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Cultura

Arte portuguesa servida em França com vinho do Porto

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Cidade de Chauvigny, em França, será a capital da arte e dos sabores portugueses durante um mês e meio

André Manuel Correia

A leitura e os sabores acima de tudo. Está dado o mote para a terceira edição do festival “Échappée Estivale”, realizado na cidade de Chauvigny, em França, entre sábado e 11 de setembro. O prato principal será a arte portuguesa, com o vinho do Porto a acompanhar a degustação cultural.

Poetas como Manuel António Pina, Vasco Graça Moura, Mário Cesariny, Sophia de Mello Breyner e Eugénio de Andrade, bem como o trabalho do realizador Manoel de Oliveira, serão lembrados e enaltecidos no evento por especialistas nacionais e gauleses. Até mesmo nas dedicatórias, Portugal não é esquecido e presta-se homenagem a Paulo Cunha e Silva, antigo vereador da Cultura da Câmara Municipal do Porto, falecido a 11 de novembro de 2015.

Organizado por Sylviane Sambó, uma fascinada pela cultura portuguesa desde o final dos anos 80, o “Échappée Estivale” é mais do que um festival literário. É mais de que uma mostra de arte. É a celebração da leitura, da arte de viver e dos seus múltiplos significados.

“A literatura constitui um meio privilegiado para conhecer a vida”, escreveu Marcel Proust em “Em Busca do Tempo Perdido”. O certame proporciona, assim, uma jornada literária e gourmet, acompanhada de vinhos de Bordéus e do mundialmente célebre vinho do Porto, ou não fossem parceiros da iniciativa o Instituto de Vinhos do Douro e Porto e a casa Ramos Pinto.

Pontes de aço ligam a cultura portuguesa e francesa

Depois da bienal dedicada à leitura, realizada no outono de 2014, Chauvigny torna-se, mais uma vez, num local onde a literatura é protagonista e onde a cultura francesa e portuguesa estabelecem pontes. O festival passa por vários locais, mas tem como epicentro a casa e jardim de Sylviane Sambó, a que a divulgadora cultural chamou “Maison de la Lecture et des Saveurs”. O espaço funcionará como uma livraria informal até ao final do festival, onde haverá debates, palestras, apresentação de livros, entre outras atividades.

O programa arranca este sábado, no Cinéma Rex, com uma conferência intitulada (em português) “Cultura, ferramenta de desenvolvimento de um território”. À conversa estarão o jornalista Joël Aubert, um representante da coletividade “Lectura à Chauvigny”, o fundador e presidente do Festival du Périgord noir Jean-Luc Soulé e ainda o português José Pinho, administrador das livrarias Ler Devagar e iniciador do projeto “Óbidos Vila Literária”. A iniciativa realizada no município português estará, aliás, em foco no primeiro dia da programação.

O Porto, o Douro e o legado de Manoel Oliveira

No dia seguinte, domingo, é inaugurada às 17h a exposição “Porto, Camélias e Vinhos”, na Maison de la Lecture et des Saveurs, que dá a conhecer 12 pinturas de outros tantos artistas portugueses contemporâneos. Depois segue-se a leitura de alguns extratos da obra “Bords d’eaux”, de Pierre Veilletet. Às 18h, na galeria de arte “L’1lternatif”, abre ao público uma exposição do fotógrafo Georges Dussaud, que tem como pano de fundo a cidade do Porto.

A 1 de agosto, no Cinéma Rex, é exibida a curta-metragem “En une poignée des mains amies”, dos realizadores Manoel de Oliveira e Jean Rouch, um trabalho filmado a quatro mãos por dois grandes amigos durante uma descida pelo Douro e que documenta um encontro entre os dois cineastas. Este dia será exclusivamente dedicado ao icónico realizador português e, para isso, o jornalista do “Público” Sérgio C. Andrade será um dos convidados também para apresentar o filme póstumo de Manoel de Oliveira, “Visitas ou Memórias e Confissões”, exibido pela primeira vez ao público a 4 de maio de 2015.

A 3 de agosto, quarta-feira, o dia é dedicado à poesia do Porto, com os autores Manuel António Pina e Vasco Graça Moura a serem o centro das atenções. Às 18h, na Maison de la lecture et des Saveur, a obra dos dois autores é apresentada pelo jornalista e crítico literário Luís Miguel Queirós. A leitura de alguns poemas dos dois poetas ficará a cargo Aymeri Suarez-Pazos e será acompanhada de Vinho do Porto.

You are welcome to Chauvigny, Cesariny

A 9 de gosto viaja-se até ao surrealismo e à Elsinore de Mário Cesariny, poeta e pintor falecido há quase dez anos, figura máxima do movimento estético em Portugal. Juntamente com António Maria Lisboa, António Cruzeiro Seixas, Mário-Henrique Leiria e Risques Pereira, fundou o grupo Os Surrealistas, que agitou Lisboa durante a década de 50. Alguns dos poemas do autor serão lidos por Stéphane Godefroy. O dia seguinte é dedicado a mais dois poetas que marcaram a história da literatura portuguesa: Eugénio de Andrade e Sophia de Mello Breyner.

Deste modo, a localidade histórica de Chauvigny será, ao longo de dois meses e meio, a capital da cultura e dos sabores que levam o nome do Portugal bem longe. A iniciativa é organizada pelas associações “Lire, Vivre & Gouter” e “Amis des Éditions L’Escampette”, juntamente com a editora “La Nouvelle Escampette”, que já editou mais de 30 títulos de literatura portuguesa.