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Algo muito estranho aconteceu

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Dr. Martin Brenner, interpretado por Matthew Modine, e Eleven, interpretada por Millie Brown

O género paranormal está de regresso — com ficção científica à mistura —, e “Stranger Things”, primeira criação dos irmãos Duffer para televisão, promete fazer-nos pensar para lá do que julgamos real. Ao longo de oito episódios, a verdade sobre o misterioso desaparecimento de Will será revelada. Mas há outros segredos por descobrir

É quando tudo parece demasiado calmo que algo de extraordinário acontece e é nos lugares menos prováveis que a ação se desenrola. O nevoeiro ajuda. A falta de uma população que encha uma região desertificada também. Estamos no Midwest norte-americano, e aqui, na cidade ficcional de Hawkins, no estado do Indiana, tudo pode acontecer. Há fenómenos inexplicáveis a assolar a pequena povoação e ninguém sabe o que poderá estar em causa.

Will Byers (Noah Schnapp) é o protagonista ausente. O rapaz de 12 anos desapareceu sem deixar rasto e é preciso encontrá-lo tão depressa quanto possível. “99% dos desaparecimentos de crianças acontecem quando estas estão na companhia dos pais”, diz Jim Hooper (David Harbour), responsável pela polícia. Joyce Byers (Winona Ryder), a mãe de Will, questiona-se sobre o que acontece aos restantes. É neste grupo que o caso do seu filho se insere e é também aqui, neste pequeno número à partida residual, que estão múltiplos desaparecimentos por resolver. É só mais um nome nos registos da polícia, mas é a vida do filho de Joyce que está em jogo.

Conspiração? Rapto? Aqui nem tudo é o que parece. Há pontas soltas, mas a verdade está demasiado bem escondida para que possa ser descoberta de forma fácil. Eleven (interpretada pela jovem Millie Brown, na imagem) parece ser uma das chaves para a resolução de um enigma com uma certa dose de atividade paranormal. Esta rapariga é, ela própria, enigmática — apareceu quando se perdeu o rasto a Will —, mas pode ajudar os jovens de Hawkins a encontrar o amigo. “Ele está escondido”, diz-lhes, sem revelar se está escondido de alguém ou de alguma coisa que o assustou. Ou mesmo se o esconderam contra a sua vontade.

Eleven — o nome vem do número 011 que tem tatuado no braço — sabe mais do que todos os miúdos juntos e vai guiá-los até um portal onde tudo poderá acontecer. Fá-lo como se do popular jogo de tabuleiro Dungeons & Dragons (D&D), que todos os miúdos norte-americanos jogavam na altura, se tratasse. Parece que houve uma rutura no espaço-tempo que levou ao aparecimento de uma realidade alternativa. É preciso, tal como no D&D, descer às profundezas para resgatar Will. A diferença é que aqui o perigo é real e os jovens vão pôr as próprias vidas em risco para salvar o amigo. Não medem as consequências, mas também é esta a bitola da amizade e do companheirismo.

“Stranger Things” não se limita a fazer dos anos 80 um set de filmagens e aborda as questões que preocupavam a população na época. 1983 ainda esconde muitos mistérios e, numa sociedade marcada pela Guerra Fria, há um espaço laboratorial (cujos fins são desconhecidos) em funcionamento. O Laboratório Hawkins é usado pelo Governo dos Estados Unidos da América, mas tudo o que se passa dentro de portas é mistério. Ninguém sabe o que se investiga por lá, e talvez os poderes de Eleven ainda possam vir a dar jeito. Na verdade, a miúda estranha é um dos objetos de estudo.


UM LONGO PROCESSO

Os irmãos Duffer tinham um conceito que consideravam vencedor, mas tinham de defender a sua ideia perante as produtoras. Para vender “Stranger Things”, os argumentistas fizeram tudo o que puderam. Editaram um trailer que combinava imagens de mais de 25 filmes (entre os quais se incluíam títulos como “E.T. — O Extraterrestre”, “Pesadelo em Elm Street”, “Super 8” ou “Halloween”) e desenharam um livro de estilo do mesmo género dos que transformaram os romances de Stephen King em séries e filmes de sucesso. Os dois argumentistas acabaram por conseguir alcançar os objetivos a que se propunham, mas o trailer que criaram apenas lhes valeu um dólar. Parece pouco, mas o universo que criaram cresceu, com ajuda de uma vasta equipa de produção, e a série começou a ganhar forma.

Para Ross Duffer, cocriador e produtor executivo da série, “Hawkins é uma cidadezinha comum, idílica, com pessoas comuns”, e é isso que faz dela “o local ideal para um acontecimento sobrenatural”. Ross e Matt, irmãos apaixonados pelos filmes sobrenaturais dos anos 80, queriam “ver em televisão algo que seguisse o estilo dos filmes clássicos” com que cresceram, como “os filmes de Spielberg e de John Carpenter, mas também os romances de Stephen King”. Fazem-no aqui, e o entusiasmo dos criadores com o tema do sobrenatural era grande desde a infância. Agigantava-se quando se tratavam de “histórias que podiam acontecer com pessoas próximas”, mesmo que pelo meio da narrativa aparecessem criaturas extraterrestres, monstros de tamanho gigante ou cientistas capazes das maiores atrocidades. “Pegámos em tudo isto e pusemos no liquidificador”, explicam nas notas de produção. “Stranger Things” é o caldo que apresentam nesta sua primeira série televisiva.

Com um elenco em que as crianças tomam a dianteira, há dificuldades que crescem do lado da realização — por não se tratarem de profissionais —, mas Shawn Levy, produtor executivo da série e realizador de dois dos episódios, gosta desta imprevisibilidade.
“Quando se escolhem crianças para interpretar um grupo de amigos, nunca se sabe o que vai acontecer, mas todo este processo criou laços entre eles”, explica no mesmo documento que descreve a produção televisiva.

“Stranger Things” conta com Winona Ryder, David Harbour, Finn Wolfhard, Natalia Dyer, Charlie Heaton, Millie Brown, Caleb McLaughlin, Gaten Matarazzo, Cara Buono e Matthew Modine no elenco principal e já está disponível em streaming no serviço de televisão Netflix. A primeira temporada da série (composta por oito episódios) traz, além dos criadores Matt Duffer e Ross Duffer, Shawn Levy e Dan Cohen na produção executiva.

STRANGER THINGS
De Matt Duffer e Ross Duffer
Com Winona Ryder, David Harbour, Finn Wolfhard, Natalia Dyer, Charlie Heaton
Netflix, já em streaming
(Temporada 1)