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O nu contra nu

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Exposição de fotografias de Leonardo Kossoy no Centro Português de Fotografia, no Porto, até 30 de outubro

LEONARDO KOSSOY

O ato de chegar é um instante de estranhamento. Estamos numa cadeia, sabemo-lo. Os edifícios nunca largam as suas memórias. A cadeia já não existe. Da cadeia já só restam espaços iconográficos. As portas gradeadas em ferro bruto. As celas. Os espaços de recreio. A cadeia é uma memória. Porém, é impossível assumi-la como apenas uma memória, tão poderosa é a presença daquele edifício no imaginário coletiva como materialização da cadeia. Está lá o Centro Português de Fotografia. Também o sabemos. Porém, se queremos nomear o edifício onde esteve preso Camilo Castelo Branco com Ana Plácido, devido aos amores pelos dois alimentados e tidos como adúlteros, não conseguimos escapar a algo de muito substantivo. Aquela é a Cadeia da Relação.

Por isso, o ato de chegar é um quase apelo à fuga. Daquele universo. Daqueles sons amargos. Daqueles gritos incómodos. Não sabemos ainda de onde chegam apelos tão lancinantes. Desconhecemos o porquê daquela voz dorida a ecoar pelas paredes. Sabemos apenas estar na cadeia. E sabemos como, voluntária ou involuntariamente, aquela banda sonora nos aprisiona na angústia das interrogações sem resposta. Porque estamos na cadeia, embora aquela já não seja uma cadeia.
Lá dentro está a exposição “Only You”, do fotógrafo brasileiro Leonardo Kossoy. São 145 imagens divididas em 16 ensaios realizados em estúdio com os atores Gilda Nomacce e Germano Melo. Pelas salas vão espalhar-se fotos, retratos de grandes e pequeníssimas dimensões, instalações e vídeos. Realizada entre 2011 e 2013, a série fotográfica que dá corpo à exposição é o primeiro trabalho em estúdio de Leonardo Kossoy com modelos nus.

LEONARDO KOSSOY

O nu é o limite. O nu é a absoluta ausência de artifícios. O nu não é o nada. Aqueles nus interpelam-nos. Machucam-nos as certezas adquiridas. Despidos de qualquer carga erótica, encenam, ainda assim, o possível entrelaçar dos corpos. Mesmo quando estão distantes. Mesmo quando estão sós. Passa por aí o poder daqueles nus construídos a partir de uma intensa carga dramática.

Uma mesa. Um jantar a dois. Um homem. Uma mulher. Ela deixa antever o seio. Fundo negro. Tudo o mais é ausência. Se estão encaixotados, ensaiam o rasgar da fronteira forçada. Se estão em silêncio, tudo naquele ambiente nos afasta da imaginária voragem silenciosa contida no negrume capaz de sugar os corpos.

O percurso pelas salas escurecidas indaga-nos. Onde está o belo? Há lugar para a perfeição? Aquele homem e aquela mulher envolvem-se. Envolvem-nos. Olham-nos. Deixam-se olhar. Intrigam-nos com as sequências vídeo feitas de fragmentos. Movimentos. Há uma quase sinfonia visual na articulação daqueles gestos, até tudo ficar em suspenso. Parado. Depois, de novo o mexer, o caminhar sobre espelhos.

LEONARDO KOSSOY

É uma mostra de uma beleza rara. Leonardo Kossoy, um apaixonado pela luz do Mediterrâneo, tem dedicado muito do seu tempo último a estudar a obra de pintores como Caravaggio ou Francis Baccon. Interessam-lhe os enquadramentos. Preocupa-se com a iluminação. Será arriscado falar de fragmentos de Caravaggio no modo como é tratada a luz ou os fundos daquelas imagens. O risco, porém, é uma das componentes essenciais de quem ousa deitar um olhar diferente sobre o modo como podem entrelaçar-se as referências literárias ou poéticas nas mais inesperadas criações artísticas.

É o poder do mito dos intocáveis. A fotografia pode desencadear fascinantes viagens ao mundo da literatura, da pintura, da música, da arquitetura. Não sendo nada daquilo é tudo quanto contém cada um daqueles mundos.

LEONARDO KOSSOY

A chegada à terceira sala do percurso expositivo desvenda o mistério principal. Os sons. Os gritos. A voz desesperada. Tudo explode naquela cena de um homem nu a debater-se com um muro imaginário. É uma luta interminável. É uma espécie de encenação do mito de Sísifo. O muro nunca acaba. A vontade de o vencer não tem fim. Em cada instante há um recomeço. Em cada momento há um novo clamor. Na parede oposta, uma mulher nua. Debate-se com um muro imaginário. O seu silêncio é o grito maior. A ausência de ruído desassossega. É uma luta desigual contra o nada.

LEONARDO KOSSOY

O último momento expositivo revela-nos a imagem de uma sequência de fotografias em movimento sobre uma superfície plana até desembocarem numa máquina triturada que as reduz a anódinas fitas de papel. És pó e ao pó voltarás.