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18 minutos com Irvine Welsh: “‘Trainspotting 2’ não vai ser um filme para putos”

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FOTO JEREMY SUTTON-HIBBERT/GETTY

O escritor que inventou “a casa de banho mais nojenta da Escócia” falou-nos de “Trainspotting 2”, a sequela que Danny Boyle, vinte anos depois do filme-matriz, acaba de rodar com o mesmo elenco

ENTREVISTA
Ele é de Leith, bairro proletário de Edimburgo, teve uma adolescência no fio da navalha, regada a sexo, drogas e rock’n’roll, e tornou-se conhecido por descrever com genuína rudeza o que viu e viveu. Em 1996, atingiu um momento de rara glória cinematográfica quando Danny Boyle adaptou ao grande ecrã o seu best-seller: “Trainspotting”. Escreveu depois uma sequela para Mark “Rent Boy” Renton (Ewan McGregor), Daniel “Spud” Murphy (Ewen Bremmer), Simon “Sick Boy” (Jonny Lee Miller) e companhia. Chamou-lhe “Porno”. As personagens e os lugares continuavam os mesmos, mas o vício da heroína (dos agora desintoxicados) fora substituído pela dependência do sexo e a indústria à sua volta. A latrina mudara de aspeto... O filme, esse, tardou a ser feito. Danny Boyle rodou-o agora, duas décadas depois do original. Vai estrear-se no início de 2017.

Qual foi a sua função em “Trainspotting 2”, além de ser o autor do livro e, digamos, o ‘líder espiritual’ de todo o projeto?
Tive mais do que uma tarefa. Discutimos muito o argumento que o John Hodge [colaborador habitual de Danny Boyle] escreveu a partir de “Porno”. Na discussão, tive o cuidado de não querer impor a minha vontade. Também ajudei a equipa a escolher os locais de rodagem, abri-lhes muitas portas, apresentei-os ao underground atual de Edimburgo, ou o que dele resta. O filme passa-se sobretudo nesta cidade. E também em Glasgow. A rodagem começou em maio.

Qual é a diferença de produção mais saliente entre este e o filme que Boyle rodou há 20 anos?
O dinheiro. Temos muito mais agora, carradas dele se compararmos os dois orçamentos. Eu mudei de estatuto porque agora fizeram de mim um produtor executivo. Meto as mãos na massa. Faço parte da ‘máquina’, participo da promoção do trabalho, essas coisas. Mas o Danny não é pessoa de esbanjar, antes pelo contrário, mais dinheiro na mão significa para ele mais trabalho, mais ideias, mais tempo de rodagem, mais problemas.

“Trainspotting” teve o condão de encapsular como poucos o tempo em que foi feito — os anos 90. Acha que as personagens do filme podem sobreviver fora desse tempo?
Essa é a questão central que me coloquei quando escrevi “Porno” e que surgiu de novo para o filme. É que toda a gente ainda se lembra das personagens. Tinham alcunhas bizarras, “Spud”, “Renton”, “Sick Boy” mas quando as pessoas me encontram no metro em Londres, ainda hoje, vêm-me falar delas como se as tivessem conhecido ontem, como se fossem gente lá de casa.

Acha que o próprio filme acabou por moldar o seu estilo de escrita, influenciando os livros que publicou a partir de 1996, como “Porno”, por exemplo?
Isso é interessante porque quando escrevemos um livro não temos exatamente uma cara para as personagens na cabeça. Só que eu passei a ter... Não posso mais pensar no [Francis] Begbie sem me lembrar da cara do Robert Carlyle. O filme impôs-se no inconsciente de quem o viu e as suas imagens acabaram por influenciar-me.

O que é que diria se lhe pedissem uma sinopse de “Trainspotting 2”? Que filme é este?
É uma história da Edimburgo atual onde o Renton, o Begbie, o Sick Boy e o Spud se reencontram, lançando-se depois na indústria pornográfica de uma forma que, no mínimo, é inovadora...

Cresceu num bairro social dessa cidade. O cinema era importante para si quando era miúdo? Que filmes via?
Ah, sim, havia o futebol e o cinema. Antes de começar a ir ver os jogos do Hibernians, frequentava os cinemas de bairro, que hoje se transformaram em pubs, outros já nem existem. Tenho boas memórias dos James Bond, sobretudo os da fase Sean Connery, que é um herói da cidade. Lembro-me dos filmes de Bruce Lee. E do cinema porno da esquina, que se chamava Classic, e no qual nos conseguíamos infiltrar a partir dos 13, 14 anos, por aí. Não havia um controlo muito rigoroso à entrada.

Quando chegou a adolescência, rumou a Londres...
A minha adolescência coincidiu com os anos 70. E depois veio o punk. Respondi a esse apelo, que foi muito intenso para mim e para as pessoas que tinham crescido como eu. Deixei a Escócia e fui para Londres, claro. O punk era tudo. Uma música com a qual nos identificávamos. Ter uma banda era quase obrigatório. E não era uma coisa de modas, mas sim um espírito, um sentimento muito forte que os filhos de toda a classe média partilhavam. Acho que o cinema nunca conseguiu captar essa energia, aquilo que então vivemos.

“Trainspotting” foi à sua medida uma tentativa de continuar o punk, 20 anos depois?
Houve um momento em que pensámos que tínhamos reinstaurado uma nova cultura marginal. Tínhamos esse filme como emblema, havia novas bandas a dar cartas, íamos ficar finalmente livres do legado de Thatcher. Não nos demos conta de que o filme acabaria por representar antes um requiem para a cultura britânica à beira da globalização.

Essas memórias influenciaram “Porno”?
Não diretamente, mas ainda não pensei nisso. De qualquer forma, “Trainspotting 2” não é uma adaptação rigorosa do livro. Tem a sua própria vida. Os atores ficaram bastante satisfeitos com o argumento, em especial o Ewan McGregor.

Escreveu “Porno” em 2002, seis anos após “Trainspotting”. Mas o filme só aparece agora. Entretanto, muito se escreveu sobre esse atraso. Houve uma fase em que Danny Boyle e Ewan McGregor estavam de costas voltadas. Esta diferença de tempo não influencia tudo?
Influencia muita coisa. E como nós somos teimosos e nos dissemos que o filme não faria sentido se não fosse interpretado pelos mesmos atores, as diferenças são bem visíveis: estão nas caras deles. Nos anos 90 aquelas personagens julgavam-se invencíveis. O tempo, entretanto, tornou-as mais vulneráveis. Eu acho que há sempre um risco quando se faz uma sequela, mas é difícil prever esse risco quando a sequela surge vinte anos depois. Temos de esperar para ver.

Acha que “Trainspotting 2” vai correr bem?
Espero que sim, mas não ponho as mãos no fogo. Sei que a geração de “Trainspotting” cairá em peso nas salas mas... nós somos quantos agora? “Trainspotting 2” não vai ser um filme para putos. Para os putos de agora. Aliás, a piada maior disto tudo vai ser ver a reação dos que nasceram nos anos 90 e que, por causa disso, não têm uma memória dessa década nem uma ligação ao primeiro filme. O que vão pensar? Que nos recusámos a envelhecer? Espero que eles não fiquem com aquela sensação nostálgica de quem está a folhear um álbum de família.