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TRIBUTO A escultura de Camilo e Ana Plácido, doada à cidade pelo escultor Francisco Simões, chama-se “Amor de Perdição” e pode ser apreciada no Campo dos Mártires da Pátria, junto à cadeia onde estiveram presos os amantes

FOTO LUCÍLIA MONTEIRO

Isabel Paulo

Isabel Paulo

Jornalista

A Baixa do Porto é uma caixinha de memórias do escritor boémio que viveu sem peias a vida para a contar em mais de duas centenas de livros. Deixe-se levar na peugada do Porto camiliano e dê um salto à Casa-Museu erigida pelo marido de Ana Plácido, enquanto revisita as oito obras do autor de “Amor de Perdição” e de “Eusébio Macário”, o livro que o Expresso distribui gratuitamente este sábado

A cadeia dos amantes

FOTO RUI OCHÔA

Na antiga Cadeia da Relação do Porto, Camilo Castelo Branco esteve preso, não uma, mas duas vezes. A primeira, aos 16 anos, acusado de rapto de uma menor de Vila Real; a segunda, a da célebre prisão pelo seu amor proibido por Ana Plácido, detida ao mesmo tempo na ala das mulheres. Em 1859, a escandalosa Ana Plácido Camilo abandonou o marido, o rico Pinheiro Alves, para viver em Lisboa com o escritor e poeta e, depois, à vista de todos, no Porto. A 1 de outubro, sob “o céu azul como nos dias estivos”, os amantes eram acusados de adultério, vivendo em celas separadas durante um ano. Na cadeia, Ana Plácido dispunha de criada e piano, contando-se que se ouvia amiúde a sua voz lânguida cantar árias da “Traviata”. Na cela 12, tendo por companhia um cão e um canário, Camilo escreveu em 15 dias “Amor de Perdição”, que retrata os amores trágicos entre Teresa Albuquerque e Simão Botelho. A cela com vistas sobre a cidade e vários objetos do escritor não se encontra de momento visitável, devido a obras no piso 3.

INFORMAÇÃO ÚTIL
CENTRO PORTUGUÊS DE FOTOGRAFIA Campo dos Mártires da Pátria, Porto. Tel. 220 046 300.
Segunda a sexta das 10h às 18h. Sábado e domingo 15h às 19h

Às voltas do tribunal

FOTO LUCÍLIA MONTEIRO

No tribunal que julgou Camilo Castelo Branco pelo crime de adultério mora atualmente o Divan, um restaurante de cozinha turca, situado na esquina da Rua de Ceuta com a Rua da Picaria, junto à Praça Dona Filipa de Lencastre, um dos epicentros da animada movida portuense. O juiz que presidiu ao famoso julgamento foi José Maria de Almeida Teixeira de Queirós, pai de Eça, que se recusou a julgar o caso por ter vivido um caso similar. A Relação indeferiu o pedido e os réus foram absolvidos, mas não perdoados pela sociedade zelosa da moral e bons costumes.

INFORMAÇÃO ÚTIL
DIVAN Rua de Ceuta, 3, Porto.

Pegada histórica

FOTO LUCÍLIA MONTEIRO

Ao cruzar a Praça Filipa de Lencastre, rumo à vizinha Rua do Almada, uma das mais importantes artérias da cidade novecentista onde Ana Plácido vivia com o marido, encontra agora uma das ruas de maior pressão turística, com múltiplos espaços de restauração, sem perder o charme de de outrora. Do outro lado dos Aliados, visite o novo Teatro do Bolhão, instalado num belíssimo palacete da segunda metade do século XIX, outrora propriedade do abastado conde do Bolhão, inseparável de Camilo e que aqui dava as mais concorridas festas da elite local. Pouco mais acima, no número 630 da comercial Rua de Santa Catarina, encontra-se a casa sob cujo teto casaram e viveram os amantes, antes da mudança para a casa de Pinheiro Alves, em São Miguel de Seide.

INFORMAÇÃO ÚTIL
TEATRO DO BOLHÃO Rua Formosa, 342, Porto. Tel. 222 089 007
Quartas e sábados das 14h30 às 19h (visitas por marcação, €3)

Candidato a médico

FOTO LUCÍLA MONTEIRO

Nos idos de 1843, com 18 anos e casado de fresco com Joaquina Pereira de 16 anos, que deixou em Friúme, Ribeira de Pena, o então candidato a médico matriculou-se no primeiro ano de anatomia, da Escola Médico-Cirúrgica do Porto, na altura a funcionar no atual Hospital de Santo António. Volúvel, pouco depois inscreveu-se em Química. Não concluiu qualquer curso, mas os ensinamentos de estudante viriam a revelar-se úteis em várias na sua prolixa obra, como é o caso de “Eusébio Macário”, boticário de profissão. A dois passos do hospital, na Praça Parada Leitão, conhecida por Praça dos Leões, encontra-se a Reitoria da Universidade do Porto, antiga Escola Politécnica, frequentada pelo inquieto Camilo, após ter abandonado o seminário e os estudos teológicos “embebido de unção religiosa”. O poeta aventureiro amava demais a vida para se tornar diácono, como chegou a ponderar.

INFORMAÇÃO ÚTIL
HOSPITAL DE SANTO ANTÓNIO Largo Professor Abel Salazar, Porto

A última morada

FOTO LUCÍLIA MONTEIRO

O cemitério da Ordem da Lapa, junto à Igreja que guarda o coração doado “à mui nobre, sempre leal e Invicta cidade” por D. Pedro IV, é não só o mais antigo, como o mais romântico do Porto. Nele repousam os restos mortais de Camilo Castelo Branco, no jazido da família Freitas Fortuna, homem de negócios de posses e amigo de todas as horas do romancista mal quisto pela conservadora burguesia portuense. Em carta a datada de abril 1886, o escritor rogou a João Freitas Fortuna que lhe desse a última guarida. “Eu peço que conduzam as minhas cinzas na mão de uma criança, para assim significarem a pequenez a que me reduziram as enormes angústias. A desgraça que agigantou o grande fardo teutónico fez de mim o pigmeu da miséria. Ele e eu, todavia, somos dois grãos de areia envoltos no vagalhão da morte”, escreveu o romancista, cujo túmulo pode ser apreciado em visitas regulares. No próximo sábado, 30 de julho, às 10h, há visita especial (€10), guiada pelo historiador Francisco Queiroz, sobre “A História do Cemitério da Lapa”, a 13 de agosto, às 21h30, o mote é a “A Arte Tumular”, enquanto a 3 de setembro, às 17h30, ficará a conhecer “Estórias de quem aqui repousa...”.

INFORMAÇÃO ÚTIL
CEMITÉRIO DA LAPA Largo da Lapa, Porto. Tel 225 502 828
Visitas (€5) às terças e quintas das 10h às 17h30 e sábado até às 19h (mínimo de 10 inscrições). Gratuitas para escolas e universidades seniores e para público em geral no último sábado de cada mês.

Na intimidade familiar

FOTO D.R.

Na Casa-Museu de Camilo, a primeira das casas de escritores aberta ao público no país e uma das mais antigas da Península Ibérica, viveu o casal a partir do inverno de 1863, até ao fatídico dia de 1 de junho de 1890 em que Camilo se suicidou com um tiro de revólver. A casa amarela construída pelo brasileiro torna viagem Manuel Pinheiro Alves, que diz-se morreu de desgosto pela absolvição da mulher, é considerada a maior memória viva do poeta e romancista, onde escreveu a maioria das suas obras. Abriu as portas ao público em 1922, albergando ainda o centro de Estudos camiliano. Aqui é dada a conhecer boa parte do mobiliário da família, escultura e pintura, utensílios pessoais, mais de 3500 volumes bibliográficos, edições originais e 787 obras pertencentes à biblioteca particular de Camilo e loja de venda das suas obras. A entrada é livre e as visitas orientadas.

INFORMAÇÃO ÚTIL
CASA DE CAMILO - MUSEU Rua São Miguel, 758, São Miguel de Seide, Famalicão. Tel 252 327 186
Terça a sexta das 9h30h às 17h.30. Sábado e domingo 10h30 às 12h30 e 14h30 às 17h30