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Teatro Nacional São João serve “O Meu Jantar com o André” em ambiente nova-iorquino

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João Tuna

Peça retrata uma conversa real entre dois artistas e amigos, durante a qual se pensa a arte, o teatro e a vida

André Manuel Correia

Dois artistas, o dramaturgo e ator Wallace Shawn e o encenador e ator André Gregory, reencontram-se após um longo período de afastamento. O local escolhido é um restaurante chique nova-iorquino, onde aproveitam para pôr a conversa em dia. Enquanto comem, debatem a arte, o teatro e a vida. Sacia-se a reflexão. Em 1981, estreou o filme “O Meu Jantar com o André”, que ilustra esses diálogos reais entre o par de amigos, e agora uma encenação contemporânea da obra chega ao Teatro Nacional São João (TNSJ), no Porto. A peça, “confecionada” pelo ator Manuel Wiborg, será servida a partir de hoje e até 31 de julho.

Ao longo de uma hora e um quarto, Wallace Shawn (Manuel Wiborg) e André Gregory (João Vaz) envolvem-se, sentados à mesa, numa dialética filosófica. Dois amigos, muito diferentes um do outro, questionam o que é que o teatro deve fazer, para onde se deve encaminhar a arte e o que se passa no mundo.

Seis anos antes deste reencontro, André Gregory debateu-se com o seu trabalho e foi assaltado por um sentimento de insatisfação criativa. Nesse instante, desiste de ser encenador, apesar do sucesso das suas peças obtido na Broadway, para ir à procura de novas experiências. Inicia um périplo pelo Oriente e por África com o encenador polaco Jerzy Grotowski, para tentar descobrir o sentido da arte. Essas vivências e novas perspetivas adquiridas por André são um dos pratos fortes no jantar entre os dois velhos conhecidos.

“Mais do que mostrar uma história exterior a nós, mostra-nos a nós. Mostra o que é a realidade dos atores e dos artistas. E, sobretudo, não apresenta respostas, só coloca questões.”, explicou Manuel Wiborg, que recebeu o Expresso no seu camarim antes de um dos ensaios para o espetáculo, onde se preparava para dar corpo à personagem de Wallace Shawn.

“Os assuntos que são debatidos nesta peça ainda se mantêm atuais”, realçou o ator e responsável pela encenação. “Esta discussão nasce em 1981, que é o ano do filme, e as questões que são levantadas ainda hoje se colocam no teatro”, prosseguiu.

Para acolher esta peça, o Teatro Nacional São transforma-se numa improvável sala de restaurante. Uma mesa está colocada no centro. Não no palco, mas em frente e ao nível da plateia. “É como se os espetadores também estivessem neste restaurante a jantar e a ouvir a conversa daquela mesa”, salientou o intérprete sobre a cenografia concebida por Luís Mouro.

As récitas têm lugar à quarta-feira, pelas 19h, de quinta a sábado, às 21h, e ao domingo à tarde, pelas 16h.

Já foi aos EUA, a Macau e atraca agora no Porto

Esta adaptação atual da obra não constitui uma estreia, mas ganha protagonismo pelo seu conteúdo e até pelo seu trajeto até chegar à emblemática sala portuense. “Foi um percurso doloroso”, explicou Manuel Wiborg. “Eu já tive três Andrés nesta peça”, contou.

O espetáculo estreou em novembro de 2013, no Teatro Taborda, em Lisboa, e, nessa altura, o ator e encenador dividia o palco com António Filipe que, a 3 de março deste ano, morreu vítima de cancro, aos 55 anos.

Entretanto, Diogo Dória assumiu a responsabilidade pela personagem de André Gregory e a peça atravessou o atlântico até aos Estados Unidos, onde foi efetuada apenas uma leitura da mesma, devido ao pouco tempo que houve para o ator recém-chegado se familiarizar com o vasto texto.

De seguida, estava prevista para 19 de junho, uma apresentação da dupla de atores em Macau, mas Diogo saiu do projeto uma semana antes, fazendo com que Manuel Wiborg convidasse o ator João Vaz para o acompanhar neste “jantar” atribulado, que agora será servido no Teatro Nacional São João.