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Bradar aos céus

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FOTO D.R.

TEXTO Reinaldo Serrano

Elvis Presley chamou-lhe "a coisa mais pura à face da Terra"; a cantora Mary J. Blige disse e redisse que ouve regularmente música gospel; e o mais prestigiado crítico de cinema dos Estados Unidos disse ter sido o mais alegre documentário que havia visto em muito, muito tempo. O objeto de admiração e júbilo dos supracitados chama-se "Say Amen, Somebody", e foi realizado no início da década de 80 do passado século pelo nova-iorquino George T. Nierenberg, um homem que fez da música o objeto de análise dos seus trabalhos enquanto documentarista.

Feito em 1982 e estreado no ano seguinte, "Say Amen, Somebody" é inteiramente dedicado ao género musical cujos adeptos creem ser capaz de permitir aproximarmo-nos de Deus e dos nossos semelhantes. Mística ou crença retiradas da equação, o documentário de Nierenberg é um incrível retrato da "alma" que fortalece e permite ao gospel ser fonte de inspiração e de referência quase filosófica para milhões de pessoas espalhadas pelo mundo, com o natural enfoque na comunidade afro-americana.

É nela que nos situamos numa história que reflete o tempo e o modo de duas figuras de proa no universo do gospel: Mother Willie May Ford Smith e o "Professor" Thomas A. Dorsey, tido pelos peritos como um dos fundadores do género musical a que muitos chamam "espiritual negro". A palavra, é sabido, é traduzida para português como "evangelho", ou seja, a palavra de Deus. Esta definição universal é uma contribuição decisiva para a própria universalidade da música: é certo que a igreja é um palco privilegiado para o culto, mas o que o trabalho de Nierenberg mostra é que a intensidade dos coros de igreja é transposta sem dificuldade para uma mesa de jantar, para as ruas, os alpendres ou os pátios traseiros de cada casa onde o Evangelho se faz ouvir e se faz ouvido.

E, no entanto, se a música é o "modus operandi" que espalha a Palavra divina, são as pessoas que a espalham através do canto (e que canto, meu Deus!) que a vivem no quotidiano, que interiormente a interpretam, o outro substrato de um documentário absolutamente contagioso, onde, a dada altura dos seus 100 minutos, queremos vivamente participar. Porque é também uma prova de força, de resistência, de humanismo, refletida sem subterfúgios nas duas figuras cuja história de vida é deveras impressionante.

O alcance da música gospel é muito maior do que por vezes fazem crer os antagonistas do género: retomando o início da crónica, aqui se recorda aos mais esquecidos que Elvis editou, nos anos 50, 4 álbuns que não custa inscrever na categoria de gospel. Muitos outros cantores, e não apenas na área do soul, se deixaram influenciar por um género que, ao vivo, numa qualquer igreja dos Estados Unidos é, garanto em absoluto, uma experiência única para os sentidos. Curiosamente, os dois nomes (justamente) mais referenciados e reverenciados no documentário são particularmente críticos do lado de "entertainment" que, em não poucos casos, está hoje associado ao género que eles próprios ajudaram a criar, como que desvirtuando a génese de algo que, no seu entender, sofreu desvios pouco abonatórios.

E por falar em críticas, que fique claro que "Say Amen, Somebody" não é propriamente uma reportagem nem um objeto jornalístico: de fora ficam as questões mais polémicas relacionadas com os movimentos religiosos nos Estados Unidos, o fanatismo de alguns, o ostracismo a que são votados outros, a excentricidade de muitos. Mas o que o então jovem realizador procurou (quiçá fruto da época em que o documentário foi feito) foi retratar um género musical e a comunidade a ele associada, as suas origens, os seus propósitos e as histórias de vida de alguns dos seus mais válidos protagonistas. O resultado final é agradar mais do que polemizar, o que, pese embora hoje seja visto como algo anacrónico, não retira mérito algum à beleza da história, ainda por cima recortada com algumas doses de bom humor... doméstico, por parte dos objetos de atenção do documentarista.

Não de somenos importância, importará referir a soberba qualidade do som que perpassa ao longo do documentário, absolutamente vital para a devida absorção das notáveis interpretações que, a solo, "a capella", com coro ou com orquestra são festim garantido para espectador -- seja ou não crente do Verbo cantado -- e que tornam obrigatório o visionamento de "Say Amen, Somebody". "Take My Hand, Precious Lord", canta o "Professor" Dorsey. Assim seja.