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A noite de David Murray e do fogo chegado do Cairo

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Noura Mint Seymali atuou quinta-feira no Castelo de Sines

Mário Pires / C.M. Sines

Com a cidade transformada numa festa, Sines continua a celebrar as músicas oriundas dos mais inesperados recantos do mundo

Valdemar Cruz

Valdemar Cruz

em Sines

Jornalista

Um saxofonista norte-americano e um teclista indefinível e imprevisível oriundo do Cairo, Egito, constituem as grandes propostas para a noite de hoje e madrugada de amanhã no Festival Músicas do Mundo (FMM), a decorrer em Sines. David Murray, com o seu Infinity Quartet, no qual se integra a voz de Saul Williams, é como se fosse a visita de alguém muito lá de casa. O músico tem tido uma presença regular no festival organizado na cidade onde reside grande parte do ano.

Nome maior de entre os saxofonistas contemporâneos “made in USA”, Murray, que abre os espetáculos da noite no Castelo, a partir das 21h45, tem uma longa carreira discográfica, na qual se incluem mais de 130 discos editados em quatro décadas de presença nos palcos do mundo. Desta vez surgirá acompanhado do poeta, ator e cantor Saul Williams, presença continuada em competições de poesia marcadas pela ambiência e a tradução de elementos cruciais da cultura urbana.

Muito mais tarde, já na Avenida Vasco da Gama, mesmo ao lado da praia, quando a madrugada estiver adiantada e os relógios marcarem as quatro horas de um novo dia, subirá ao palco um músico que poderá muito bem vir a ser uma revelação, mesmo para alguns dos mais informados sobre as novas tendências da música. Chama-se Islam Chipsy e, num trocadilho porventura fácil com o seu sobrenome, apetece dizer que tem todas as condições para fazer chispa demolidora. É preciso dizer que Islam é homem de um só instrumento. Toca um pequeno órgão e isso não parece ser muito sugestivo. Para quem assiste, a surpresa é total, graças às verdadeiras proezas conseguidas a partir daquela pequena máquina de fazer música. Em palco terá apenas a companhia de Khaled Mando e Mahmoud Refat, ambos na bateria.

Se é necessária uma explicação mais técnica, poderá acrescentar-se, como o faz a organização do festival, que Islam Chipsy é pioneiro do “chaabi” elétrico, usa a escala oriental para criar inacreditáveis fórmulas sonoras. Com dois discos editados, tanto anima casamentos, festas de rua, pequenos clubes, como as melhores discotecas de Londres, ou grandes festivais, como o de Sines.

Bixiga 70 atuaram quinta-feira no Castelo de Sines

Bixiga 70 atuaram quinta-feira no Castelo de Sines

MÁRIO PIRES / CM SINES

O tempo dos Espontâneos

Numa cidade onde em cada espaço próximo do Castelo ou junto à praia podem aparecer espontâneos a revelar insuspeitados atributos musicais, será sempre difícil dizer onde e quando começam os programas. Ainda assim, há os alinhamentos formais a ter em conta. Desse ponto de vista, uma das grandes expectativas para o dia de hoje está marcada para o acalorado Centro de Artes. Será o primeiro concerto do dia e será assegurado por uma das revelações nacionais. O projeto “Filho da Mãe”, protagonizado por Rui Carvalho é, antes de mais, um hino à guitarra e ao modo como pode ser acariciada até dela se derramarem sons mágicos e inesquecíveis. O último disco de Rui de Carvalho, “Mergulho”, gravado no Mosteiro de Rendufe, em Amares, é uma demonstração de como há um verdadeiro trabalho de artesão naquele jeito de trabalhar as cordas como quem manipula filigrana.

O alinhamento musical de hoje inclui ainda, às 19h45, no Castelo e com entrada livre, como sempre neste horário, o septuagenário Bitori Nha Bibinha, oriundo de Cabo Verde. É apresentado como uma lenda do funaná e do seu principal instrumento, a gaita, ou acordeão diatónico. Vítor Tavares, assim se chama de facto Bitori, tem 13 filhos, trabalhou nas roças de São Tomé, foi pedreiro, barbeiro, mas, sobretudo, foi sempre um grande apaixonado pela música.

Às 20h, na Avenida Vasco da Gama, tempo para Los Pirañas, uma banda de Bogotá, na Colômbia, que explora os ambientes psicadélicos.

De novo no Castelo, e depois de David Murray, entra em cena o percussionista tunisino Imed Alibi, que trabalha a fusão de muitas sonoridades de várias geografias. Perto da uma da madrugada sobe ao palco o projeto “Knomo nº1 meets Batida”, que junta músicos da R.D. do Congo com Pedro Coquenão, produtor luso-angolano que tem trabalhado a música urbana de angola. Em conjunto gravaram já um disco no qual são exploradas as ligações, as proximidades existentes entre alguma da música produzida em Angola e a música criada por membros da etnia Bakongo, que vive na fronteira com Angola e á qual pertence Augustin Konono.

Terminada esta atuação, o Castelo fecha as portas e é na Avenida Vasco da Gama que tudo passa a acontecer. A noite promete muito, uma vez que antes do egípcio Islam Chipsy acontecerá o que a organização apelida de “desbunda tropical”, a cargo de “Fumaça Preta”. Trata-se de um grupo liderado pelo produtor e percussionista luso-venezuelano Alex Figueira, acompanhado por dois músicos britânicos, que mostra toda a sua pujança nos espetáculos ao vivo. “Psicadélia, free-jazz, metal dos anos 70, tambó, funaná, voodoo, fado, música experimental brasileira, Frank Zappa”, é o “cocktail” de que se faz esta desbunda. Ainda por cima tropical.

Para algo mais tranquilo, em particular dirigido às muitas famílias jovens que comparecem neste festival, a organização prevê, a partir das 15 horas de hoje, uma visita aos bastidores do FMM. Não serão admitidos mais de trinta participantes, crianças incluídas, e a ideia é mostrar como se consegue colocar de pé uma estrutura como esta, preparada para dar resposta às mais diversas solicitações. As marcações fazem-se no Centro de Artes, ou através do telefone 269 860 080.