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Bush, enquanto não vier quem dele bom fará

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GUERRA Bush profere um discurso sobre Defesa em 2003, ano da invasão do Iraque

FOTO D.R.

Uma biografia impiedosa do 43.º Presidente dos EUA mostra que George W. Bush dificilmente tem perdão, mas entra pouco na psique do retratado

Tem-se falado, nas últimas semanas, de dois dos quatro participantes da cimeira das Lajes de 15 de março de 2003. O ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair foi alvo de críticas após a publicação do relatório Chilcot, que oficializa o que quase toda a gente já sabia: invadir o Iraque, há 13 anos, não foi uma solução de último recurso depois de terem sido tentadas todas as alternativas, mas uma escolha consciente baseada em mentiras. Cúmplice nessa aventura mas hoje polémico por outros motivos, José Manuel Durão Barroso – anfitrião da tristemente célebre reunião açoriana e antigo chefe do Governo português e da Comissão Europeia – chocou muitos (ainda que surpreendendo poucos) ao aceitar um cargo no banco Goldman Sachs.

Se não tem havido muitas notícias sobre José María Aznar, o parceiro espanhol de então, o mesmo não se pode dizer do grande protagonista de todo o processo da desgraçada guerra do Iraque. George W. Bush, presidente dos Estados Unidos da América entre 2001 e 2009, é assunto de uma grande biografia recentemente lançada.

“Bush”Jean Edward SmithEditora: Simon & Schuster; Páginas: 808; Preço: $35 (€32)

“Bush”Jean Edward SmithEditora: Simon & Schuster; Páginas: 808; Preço: $35 (€32)

Embora o tempo tenha suavizado a raiva que muitos tinham ao 43.º ocupante da Casa Branca no final do seu mandato (tinha 25% de popularidade, pouco mais do que Nixon durante o escândalo Watergate, mas este ano recuperou para 52%, mais do que Obama), esta obra, intitulada simplesmente “Bush”, promete reavivar os sentimentos negativos. “Raras vezes na história dos Estados Unidos foi a nação tão mal servida como durante a presidência de George W. Bush”, lemos na primeira frase do prefácio. “The Washington Post” observa que talvez isso possa mudar em breve, numa referência nada disfarçada à candidatura de Donald Trump, que se assemelha a Bush, frisa o jornal, na tendência para confiar mais no instinto do que em dados.

CIMEIRA Durão Barroso, Blair, Bush e Aznar nas Lajes, Açores

CIMEIRA Durão Barroso, Blair, Bush e Aznar nas Lajes, Açores

FOTO MICHELLE MICHAUD

Com mais de 800 páginas, o trabalho do historiador presidencial Jean Edward Smith, que aos 83 anos já biografou três antecessores de Bush – Ulysses Grant, Franklin Delano Roosevelt e Dwight Eisenhower — “não poupa” o objeto do seu livro, segundo o diário “The New York Times”. O jornal descreve o livro como a história de um miúdo sem talentos que só graças às ligações da sua privilegiada família pôde entrar na Universidade de Yale, evitar a guerra do Vietname e subir na vida, tornando-se governador do Estado do Texas e, depois, o homem mais poderoso do mundo.

Mal preparado, pior aconselhado

Para Smith, professor universitário e autor premiado, Bush chegou à Casa Branca mal preparado, promoveu incompetentes fiéis para o assessorarem e não esteve à altura do momento em momentos como o furacão Katrina (que devastou Nova Orleães em 2005) ou a crise do subprime, dois anos mais tarde. “Viu as coisas a acontecer”, é o veredicto lacónico do autor. Nessa altura, porém, já tinha tomado e executado a decisão que o definirá para sempre: a guerra do Iraque, que ocupa uma porção desta biografia proporcional à importância que teve na sua presidência. “A pior decisão de política externa que um Presidente americano alguma vez tomou”, sentencia o historiador.

O autor argumenta que a responsabilidade de Bush pela guerra do Iraque resulta não só de lhe ter cabido, em última instância, decidir o que fazer, como do facto de a invasão e o derrube de Saddam terem correspondido a um desejo pessoal seu. Smith rejeita a ideia de que o Presidente tenha sido uma marioneta nas mãos do seu vice, Dick Cheney, do estratega Karl Rove ou do ministro da Defesa, Donald Rumsfeld. Não que estes e outros acólitos fiquem bem no retrato: Condoleezza Rice, conselheira de segurança nacional e, mais tarde, secretária de Estado, “procurava dar a Bush o que fosse mais confortável para ele”, escreve Smith. A falta de espírito crítico dos adidos – ainda que o “patrão” não fosse grande ouvidor – não tem desculpa. O próprio Bush também ligou pouco à segurança até aos atentados de 11 de Setembro de 2001, acusa o autor.

COMANDANTE Bush numa visita à Academia Naval

COMANDANTE Bush numa visita à Academia Naval

FOTO PAUL JENSEN/MARINHA DOS EUA

Ao mesmo tempo que acusa Bush de uma “personalização do poder”, Smith desfaz a persona que encarnou esse processo, comparando os seus discursos aos de um “ditador europeu de meados do século XX”. Arrogância, irresponsabilidade e desprezo pelas ideias são os traços que retratam o biografado. Só há alguma piedade no reconhecimento de alguma ação, ainda que tardia, após o crash de 2008, e no esforço humanitário depois de sair da Casa Branca. Para a revista “The New Yorker”, o autor nunca recuperou “do sentimento de perda de aspetos da figura [de Bush] antes do 11 de setembro”, refletidos numa campanha em que prometia uma política externa bem mais contida do que veio a ter.

Nada de grandes revelações

“The Washington Post” elogia o tom “sóbrio e suave” de Smith, a quem chama “fiável”. “The New Yorker” lamenta alguma grandiosidade desnecessária. Já “The New York Times” reconhece-lhe mérito e credibilidade, mas a crítica é consensual ao lastimar que o livro não traga grandes novidades, já que o trabalho do historiador também passa por permitir que o leitor perceba, sob novos pontos de vista, os acontecimentos de que tem constância, e compreenda, em retrospetiva, a importância de factos que não deram tanto nas vistas. O diário de Washington considera, ainda assim, que “é difícil imaginar um melhor relato das invasões [do Afeganistão e do Iraque], das conturbadas ocupações, do seu impacto político e das suas implicações para as liberdades cívicas e para o poder executivo [nos EUA]”.

“The New Yorker” também critica a escassa propensão de Smith para inspecionar aspetos mais privados e psicológicos do seu biografado. “O leitor fica a interrogar-se quando e como é que o protagonista do livro foi tomado por um ‘nível enervante de certeza’” – que Smith equipara a uma psicose – ou por que processo passou a julgar-se uma ferramenta nas mãos de Deus, escreve a revista, chamando a Smith “mais historiador do que biógrafo”. O livro apoia-se muito na imprensa da época e em obras anteriores, quer biográficas quer de memórias das personagens principais. Cheney e Rumsfeld colaboraram na biografia, deixando-se entrevistar pelo autor, mas George W. Bush recusou, por Smith ter escrito, em tempos, um livro crítico para com o seu pai, George H.W. Bush, 41.º chefe de Estado dos EUA.