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Alhambra Oásis no meio da Andaluzia

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FOTOGRAFIAS DEAGOSTINI / GETTY IMAGES

Património da Humanidade, a antiga cidade muçulmana é uma das grandes joias ibéricas

Há mosaicos amarelos, azuis, verdes, vermelhos. Pequenos mosaicos que guardamos numa memória remota. Filigrana cor de areia a decorar colunas, pedestais, pórticos, pátios inteiros. Repuxos e lagos de água clara. Uma onda de calor a contrapor-se-lhe. E a frescura dos interiores no cimo de um monte, qual palácio encantado. É essa a Alhambra que sobe connosco de novo, muitos anos mais tarde, ao alto da colina de La Sabika. Mas agora muito mais podemos contar.

Deixámos Granada lá em baixo, envolta naquele seu tom avermelhado, como se a cor da pedra preciosa a abraçasse ao fim do dia. E subimos com o firme propósito de viver a Medina 1 com o fervor do deslumbramento. A meio do caminho quase desfalecemos, tantos os autocarros e automóveis numa fila interminável já a tentarem estacionar na encosta para seguir a marcha a pé, tal a profusão de gente se amontoa à porta da Alcáçova. Uns minutos de reflexão e arriscámos. Sem sabermos como, nem como não, acabámos estacionados dentro da cidadela da Alhambra, no parque privado do Parador local. Entrámos e um quarto, miraculosamente vago, deixou que ali passássemos dois dias inteiros.

A luz do dia ainda ia alta mas mesmo assim pareceu tornar-se mais forte para iluminar a construção islâmica de maior monta na Península Ibérica, na sua maior parte erguida entre 1248 e 1354, nos reinados de Maomé I e dos seus sucessores. O passeio faz-se com calma e é já depois do sol posto que entramos no Pátio dos Leões 2.

Páteo dos Leões

Páteo dos Leões

A iluminação do monumento dá à fonte no centro daquele palácio árabe uma suavidade requintada e o pensamento divide-se entre o momento presente e o passado longínquo. Imaginamos o sultão e os seus convidados, o luxo e a decoração mourisca, as embaixadas, as mouras de carne e osso e as encantadas que nos trazem de volta à realidade extasiados com o pormenor dos arabescos que cobrem paredes inteiras das alcovas do harém. A água corre dentro do círculo guardado pelos imponentes 12 leões de pedra branca — os doze signos do zodíaco, dizem — enquanto nos afastamos e entramos no paraíso do jardim interior. É um oásis por onde o vento passa noite fora. A mesma brisa a que nos sabe o gaspacho bem servido na esplanada do restaurante do Parador, em todas as redondezas daquele complexo monumental, o sítio ideal para ficar. E seguimos em frente por portas e pátios e palácios e mais jardins e salas deslumbrantes com cúpulas de madeira. Desde o fecho das portas do monumento ao público, às 18h, que toda a cidadela fica por nossa conta, nossa, dos outros companheiros de dormida e dos discretos vigilantes.

A Alhambra não sucumbe no escuro. Nem perde grandeza debaixo dos 40 graus à sombra com que visitamos no dia seguinte a Sala das Abencerragens 3, o quarto privado do sultão. Sem janelas, a alcova está decorada de cima a baixo, desde o estuque das paredes ao rodapé de azulejos ou à cúpula cravejada de moçárabes coloridos que se unem nos orifícios que deixam entrar pequenos raios de luz a refletir todas as cores. Local mágico.

Sala das Abencerragens

Sala das Abencerragens

Feito à medida da geometria e da simbologia, cheio de anotações premonitórias, inscrições a marcar a história, o símbolo do sultanato ibérico permanece a “pérola encastrada em esmeraldas”, como o descreveram os poetas mouros, E acompanha-nos pelo bosque que o rodeia durante a descida de regresso a Granada. Os cartazes a anunciar mais uma corrida levam-nos a querer visitar a praça de touros, mas as tapas nos bares que a circundam e a animação do povo de caña na mão diz que devemos ficar.

POSTAL

Granada gastronómica

Caracóis guisados acompanhados com presunto de Treveléz pode parecer estranho mas não é. Para os comer não é preciso muito, qualquer casa de pasto que se preze os oferece assim que pedimos o primeiro copo de vinho rosado, rojo ou blanco. Mas a gastronomia local tem muito mais para dar. Granada é particularmente influenciada pela comida árabe e a famosa tortilla del Sacromonte (um bairro da cidade), com o tradicional borrego misturado nos ovos, é a melhor prova disso. Depois há as beringelas de todos as maneiras e feitios, as anchovas e o peixe frito. Ingredientes que se distinguem da mais comum dieta andaluza mas que fazem da cidade um prato de especiarias tão diverso como os odores de uma caixinha de cheiros.