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Fotografar estrelas

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Da música ao cinema, da Europa aos EUA, só falhou Marilyn Monroe. Terry O’Neill foi o homem que documentou os sixties

Mick Jagger fotografado por Terry O’Neill

Mick Jagger fotografado por Terry O’Neill

Tratou as grandes estrelas do showbiz por tu sem se aperceber de que estava a documentar uma era. Hoje, nostálgico, não acredita que as portas se possam abrir como dantes. Por isso, quer mudar de ramo e passar a fotografar Mourinho e Ronaldo.

Quando e porque começou a fotografar?
Eu era um baterista de jazz e queria ir para a América, então resolvi candidatar-me a um emprego como comissário de bordo achando que se voasse de Londres para Nova Iorque, se pudesse ficar três dias na Big Apple conseguiria fazer uma carreira internacional. Mas acabei por ficar no departamento de fotografia da British Airways. Não percebia nada do assunto.

E o que fez?
Ouve um tipo que me ensinou mais ou menos como se mexia na máquina e comecei a tirar fotografias. Por acaso fotografei um político que estava a dormir, e que eu nem sabia quem era, e consegui um emprego num jornal chamado “The Sunday Dispatch”. Seguiu-se um tabloide, “The Daily Sketch”. Nunca mais parei. Tinha feito apenas uma aprendizagem de seis meses.

Porque é que aceitou?
Explicaram-me que queriam fotógrafos novos pois acreditavam que os jovens teriam uma palavra forte a dizer durante os anos 60. E que queriam que eu fotografasse todos os novos grupos pop. No segundo dia de trabalho, mandaram-me fotografar os Beatles! Foi a primeira fotografia de música a entrar naquele jornal. E foi o início da minha carreira.

Foi assim tão simples?
Exatamente, naquela altura era assim. O meu segundo trabalho foi fotografar os Rolling Stones. Recebi uma chamada do manager da banda a pedir-me para fotografar os Stones como tinha feito com os Beatles. Fui em frente e nunca olhei para trás.

Audrey Hepburn, 
a atriz que O’Neill mais gostava de fotografar

Audrey Hepburn, 
a atriz que O’Neill mais gostava de fotografar

Como era a sua relação com esses músicos?
Eu era um pouco mais velho do que eles e por isso olhavam para mim com atenção e algum respeito. As bandas pop nunca tinham estado nos jornais. Eu era um tipo importante para eles.

Fotografou muito mais gente. Foi uma época de ouro para si?
Sem, dúvida. Era de loucos. Tanto estava a fotografar a Mary Quant com a minissaia como mais uma banda. Era história atrás de história.

Porque é que lhe chama história?
Porque o que fazia eram reportagens. Tinha uma 35 mm. E tirava toda a gente do estúdio. Quando fui para a América toda a gente gostava de mim porque andava à volta dos sítios uma ou duas horas à procura do melhor spot e ia fotografando. Conseguia nesse tempo fazer as mesmas fotografias que os outros faziam em metade de um dia num estúdio.

Ia sempre com uma ideia na cabeça ou era a espontaneidade que contava?
As coisas saíam. Odeio câmaras, é verdade, mas tenho que as usar porque é a única maneira de fotografar. Mas o que acontece é que estou nos sítios com as pessoas e vejo fotografias. A seguir tenho de fazer com que se materializem através da câmara. É tudo.

Como foi o seu encontro com Frank Sinatra, uma das muitas grandes estrelas que fotografou?
Foi incrível. Tinha ficado amigo da Ava Gardner na rodagem de um filme em Madrid. E disse-lhe que tinha uma oportunidade para fotografar o ex-marido dela. E ela prontificou-se a escrever-me uma carta de apresentação. Quando cheguei ao plateau do filme em que Sinatra participava tive de esperar até ao meio-dia que ele chegasse. Apareceu rodeado de guarda-costas. Deitei as mãos à cabeça: “Como é que me vou safar?” Então dei-lhe a carta e ele disse àqueles tipos todos que eu estava com ele. E na verdade estive com ele nas três semanas seguintes. Não falámos muito. E só mais tarde é que percebi a sorte que tivera por ele me ter deixado acompanhar a vida dele. A partir daí, mantivemos uma relação de amizade durante 30 anos. Foi fantástico.

Fez das estrelas do cinema e da música grandes amigos. Como olhava para a fama e para o estrelato naquele tempo?
Não olhava para eles desse ponto de vista. Andava de um lado para o outro a correr, saltava de estrela em estrela. Nunca me senti intimidado. A todo o lado a que ia, as pessoas vinham falar-me dos Beatles, dos Stones... Um mundo que todos pensávamos que seria passageiro. Achávamos mesmo que teríamos de arranjar outras profissões. Quando cheguei à América apercebi-me de que de facto havia um estrelato e que ele ia durar para sempre.

David Bowie abraçado 
a Elizabeth Taylor

David Bowie abraçado 
a Elizabeth Taylor

Raquel Welch, Elizabeth Taylor, Audrey Hepburn, Peter Sellers, Clint Eastwood... como foi fotografá-los?
Eram todos fabulosos. Mas especialmente a Audrey Hepburn, era uma pessoa encantadora. Era verdadeiramente uma pessoa bonita e percebia bem o que significava a imagem. Ajudava sempre a fazer a fotografia. Compreendia o que eu estava a tentar fazer. Era brilhante.

Apercebia-se de que estava a tirar fotografias icónicas?
Não. Só quando cheguei aos 60 anos é que percebi e tenho 77. Estava só a fazer o meu trabalho. Pensei em abrandar nessa altura e olhei para trás. Apercebi-me da vida incrível que tive. Nunca tinha pensado nisso. Fazia trabalho atrás de trabalho como se estivesse com a cabeça no ar sem pensar que estava a fazer história.

Bruce Springsteen em início de carreira

Bruce Springsteen em início de carreira

Mas agora sabe que as fotografias que tirou são documentos.
Sem dúvida. E não haverá mais. Já não há estrelas de cinema como antigamente, já não há verdadeiras pop stars. Agora há estrelas do desporto.

As suas fotografias são o retrato de uma era.
Sim, a década de 60. Foi o melhor tempo de sempre. Havia oportunidades para todos e isso também não voltará a acontecer. Hoje não se espera que as pessoas cresçam, não se confia nelas.

Que pessoas tem pena de não ter fotografado?
A grande falha no meu currículo é a Marilyn Monroe. E isso aconteceu porque quando fui para Hollywood conheci uma rapariga de quem me tornei namorado e que era assessora de imprensa da Marilyn. Ela disse-me imediatamente que nunca me deixaria fotografá-la porque a Marilyn costumava levar jovens fotógrafos para a cama. Não tirei a fotografia e ela acabou por casar-se com um amigo meu. Tenho pena, porque poderia ter feito uma fotografia diferente da Marilyn e nem sequer tentei. Acho que para tirar uma boa fotografia de alguém tem de se compreender a pessoa e penso que a teria compreendido.

“Hoje em dia 
as estrelas parecem todas iguais. Já não tenho interesse 
em fotografá-las”, 
diz Terry O’Neill

“Hoje em dia 
as estrelas parecem todas iguais. Já não tenho interesse 
em fotografá-las”, 
diz Terry O’Neill

Como foi a sua relação com Faye Dunaway, com quem se chegou a casar?
Penosa. Como, de resto, as outras relações que fui tendo nesses tempos. Mas ela era uma mulher espantosa, uma verdadeira estrela, com uma personalidade forte, como aquelas do seu tempo. Hoje em dia já não as fazem assim. Parecem todas iguais. Já não tenho interesse em fotografá-las.

Mas ainda fotografa ou não?
Sim. Mas pessoas diferentes. Agora quem eu quero fotografar é o José Mourinho, o Ibrahimovic e o Ronaldo. Já falei com os agentes deles e nos próximos seis meses hei de levá-los a Portugal para os fotografar.

FACES OF THE STARS
de Terry O’Neill
Centro Comercial Colombo, Lisboa, até 28 de setembro

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 9 junho 2016