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O fabuloso destino de Buddy DeSylva

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FOTO JERRY COOKE/THE LIFE IMAGES COLLECTION/GETTY

Filho de um português, ator do cinema mudo, trocou os estudos pelo ukelele, conquistou a Broadway com as suas letras, bateu Gershwin no bilhar, chegou a produtor da Paramount, fabricou Shirley Temple, ajudou a fundar a Capitol Records e estava na Casa Branca quando o jazz aí chegou.

TEXTO Maria Ramos Silva

Frio, frugal e taciturno. Calvin Coolidge não tem tempo para desperdiçar sorrisos. E Edward Bernays não tem tempo para perder mais tempo. Cabe ao pai da indústria das relações públicas melhorar a imagem do 30º Presidente dos EUA. Planeia “organizar um evento com artistas”, recordam Dan Nimmo e Chevelle Newsome em “Political Commentators in the United States in the 20th Century”. No final de um serão de espetáculos na Broadway, o comboio da meia-noite cumpre o seu destino até Washington para um pequeno-almoço de charme. Entre as celebridades que desaguam na Casa Branca está Buddy DeSylva, o famoso letrista, a quem uma hora chega para escrever um tema vitalício no grande cancioneiro. No rescaldo do encontro, o “The New York Times” titula: “Atores comeram bolos com o casal Coolidge... e o Presidente quase sorriu.” O relato prossegue no interior: muitos apertos de mão, um menu composto por café, tostas, fruta e salsichas, e um dia de boa digestão para a história. A 17 de outubro de 1924, uma orquestra de jazz, a de Ray Miller, atuara pela primeira vez no número 1600 da Pennsylvania Avenue. E logo para o mais inexpressivo dos anfitriões.

Nas primeiras décadas do século XX, Buddy riria mais, e melhor, privilégio coroado com uma estrela no passeio da fama de Vine Street. Do lado de lá do Atlântico, o tapete vermelho prestigia a caminhada do “Midas de Hollywood”, o filho de um lusitano errante confinado a um rodapé da memória americana. “Descendente de uma velha família aristocrática portuguesa”, descreve a revista “Life” de 30 de dezembro de 1940, num longo artigo dedicado a Buddy, Aloys DeSilva, o seu pai, nasce a 14 de julho de 1862. Poucos anos antes de morrer, o registo de passageiros de uma viagem de barco rumo à Jamaica acusa: Aloys terá origens no Porto. O sonho americano passara pelos espetáculos de vaudeville e pelos palcos da Broadway. Com o nome artístico Hal De Forrest, figura nos créditos da produção “A Gentleman from Mississippi”, em cena entre setembro de 1908 e setembro de 1909. Ao lado dos cabeças de cartaz Harrison Rhodes e Thomas A. Wise, o grupo que anima a peça cómica faz o aquecimento no National Theatre, em Washington. “Formidável”, comenta um dos espectadores, o Presidente Theodore Roosevelt. Em 1915, Hal estreia-se no cinema, ainda nos primórdios das fitas mudas. Participa em nove títulos, retira-se em 1922, e despede-se de vez do som da vida a 15 de fevereiro de 1938, em Nova Iorque, onde é cremado. Para a posteridade fica uma foto ao lado do pugilista profissional Jack Dempsey, campeão do mundo de pesos-pesados, e de Estelle Taylor, outra vedeta da era do silêncio no ecrã. Deixa um segundo filho, nascido em 1912 e entregue à sua sorte no mundo. “Hal DeSylva esteve na marinha durante a II Guerra, na base de Pearl Harbor; e morreu em Los Angeles em 1971”, confirma ao telefone, a partir de Brookfield, Wisconsin, Mark Sikora, sobrinho-neto do casal que adotaria Hal, e o responsável por plantar online a árvore genealógica de parte da família.

O rapaz maravilha do ukelele

Se o advento dos talkies coincide com o fim da carreira do patriarca DeSylva, com a revolução nas longas-metragens Hollywood saliva pelas virtudes do primogénito, Buddy, ou George Gard, o seu nome de batismo, herdado do avô materno. Nasce em Nova Iorque, a 27 de janeiro de 1895, fruto da união de Hal com Georgetta. O casamento esfuma-se num ápice e após o nascimento do filho a miúda californiana de 17 anos regressa a Los Angeles. Buddy cresce longe do pai, com quem se haveria de cruzar apenas anos mais tarde. Desencaminhado pela música, o curso na University of Southern California perde o pio antes do último ano.“Cantava canções que escrevia e as pessoas reuniam-se à sua volta para ouvi-lo”, recorda o melhor amigo, David Butler, a Irene Khan Atkins, numa recolha da história oral. “Começámos a dar-nos na praia, em Ocean Park, Santa Monica. Ele trazia o ukelele e tomávamos banho.” As memórias perdem-se na primeira década de 1900, quando mergulhava em Catalina para resgatar moedas do fundo do mar. “De um centavo? Não, eram de cinco centavos. São mais fáceis de ver e de gastar”, conta décadas volvidas o “rapaz maravilha” ao jornal de San Bernardino. Buddy vive nos apartamentos Alvarado. A mãe trabalha para o condado. O avô é o temido xerife de Los Angeles, responsável pela captura de dois famosos assaltantes de comboios, e adverso à ideia de o neto de caracóis louros se estrear nos números de vaudeville. O grande trampolim destes tempos é Baron Long, mandachuva dos principais redutos noturnos da cidade e testemunha de uma manhã de fim de semana decisiva. À partida, seria apenas mais uma, passada no Ocean Park Hotel, com a mulher Martha. Mas quando as cortinas do quarto se abrem, Long vê o mar e um magote de gente sentada em círculo. No meio da roda encontra Buddy DeSylva a tocar ukulele e não hesita. “Vem comigo e ponho-te a tocar na orquestra havaiana.” Corre o ano de 1916 quando Baron, mais tarde um gigante do sector hoteleiro e um férreo desafiador da Lei Seca, abre aquele que terá sido o primeiro clube de inspiração havaiana fora da ilha dos colares de flores, o Hawaiian Village, com Buddy como entertainer. E a gozar de melhor sorte que Rudolph Valentino, certo dia despedido por Baron pela péssima prestação musical, alheio à dispensa da futura estrela de “Os Quatro Ginetes do Apocalipse”.

Nesse mesmo verão, um episódio caricato envolve o comediante Eddie Cantor, então em cena em Los Angeles. No final de um espetáculo, quando toma um café, cobrem-lhe o rosto com um casaco e enfiam-no num carro. Chegado ao destino, descobre que a dupla de falsos raptores são os atores Mabel Normand e Thomas Meighan, que o encaminham para o Hawaiian Village. No interior, escuta-se o som do ukelele do luso-descendente de pele escura. A peripécia é evocada em “Looking for Mabel”, de Marilyn Slater, 2009. Buddy tornar-se-ia mais uma das suas descobertas, certamente aquém do mediatismo de Charlie Chaplin, mas ainda assim um acontecimento. Ao ponto de a atriz se sujeitar à acusação de rapto só para responder ao pedido de DeSylva: conhecer a estrela do vaudeville Eddie Cantor.

Pouco demoraria até Buddy começar a escrever canções para Al Jolson, eternizado pela participação no primeiro filme falado da história, “O Cantor de Jazz”, de 1927. Levado por Jolson para Nova Iorque em 1918, assina dois grandes hits para a Broadway, “Louisiana Purchase” e “DuBarry”, e associa-se ao grupo de compositores de Tin Pan Alley. Por volta de 1925, DeSylva, Lew Brown e Ray Henderson formam uma das mais prolíficas equipas de letristas da América, e deixam a sua marca em temas como ‘Stairway to Paradise’, ‘California, Here I Come’, ‘Somebody Loves Me’, ‘April Showers’ ou ‘The Birth of the Blues’. Em 1930, findam a parceria e os retiros criativos no Ritz de Atlantic City, berço de boa parte dos hinos compostos pelo trio. Buddy regressa a Hollywood, agora para um contrato com a Fox Studios e a responsabilidade pelas bandas sonoras de “Sunnyside Up”, “O Louco Cantor” e “1980”.

Pelo meio, as colaborações com Gus Kahn, Jerome Kern, Vincent Rose, Louis Silvers, Joe Meyer, Victor Herbert, Emmerich Kalman e um dos mais populares, George Gershwin. “Um dia estava no escritório do meu publisher, o Max Dreyfus, quando entra o Buddy DeSylva. ‘George, vamos fazer um hit!’. Eu disse ‘OK’, sentei-me ao piano, e comecei a tocar um tema que andava a compor. Minutos depois começou a trautear o título da canção: ‘Oh, Do it Again’”, recorda o compositor em 1934, citado por Howard Pollack em “Gershwin: His Life and Work”, mais de uma década depois de a sensual canção conquistar a Broadway no musical “The French Doll”.Mas a empreitada mais impressionante, recordada por Richie Gerber em “Jazz: America’s Gift”, remonta a 1924. Gershwin e DeSylva trabalham a todo o gás no musical “Sweet Little Devil”, com estreia prevista para 21 de janeiro. Estamos a dia 4 e o salão de jogos Ambassador é o ponto de partida de uma revolução na história da música popular americana. Enquanto Buddy despacha o amigo no bilhar às três tabelas, as páginas do “Herald Tribune” anunciam para espanto da dupla que George Gershwin prepara um concerto de jazz para o conjunto de Paul Whiteman. George liga furioso a Whiteman e garante-lhe que é impossível conseguir tal proeza em poucas semanas. Acaba por deitar mãos à obra, e concluir sem atrasos... “Rhapsody in Blue”.

Capitol, casa de Mercer, Wallichs e DeSylva

PASSAGEM DE ANO No dia 1 de janeiro de 1900, o compositor Robert Katscher, Buddy DeSylva e o trompetista Henry Busse

PASSAGEM DE ANO No dia 1 de janeiro de 1900, o compositor Robert Katscher, Buddy DeSylva e o trompetista Henry Busse

FOTO BETTMANN /GETTY

Curiosamente, cabe a Paul Whiteman inaugurar as gravações da Capitol Records, mais um colosso com dedo de Buddy. Em 1942, o letrista Johnny Mercer bate à porta de Glenn E. Wallichs, o pai da Wallichs Music City, a famosa loja de discos de Hollywood onde Frank Zappa haveria de trabalhar em part-time nos anos 60. Debatem o estado da indústria discográfica e a hegemonia das etiquetas da costa Leste, dominada por Decca, RCA e Columbia. A resposta do lado do Pacifico está por dias. Wallichs revela interesse no acordo e reclama a responsabilidade pelo business puro e duro. Mercer ficaria encarregado dos artistas. Falta um ingrediente para fundar uma das melhores maternidades de vinis da história: dinheiro. O cheque de 25 mil dólares chega à hora de almoço de 2 de fevereiro, num restaurante de Hollywood, pela mão de um parteiro de luxo, DeSylva, então produtor-executivo da gigante Paramount Pictures. No mês seguinte, o trio ergue a Liberty Records, que em abril desse mesmo ano, num pequeno escritório a sul de Vine Street, submete-se a novo batismo: Capitol. O resto é lenda, instalada na emblemática Capital Tower desde 1956, depois de a gravadora ser comprada pela EMI. Apenas três meses depois do arranque, a gravadora ocupava os lugares cimeiros no top da “Billboard”, com Ella Mae Morse a interpretar ‘Cow Cow Boogie’. Seguem-se no catálogo Nat King Cole, Bing Crosby, Peggy Lee, Stan Kenton, Billie Holiday e Les Paul. Chegados a 1946, balanço mais que positivo: 42 mil discos vendidos.

No cinema, Buddy soma e segue, com influência em cerca de 40 filmes por ano. Celebriza-se por impulsionar nomes como Bob Hope e cultivar uma antipatia duradoura com o realizador Preston Sturges, que acaba por abandonar os estúdios. “Não param de falar sobre Buddy DeSylva, a sensação de Hollywood, e quase tudo é verdade”, reza o “The Sunday Morning Star”, traçando o perfil do homem que ganhou um balúrdio pela primeira canção que escreveu, que não fatura menos de 25 mil por ano, e que aos 30 já acumulara o seu primeiro milhão. “Ganho bem e isto é uma brincadeira de crianças comparado com o trabalho na Broadway”, relativiza Buddy. “É escandaloso o número de miúdas do guarda-roupa que estão apaixonadas por ele”, garante o jornal sobre o produtor, que se mantém no cargo até 1944, ano em que “O Bom Pastor”, com Bing Crosby, garante o triunfo para a casa, onde o risco lhe assiste a passada. Quando “The Lost Weekend”, romance bestseller de Charles Jackson, chega aos quiosques, Billy Wilder devora-o no comboio que liga Los Angeles a Nova Iorque. Lê, relê, faz anotações e telefona a Buddy. Pede-lhe que compre os direitos para levar a história ao ecrã. Os restantes executivos da Paramount escarnecem do enredo, com sordidez a mais e perspetivas de rentabilidade a menos. DeSylva recusa dúvidas e deposita 50 mil dólares nas mãos de Wilder. “Tenho a certeza que o ator vai ganhar o Óscar”, confia Billy. Certeiro. Em 1945, a Academia entrega a estatueta dourada a Ray Milland. O reinado ficaria associado a títulos como “Shirley, a Mascote do Regimento”, “A Pequena Rebelde”, “O Anjo do Farol”, “O Soldadinho de Chocolate”, “A Menina Ching-Ching”, e a figuras como as protegidas Shirley Temple ou Betty Hutton, catapultadas pelo produtor para o estrelato.

Teriam sido bons tempos a colher os frutos de uns lucrativos anos 60, bafejados pelo slogan “Capitol, a casa dos Beatles”; a multiplicar piscinas, e a amealhar obras primas — a “Art Digest” esbanja adjetivos quando a coleção de DeSylva, repleta de esculturas de Rodin, telas impressionistas e composições modernas, é apresentada ao público em Los Angeles. De resto, pintar é um dos seus passatempos, como partilha a revista “Life”, generosa nas páginas que dedica ao trajeto do homem de figurino irrepreensível, o mesmo que recusa cocktails antes da hora do almoço, que esvazia três a quatro maços de Chesterfield por dia, e que passou o resto dos seus dias a viajar entre França, Bermudas e Brasil, entretanto reformado da roda viva do entretenimento, depois de sofrer um AVC. “Talvez não seja mais famoso pelo seu nome. Há imensas figuras de Hollywood chamadas Buddy, e com tantas atividades, talvez pensem que estamos a falar de quatro pessoas diferentes.” Não estão. Referem-se a um só homem, sentenciado por um enfarte em 1950, e enterrado no Forest Lawn Memorial Park, em Los Angeles. Mas o repouso fica para depois, porque este coração com mais que uma assoalhada motivou um folhetim épico.

Marie contra Marie

Em 1939, Buddy tem 44 anos, um papel de prestígio na esfera do espetáculo, e uma agenda demasiado lotada para prescindir dos préstimos de uma secretária zelosa. A imprensa anuncia a contratação de Marie Ballentine, uma “morena vivaça” de 23 anos. Em poucos meses, consuma-se o esperado affair com a jovem. A 10 de março de 1944, a relação dá origem a Stephen Ballentine, único filho de Buddy, nascido à margem do casamento de 19 anos com uma outra Marie, de quem se mantém ao lado apesar de reconhecer a paternidade do bastardo.

Com a sua morte, enceta-se uma batalha judicial entre os herdeiros. De acordo com a lei então vigente, “a viúva ou os filhos do autor” garantem os direitos de autor. Marie, a legítima mulher, reclama para si a totalidade do benefício, tentando excluir Stephen. Em 1955, no desfecho do processo que opõe Marie DeSylva a Marie Ballentine, numa decisão histórica saída do progressista estado da Califórnia, o Supremo Tribunal reparte o privilégio pelo pequeno Stephen e pela viúva de Buddy. O lastro do caso chega aos nossos dias. Frequentemente citado em matéria de direitos da família, abanou uma instituição chamada DOMA — Defense of Marriage Act. Criado pela mãe, Ballentine fixa-se na Califórnia depois de servir no Vietname, e morre em Los Angeles em 1985. Fraco consolo para Marie Wallace, a antiga dançarina do Ziegfeld Follies, mais tarde senhora DeSylva, madame destacada da lista VIP de Hollywood. Sobram-lhe as recordações de 1918, quando pisava os palcos, e quando conhecera Buddy. DeSylva propusera-lhe casamento poucas semanas depois de se conhecerem. Marie impôs uma condição: uma canção feita para si por medida. Buddy ofereceu-lhe ‘Somebody Loves Me’. Saiu mais um hit, um “sim”, e um enlace desatado por uma secretária excedentária em competências. À sua morte, a fortuna de Buddy estima-se em 3 milhões de dólares. Em 1956, Michael Curtiz lança o filme “A Felicidade Não Se Compra”, inspirado em DeSylva na sua fase Tin Pan Alley, aquela marcada pelas estadas no Ritz, embaladas por produtivas partidas de golfe. E pela certeza de que nem isso destaparia os dentes do presidente Coolidge, indiferente à música, e jogador por obrigação. Quando o sucessor Herbert Hoover chegou à Casa Branca encontrou um adereço deixado para trás sem saudades. Os tacos de Calvin.