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“A música pode reativar o ativismo, mas só as multidões podem levar à mudança”

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D.R.

Mesagem do músico Billy Bragg ecoou no congresso destinado ao Punk, à cultura underground e ‘Do It Yourself’ a decorrer no Porto durante toda a semana

André Manuel Correia

Ouvir Billy Bragg, um dos grandes cautautores britânicos, figura de destaque durante a histórica greve dos mineiros em Inglaterra, durante o consulado de Margaret Tatcher, era um dos grandes atrativos do congresso sobre o Punk que a Universidade do Porto organiza desde hoje e até final da semana. Na Casa da Música, Bragg, que estará na próxima semana no Festival Músicas do Mundo, de Sines, para lá de sublinhar que “a música pode reativar o ativismo, mas só as multidões podem levar à mudança”, afirmou que o cinismo “é o maior inimigo para tornar o mundo um lugar melhor”.

Punk is not dead (“O Punk não está morto”). Transformou-se. Adaptou-se aos novos tempos, mas mantém o seu caráter subversivo, pungente e contestatário. Abriu-se a novos temas e até ao universo académico. O congresso da Universidade do Porto,”Keep It Simple, Make It Fast” (KISMIF), reúne mais de 200 especialistas de 30 países diferentes e traz até a cidade ícones como Billy Bragg ou Steve Ignorant, para além do realizador Don Letts. A terceira edição arrancou hoje, na Casa da Música, e prolonga-se até sexta-feira.

O cartaz heterogéneo inclui debates com investigadores nacionais e internacionais, concertos, exposições fotográficas, entre outras atividades. O evento passará por espaços culturais emblemáticos da cidade, como a Casa da Música ou o Teatro Rivoli, para além da Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

O congresso tem como principal impulsionadora Paula Guerra, a quem se junta na organização o australiano Andy Bennet, da Griffith University. “É inegável que o congresso tem uma aproximação à cidade muito interessante, do ponto de vista artístico e musical, algo inédito em congressos científicos. Há o interesse da nossa parte da poder dar espaço a artistas e músicos”, referiu a responsável em entrevista ao Expresso.

Durante cinco dias, a Invicta transforma-se na capital do underground, com um programa que, para além do debate científico, vai envolver a cidade num conjunto alargado de eventos artísticos. “É importante sairmos das paredes da academia”, salientou Paula Guerra. O cartaz inclui nove exposições, sete concertos e DJ sets, 14 lançamentos de livros, entre outras ações.

No início era o Punk, mas o universo expandiu-se

No início, o punk era a palavra, mas o KISMIF criou um universo muito mais alargado ao longo do tempo. “Derivou de um projeto sobre punk, mas atualmente é mais do que isso. Temos aqui um conjunto de reflexões acerca da cultura underground, a questão do género, das etnias e da interculturalidade. Há um alargamento de perspetiva”, afirmou a organizadora. “O público pode encontrar aqui um lugar para o seu gosto musical e artístico”, acrescentou.

Os temas são variados e, logo na sessão inaugural, que decorreu na Casa da Música, a investigadora australiana Catherine Strong fez uma intervenção acerca da marginalização da mulher no panorama musical. Também presente no debate, o jornalista e crítico Vítor Belanciano corroborou que “para muitas pessoas uma mulher com uma guitarra nas mãos ainda remete para uma hipersexualização”.

Dois músicos que deixaram uma marca indelével na cultura underground – Billy Bragg, que conjuga no seu trabalho elementos de folk music e punk rock, e Steve Ignorant, fundador dos Crass – marcaram hoje presença no evento e responderam às perguntas dos admiradores mais devotos deste género musical.

A intervenção de Billy Bragg foi centrada no trad jazz, estilo também ligado ao movimento ‘Do It Yourself’, como evidenciou o artista. “Estas pessoas faziam os seus próprios instrumentos”, salientou acerca do estilo que contagiou os adolescentes britânicos. Agora os tempos são outros. O contexto é diferente. “Acredito que a música já não pode mudar o mundo”, disse.

Na opinião do artista, “a música pode reativar o ativismo, mas só as multidões podem levar à mudança”. O músico de 58 anos afirmou ainda que “o cinismo é o maior inimigo para tornar o mundo num lugar melhor”.

O sucesso, os falhanços e o simbolismo de um lápis vistos por Steve Ignorant

Sempre irreverente esteve Steve Ignorant, pouco habituado a formalismos. Exemplo disso foi quando reparou num lápis colocado à sua frente e interrompeu brevemente a intervenção para dizer. “Não preciso de um lápis. Não sou um político”.

Questionado sobre o sucesso que a banda Crass obteve, foi mais uma vez direto a contestar. “Não entendo bem o que é o sucesso. Podes abrir um restaurante vegetariano em Londres e as pessoas considerarem isso um sucesso. Não sei bem o que é isso”. Steve revelou mais facilidade em reconhecer os “falhanços” da própria banda que se desagregou em 1984. “Tentámos promover a paz e tornar o mundo num lugar melhor, mas falhámos”.

No Teatro Rivoli estará patente a partir de hoje a exposição da fotógrafa Vera Marmelo, intitulada “All I Ever Wanted Was Nothing”. Às 19h30, no mesmo local, Paula Guerra e Pedro Quintela apresentam o livro “From Coimbra to London: to live the punk dream and meet my tribe”.

Hoje à noite, pelas 21h30, também no Rivoli, será exibido o documentário “The Parkinsons: a long way to nowhere”, de Caroline Richards, seguido por um concerto, agendado para as 23h30, da banda punk rock com raízes lusitanas – mas formada em Londres – composta por Afonso Pinto, Victor Torpedo, Pedrou Chau e o escocês Chris Low. O espetáculo tem um custo de 10 euros e a receita reverte para apoiar a banda.

Este foi apenas o primeiro dia. A programação completa pode ser consultada AQUI.