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Don Cheadle a fazer de Miles Davis no filme que realiza e interpreta: a ‘cópia’ é quase perfeita

Don Cheadle faz tudo neste retrato do génio e do demónio que habitavam Miles Davis. Já está nas salas

Don Cheadle é uma cara familiar, tanto do cinema (foi nomeado há mais de uma década para um Óscar por “Hotel Ruanda”) como da TV (integra “House of Lies”). Vimo-lo há pouco no último “Capitão América”. Mas a obra que nos traz aqui, “Miles Ahead”, retrato vibrante de Miles Davis, nada tem que ver com blockbusters. Para o ator de 51 anos, é mesmo o filme de uma vida, o seu papel mais tocante, também a sua estreia na realização. “Eu queria improvisação, eletricidade, fogo”, disse-nos o realizador no último Festival de Berlim, em fevereiro. “Queria um filme em que o Miles Davis, se fosse vivo, tivesse ganas de entrar como ator! E que fosse a música dele a contar a sua história”, acrescentou Cheadle, depois de recordar que Miles Davis, pelos discos dos seus pais, fizeram parte da banda sonora da sua infância. “Miles Ahead” começa na Nova Iorque de 1979, no momento em que um jornalista fictício da “Rolling Stone” (Ewan McGregor) tenta entrevistar a lenda. Só que Davis, numa altura de crise criativa, anda destravado e tem a carreira à beira do colapso. Daí, parte o filme em flashbacks para momentos-chave da carreira e da intimidade do trompetista — retrato que, embora mantenha distâncias, tudo faz para ser afetivo.

Neste one man show de Don Cheadle que “Miles Ahead” é (o norte-americano realiza, produz e interpreta), seria injusto deixar de lado a figura romântica do filme e aquela que mais o enche de melancolia, Frances Taylor Davis, primeira mulher de Miles, por ele usada e abusada (como se soube que também outras foram) e sua musa. A relação de ambos foi intensa e violenta. Os demónios dentro dele, e que eram ego, força e raiva, também o transformavam num homem colérico, faceta negativa que este filme não suaviza. “O que é fascinante na personagem de Frances”, salientou a atriz que a interpreta, Emayatzy Corinealdi (acabou de concluir um remake da telessérie “Raízes”), “é a abnegação dela. Frances foi uma bailarina promissora, fez parte da companhia original de ‘West Side Story’, trabalhou com Sammy Davis Jr., tinha uma vida cheia e trocou a carreira por amor. Para dar tudo a Miles, que era genial e charmoso, mas por vezes um homem horrível. Acho esta humildade dela um ato de coragem. Tal como corajosa é a sua decisão, anos depois, quando ela sai de casa, com a relação deles já gasta.”

“Miles Ahead” é demasiado ansioso para chegar à graça e à chama de um “Bird”, o filme em que Clint Eastwood abordou a vida de Charlie Parker — e uma das obras mais elevadas deste género. Contudo, esta produção independente não deixa de ser um filme sem medo sobre um homem sem medo, genial e colérico, sempre à procura de uma nova pele, de uma regeneração. Na sua célebre “Autobiography”, Miles conta que muita gente costumava perguntar-lhe para onde estava a ir a sua música. Sem se armar em bruxo, ele respondia que se perguntava o mesmo, porque a música estava sempre a transformar-se nesse “something else” — e entre outros citava Prince, com quem deixou música gravada e ainda inédita, assegurou Cheadle. “Não tenho dúvidas que, se ele fosse vivo, estaria hoje a tocar com os novos, gente como Kendrick Lamar, os Alabama Shakes, D’Angelo e Kamasi Washington”, acrescentou o ator/realizador. “Miles Ahead” é dinâmico e convulso. Não faz vénias, não ergue pedestais. É certo que fala do que já passou, de alguém que já desapareceu. Mas o que nos deixa, e isto parece-nos apropriado e justo, é uma ideia de futuro (que decerto agradaria a Miles Davis).