Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

“Não faltam exemplos de pessoas que combinam o absoluto terror com o culto pelas artes”

  • 333

ROMANCE. O ex-jornalista Manuel Jorge Marmelo acaba de lançar novo livro

lucília monteiro

Temos um prostíbulo comandado por um patrão paralítico sentado numa cadeira de rodas e amante das criações artísticas, um servil criado negro obrigado a demonstrar o teorema do macaco infinito, as prostitutas do bar Mitzvá onde tudo acontece, e uma metáfora da Europa e dos tempos que vivemos. É o novo livro de Manuel Jorge Marmelo, intitulado “Macaco Infinito”

Valdemar Cruz

Valdemar Cruz

texto

Jornalista

Lucília Monteiro

Lucília Monteiro

Fotos

Fotojornalista

lucília monteiro

Aos 45 anos, Manuel Jorge Marmelo, jornalista entre 1989 e 2012, surge com novo romance. São já mais de vinte títulos publicados desde 1996, ano em que se estreou com “O Homem que Julgou Morrer de Amor". Autor de "O Amor é para os Parvos", conquistou em 2005 o Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco com "O Silêncio de um Homem Só". Em 2014 o romance "Uma Mentira Mil Vezes Repetida" proporcionou-lhe o prémio literário do Festival Correntes d'Escritas.

Ao ver o romance situado num bordel cujo patrão é um paralítico sentado numa cadeira de rodas, é forte a tentação de ver ali uma metáfora da Europa em que hoje vivemos. É uma leitura abusiva?
É isso que o livro é. O patrão do prostíbulo não é exatamente o ministro das finanças alemão, mas poderia ser. A ideia das janelas do prostíbulo estarem todas fechadas, e ainda por cima terem em frente um aeroporto cheio de cercas é para reforçar a metáfora. Vivemos na Europa tempos bastante complicados. De alguma forma, isto é uma maneira de escarafunchar na ferida até ela fazer sangue.

Não obstante o ambiente que se imagina feérico, próprio de um bordel, aquilo acaba por ser muito claustrofóbico…
Quis que toda a ação decorresse ali dentro e essencialmente em dois ou três espaços do bordel para dar a ideia desta claustrofobia provocada pela alta finança e por esta série de regras mais ou menos cegas a que os países estão sujeitos, com efeitos como o referendo inglês. Por outro lado há a situação social. Finalmente, temos as sucessivas vagas migratórias e o modo como a Europa, ou alguns países, têm lidado com a situação, criando entraves de tal modo grandes, que as pessoas acabam por arriscar e fazer viagens perigosíssimas pelo mar, com os resultados trágicos que se conhecem.

Paulo Piconegro é o patrão do bordel Mitzvá. Chamou-me a atenção a escolha dos nomes, todos eles estranhos, porventura com segundas leituras. O que presidiu à escolha?
Sim, houve essa intenção. Para além de linguagem, que tentei que fosse o mais seca e despida possível para se adequar bem ao tempo que vivemos, houve a preocupação de adequar os nomes das personagens à sua personalidade. O Wakaso (o servil criado negro de Piconegro) que é um nome relativamente comum numa parte de África, foi roubado a um jogador de futebol da Costa do Marfim. Um dia estava a ver um jogo da Taça das Nações Africanas e apareceu-me ali o Wakaso. Achei que tinha tudo a ver com alguém que vai ter o papel principal no livro e está a tentar, cumprindo um castigo, comprovar a teoria darwiniana do macaco infinito. Ou seja, a tentar por acaso ser capaz de escrever um livro. O próprio nome acaba a ser um dos fatores que levam Piconegro a contratá-lo por achar que há ali qualquer coisa de poético no facto de alguém se chamar o acaso.

E o nome do bar? Mitzvá remete diretamente para a tradição judaica…
De alguma forma o nome está explicado no próprio texto. Aquilo é um prostíbulo. O Mitzvá é uma cerimónia de passagem dos judeus para a idade adulta e que no fundo é isso que no mundo secular fazem os prostíbulos. Para muitas pessoas os bares de alterne são locais de iniciação na vida sexual. Não há qualquer outra intenção.

Com que intenção utilizaste uma linguagem seca, como dizes?
O livro retrata uma situação muito crua. Para além do Mitzvá ser um lugar inóspito, a realidade da qual pretende ser metáfora também é bastante inóspita. Tentei que a linguagem retratasse tudo isso. Quando chamo putas, e não prostitutas ou meretrizes às funcionárias do bar, é uma tentativa de tornar aquela realidade difícil, também pelo lado da linguagem. Sei que causa reação por parte das pessoas. Já com outro livro tive essa experiência de que o palavrão às vezes provoca reações epidérmicas nas pessoas.

A palavra “puta” deve ser das mais usadas no livro. Isso ainda é incómodo, mesmo tratando-se de um romance?
Ainda é incómodo. Julgo não cometer nenhuma inconfidência grave se disser que já o livro estava numa fase bastante adiantada de produção e ainda tinha a minha editora da Quetzal a perguntar-me se por acaso não queria mudar “putas” para “prostitutas” e “preto” para “negro”. Tenho amigos pretos que preferem ser chamados pretos a negros, ou escurinhos ou outra coisa qualquer. As vezes há um certo politicamente correto que leva as pessoas a olharem para as palavras com um preconceito que elas não têm. Tentei ser o mais direto possível nesse tipo de designações.

Como chegaste a esta ideia?
As ideias vão surgindo aos bocadinhos. O primeiro capítulo do livro, que é o Paulo Piconegro a acordar e a ouvir o ruído do trânsito, surgiu-me quando acordei uma manhã em Lisboa num hotel altíssimo a ouvir o ruído do trânsito. Aquela imagem de alguém que ouve a cidade à volta após acordar foi a primeira ideia que tive para o livro. Depois surgiu a ideia de quem acorda ser alguém que não se pode mexer e está resumido a essa perceção auditiva da cidade. Mais tarde acabou por surgir o criado negro.

Como é que te aparece aquele trabalho à volta do teorema do macaco infinito, que é algo muito forte no contexto do livro?
Creio que resolvi incluí-la muito no início. Tem um papel central e sobretudo remete para uma ideia que julgo resultar com alguma força, que é a questão de sendo o ser humano o mais infinito dos símios – até hoje ainda não paramos de evoluir e descobrir coisas – tanto é capaz de fazer aterrar uma sonda em Júpiter, curar uma doença praticamente incurável, ou compor o “Samba da Bênção”, como, ao mesmo o tempo, enquanto coletivo, pode criar as tais regras que estão na origem da situação que vivemos hoje na Europa. Por outro lado, toda aquela teoria darwiniana permite fazer uma ligação à literatura e refletir sobre o processo literário. Os escritores acabam por fazer a mesma coisa. Sentam-se frente ao computador e esperam que dali resulte um livro, de preferência bom.

Como é que uma casa de putas, para utilizar a linguagem do livro, está recheada de reproduções de grandes quadros de grandes pintores, com particular destaque para o tantas vezes referido “Les Demoiselles d’Avignon”, de Picasso?
O Paulo Piconegro tem essas preocupações estéticas e artísticas, essencialmente porque me pareceu interessante fazer uma reflexão sobre os chavões que costumamos ouvir sobre a literatura poder salvar as pessoas, tal como a arte. As putas não ligam nenhuma àquilo e Piconegro, tal como várias facínoras que fomos conhecendo ao longo da história, consegue ser uma pessoa absolutamente horrível e cruel, e ter essas preocupações artísticas. Temos inúmeros exemplos de pessoas combinaram o absoluto terror e o culto pelas artes.

Como foi o teu processo de escrita?
Muito difícil por falta de tempo e por cansaço. Cheguei quase a adormecer em cima do computador. A possibilidade de estar a criar aquele bar Mitzvá e inventar aquele mundo, como sucede em todos os livros, é um impulso mais forte do que todos os cansaços. Embora não tivesse prazos a cumprir, consegui ter o livro terminado em pouco mais de um ano e passei meses seguidos em que não consegui escrever uma linha. Por falta de tempo ou de disponibilidade mental.

Tens um método?
Não. As coisas vão acontecendo. Por exemplo, a partir do momento em que o Wakaso se tornou o macaco infinito, passou a ter uma série de reflexões sobre a espécie humana, quase por coincidência comecei, ao acordar ao fim de semana, a ligar a televisão e a apanhar programas da BBC Vida Selvagem ou da National Geographic, em que apareciam comunidades de macacos a ser tratadas. Isso levou a que o próprio Wakaso se transformasse num espetador compulsivo de programas sobre a natureza. O facto de ter uma ideia e decidir escrever um livro, transforma-me numa espécie de esponja que suga tudo quanto está à minha volta. Passo a prestar muto mais atenção às coisas. O meu método passa muito pela atenção ao que me rodeia e à capacidade para depois transformar isso em literatura.

Há muitas condicionantes no teu processo de escrita?
A única altura em que tive o tempo todo para escrever foi durante os dois anos em que estive desempregado. Se é verdade que o facto de ter uma vida profissional paralela me cria condicionantes, também é verdade que o facto de ter o tempo todo para escrever leva-me muitas vezes a distrair-me com outras coisas. Ter uma atividade obriga-me a concentrar-me mais empenhadamente. Sou mais seletivo. Mais disciplinado.

O facto de teres recebido o prémio Correntes d’Escritas em 2014 teve alguma implicação no modo como partiste depois para a escrita?
Não. Nunca tive essa espécie de condicionamentos. Nunca tive o problema da página branco, ou o problema de o segundo livro ser mais complicado que o primeiro devido às expectativas criadas. Tento abstrair-me disso. São situações que só servem para paralisar. O que para mim é essencial é divertir-me enquanto estou a escrever o livro. Tirar partido desta possibilidade quase mediúnica de sermos capazes de erguer um universo a partir de um conjunto de letras e de frases. É essencialmente por isso que escrevo.