sines

Billy Bragg foi o melhor comunicador do Festival Músicas do Mundo, em Sines

MÁRIO PIRES/FESTIVAL MÚSICAS DO MUNDO

Outro assunto que também não poderia também deixar de estar presente no seu discurso foi a vitória do ‘Brexit’, uma “vergonha” que diz ter passado a impedir os britânicos de tecerem piadas sobre a política norte-americana; afinal os muros anti-imigração defendidos por Donald Trump não estarão muito longe da lógica por detrás de quem votou a favor da saída da União Europeia...

E a ideia da construção dos muros só não surgirá também na Grã-Bretanha por ser uma ilha. Bragg disse que o desemprego e a falta de apoios sociais, num contexto de globalização, terão levado a maioria dos britânicos a votar pelo ‘Brexit’; qualquer solução terá de passar pela resolução desses problemas.

Mais do que o capitalismo, o maior inimigo dos tempos atuais é o cinismo, o cinismo que todos temos dentro de nós e nos impede de acreditar que é possível mudar e melhorar o mundo.

No que lhe diz respeito, o retorno que sente por parte do público fá-o continuar após décadas de carreira. E ainda não perdeu a sua energia rebelde e provocadora, como mostrou no magnifico concerto que levou a cabo no Castelo de Sines.