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O mercado é bruto?

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ARTE BRUTA Na antiga fábrica da Oliva, em S. João da Madeira, está uma exposição de trabalhos de autores internados em instituições psiquiátricas. Na foto, obras de Misleidys Pedroso

d.r.

Os espanhóis dispõem de um modo muito eficaz de antecipar uma interrogativa. Colocam no início da frase um ponto de interrogação invertido e desfazem aí, logo à partida, qualquer equívoco quanto o sentido último de que irá ser escrito. O título desta crónica, sem a interrogação final, estaria viciado.

A dúvida, forte ao ponto de suscitar o título com aquela condicionante gráfica, surgiu-me esta semana ao visitar em S. João da Madeira a exposição “Arte Bruta: Uma história de mitologias individuais. Obras da coleção Treger/Saint Silvester”. Pode ser vista até 26 de fevereiro do próximo ano nas antigas instalações da Fábrica Oliva, transformadas pela Câmara Municipal num espaço de divulgação artística de visita obrigatória.

A Oliva Creative Factory tem um núcleo de arte cujo epicentro é muitas vezes colocado no modo como são construídas diferentes narrativas a partir da coleção Norlinda e José Lima, uma das mais importantes coleções privadas de arte contemporânea existentes em Portugal, mas não se esgota aí, como o evidência um vasto conjunto outro de atividades em que se inclui a atual mostra dedicada a uma criação artística exterior a todos os cânones definidos.

Quadro de Charles Dellschau

Quadro de Charles Dellschau

A Arte Bruta tem vindo a ser integrada nas coleções de grandes museus, chegou já à Bienal de Veneza, suscita complexas reflexões, dá origem à publicação de inúmeros artigos, é motivo para colóquios e debates e permanece, ainda assim, rodeada de singular mistério.

Criado pelo pintor e escultor francês Jean Dubuffet (1901-1985) em 1945, o termo “Arte Bruta” foi a forma escolhida para nomear, sejamos brutos, a arte dos loucos, dos médiuns e, em geral, de pessoas internadas em instituições psiquiátricas. Não fazem parte de qualquer corrente estética, estão a leste do que possam ser tendências dominantes, e, mais importante ainda, em nenhum momento se consideram artísticas. Isto é, não pintam ou esculpem para satisfazer qualquer gosto ou preocupação estética, mas porque para aí são compulsivamente empurrados por uma qualquer necessidade interior.

Não importa agora saber se há, ou não, uma função terapêutica nesta libertação, nesta entrega à criação de mundos tantas vezes estranhos, complexos, dos quais escorrem infinitas interrogações. Nem sempre beneficiam dos favores das instituições onde se encontram para darem largas àquela pulsão incontrolável. Há casos conhecidos de quem se esconda para criar, seja como forma de contornar medos reais ou imaginários, seja como resposta a hipotéticas fobias. São artistas, diz-se a propósito destes homens e mulheres, e, todavia, nenhum se considera artista, não têm qualquer preocupação em divulgar as obras e, muito menos, estão preocupados ou interessados na sua comercialização.

Obra de Martin Ramirez

Obra de Martin Ramirez

Em S. João da Madeira estão em depósito mil peças de “Arte Bruta”. A exposição mostra pouco mais de uma centena. A arte, se de arte se trata, é para aqueles criadores, um meio, e não um fim em si mesmo. Por isso tem sentido tentar perceber se, não havendo, nem um pensamento, nem uma consciência artística, o que ali se nos revela é arte.

É comum a perplexidade sentida por visitantes de museus de arte contemporânea face a determinadas obras perante as quais têm dificuldade em encontrar um ponto de contacto com o que – mal ou bem – sentem poder ser arte. O problema é em geral resolvido com uma explicação, porventura simplista, mas adequada, segundo a qual, ao ser o resultado do elaborado pensamento de um artista, é um objeto de arte.

Neste caso, funcionou o mercado. O mercado (os galeristas) olhou, gostou, decidiu atribuir um valor, e transformou em arte com uma específica cotação um vasto conjunto de obras cujos autores são alheios a todo o processo. Não é claro que participem na definição de valor. Não se sabe mesmo de que forma há uma autorização consciente de venda, divulgação e circulação das obras. Desconhece-se muitas vezes o papel desempenhado pelo pessoal médico e de enfermagem na transposição para o público de algo que resulta de uma profunda entrega a algo de muito privado: a consciência individual e o modo como nos condiciona no dia a dia.

Obra de LJean Perdizet II

Obra de LJean Perdizet II

Tudo isto é brutal. E, no entanto, sentimos que ficaríamos empobrecidos caso não conhecêssemos as torrenciais obras expostas naquela exposição de S. João da Madeira.

Em 1929 René Magritte pintou um óleo no qual representava um cachimbo ao qual deu o título “Ceci n’est pas une pipe”. Se fizermos uma transposição abusiva poderemos sempre olhar para aquela arte e insistir: “isto não é arte”. Mesmo se ficamos maravilhados com a genialidade de algumas criações. E o mercado? É bruto e não se importa com catalogações? Explora brutalmente estas contradições? Bom, o mercado… é o mercado.