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“Camilo não era só um escritor, era também um aventureiro”

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Com o próximo número do Expresso, este sábado, tem início uma coleção com o melhor da literatura de Camilo Castelo Branco. São, ao todo, oito livros distribuídos gratuitamente a partir de 16 de julho nos quais se percorre a gigantesca obra de um dos maiores escritores portugueses

Coordenada editorialmente por um dos seus mais reconhecidos especialistas, como é o caso de João Bigotte Chorão (ver entrevista nestas páginas), a coleção Camilo Castelo Branco resgata ao esquecimento um dos mais geniais, mas por vezes esquecido, nome da literatura portuguesa. Começando com o incontornável “Amor de Perdição”, fazem também parte desta escolha “Eusébio Macário”, “A Brasileira de Prazins”, “A Queda de Um Anjo”, “Novelas do Minho”, “O Que Fazem Mulheres”, “O Retrato de Ricardina” e “Vinte Horas de Liteira”. Esta é uma seleção de Bigotte Chorão, autor de uma extensa bibliografia em grande parte dedicada a Camilo Castelo Branco. Desde os anos 70 que tem publicado ensaios sobre o escritor de São Miguel de Seide, tendo editado, em 2014, “Além da Literatura”, onde aborda a escrita para lá do mero exercício linguístico. Para o efeito, reuniu uma série de textos onde sublinha a importância de alguns dos maiores nomes da literatura portuguesa e europeia. É o caso de Camilo, recentemente afastado do meio escolar, que nesta coleção do Expresso reconquista justamente alguma da visibilidade perdida.

João Bigotte Chorão é um dos grandes camilianos vivos, uma espécie em vias de extinção. Em “Além da Literatura”, recentemente publicado pela Quetzal, aborda vários ângulos da obra de Camilo Castelo Branco. A conversa girou em torno destes ensaios camilianos e da forma como o escritor português tem sido apreciado ao longo dos anos.

Lembra-se da primeira vez que leu Camilo?
Lembro-me perfeitamente. Na casa dos meus pais, em Coimbra, descobri num armário vários livros. Um desses livros, que nunca mais esqueci, era o livro do Alberto Pimentel, “O romance do romancista — a vida de Camilo Castelo Branco” (1890). Fiquei sempre agarrado àquela ideia de que Camilo não era apenas um escritor, mas também um aventureiro; um homem marcado pela sua vida desgraçada e, ao mesmo tempo, um homem capaz de manejar a língua como nenhum outro. Com este livro, que continha trocas de cartas, começou também a minha admiração pelo Camilo epistolográfico, admiração que mantive ao longo da vida. Aliás, uma das últimas coisas que escrevi sobre Camilo é sobre este lado epistolar, o posfácio a “Camilo Íntimo, Cartas Inéditas de Camilo Castelo Branco ao Visconde de Outurela”.

Nunca teve quebras nessa paixão camiliana?
Nunca. Foi uma paixão, digamos, fiel [risos]. Começou quando tinha doze, treze anos. Nessa altura, no liceu, Camilo era um dos autores recomendados, sobretudo “O Bem e o Mal”. Só não fui entusiasta da poesia de Camilo. Nem do teatro. A paixão fulminante foi com o novelista e com o género epistolar.

Porque é que diz que Camilo é um escritor do sentimento e não da razão?
Um escritor de certo modo camiliano, Alfredo Pimenta, tem um textozinho (“Sombras de Príncipes”) em que argumenta que não há em Camilo uma única reflexão filosófica. Também não podemos dizer isso, não é verdade? Mas o que nos conquista é de facto aquela ideia: “O coração é o maior tesouro do céu e da terra, o supremo poder de Deus, e tal, que se um coração pudesse entrar no inferno, o Inferno seria aniquilado”. No meio das suas divagações romanescas, Camilo tem estes rasgos extraordinários, geniais mesmo, não é verdade? Um dos maiores livros escritos sobre Camilo é sem dúvida “O Penitente”, do Pascoaes. É através deste livro de Pascoaes que me recordo destas frases de Camilo. Porquê “Penitente”? Porque o Camilo tinha consciência da queda (pecado original). Isso é bem evidente numa carta extraordinária que escreveu a Ana Plácido. Ele diz “vejo passar os nossos filhos e vejo neles a desgraça que lhes passamos”. Ele tinha consciência de que o Nuno e o Jorge eram um produto da sua consciência pecaminosa.

Mas a relação dele com Deus não é fácil. Ele tem momentos claramente católicos, a presença da queda, do pecado, da salvação pelo remorso, mas também tem momentos em que é cético em relação à fé e mesmo brejeiro.
Até blasfemo. O Camilo manteve até ao fim essa contradição. Foi muito marcado na sua juventude pelo Padre António de Azevedo. Ao contrário de outros padres que são caçoados nas suas páginas, António de Azevedo foi importante na sua educação, recomendando livros que Camilo respeitou ao longo da vida. E também sabemos que em São Miguel de Seide há setenta e tal cartas de António de Azevedo ao Camilo, ou seja, acompanhou-o ao longo da vida. E depois há o livro do Padre Sena Freitas, “Perfil de Camilo Castelo Branco”, livro muito devoto de Camilo, perdoando-lhe os excessos. Porque o seu génio de alguma forma o resgatava.

De onde vem este progressivo e imparável silenciamento de Camilo, não só nas escolas mas também na cultura em geral. Hoje em dia ler Camilo é uma loucura arqueológica.
Camilo foi vítima do chamado “queirosianismo”. É uma coisa lamentável, futebolística: se admiro o Camilo, não posso admirar Eça; se admiro Eça, não posso admirar Camilo; se admiro o António Nobre, não posso admirar o Cesário Verde, etc., uma coisa lamentável. Portanto, Camilo foi decretado pelos académicos e pelo ensino um escritor demodé enquanto que Eça foi decretado um escritor moderno. Ora, há muita modernidade em Camilo e há muitos aspetos em Eça que mostram que ele não era assim tão moderno como se diz.

Acha que isso está relacionada com o facto de Camilo ser o único grande que critica a Revolução Francesa, a “Mãe França” de liberais e republicanos e o marquês de Pombal, por exemplo?
De facto, o Camilo tem um livro extraordinário, o seu livro mais corajoso, a criticar o marquês de Pombal. E foi sempre um adversário da ordem nova, e até participou ao lado de Castilho na polémica com a geração de 70, embora tenha participado sem grande convicção. Participou, primeiro, porque gostava de pancadaria [risos] e, segundo, para fazer um jeito ao velho Castilho. Mas o certo é que muita gente esquece uma coisa: Camilo admirava Eça, coisa que não podemos inverter. Quando Camilo morreu tragicamente (suicídio), Eça estava por acaso em Lisboa. Pois, nas cartas que Eça enviou nesses dias para os amigos, para o Ramalho Ortigão, para a mulher, não há uma linha, uma só!, sobre a morte de Camilo. Nada, nem um “olha, lá morreu o Camilo”, nada. Uma total indiferença. Podemos imaginar, que num cenário inverso, Camilo teria dito alguma coisa sobre a morte de Eça, e teria sido muito favorável. Sobre “O Crime do Padre Amaro”, disse, por exemplo, que era um livro muito bem feito. Coisa que o Eça nunca diria do Camilo.

Outra razão pela repulsa em relação a Camilo não será aquela ideia romântica de amor fiel que entra em choque com o nosso ar do tempo? Em Camilo, o “até que a morte dos separe” é mesmo levado à letra.
Sobre isso digo-lhe que não faz sentido dar o “Amor de Perdição” a rapazes e raparigas de 13 ou 14 anos. Se eu tivesse competência para isso, não começava a dar Camilo, sobretudo o “Amor de Perdição”, a garotas e garotos desta idade. Tem de ser mais tarde. Porque aos 13 e 14 anos, os amores do Simão e da Teresa até lhes provocam riso, e nem se apercebem de que a grande figura nem sequer é a Teresa, mas sim a Mariana. Mas também são capazes de achar a Mariana ridícula com aquele amor que não se confessa — uma das grandes criações da nossa literatura!

Nesta época dos “afetos” não se percebe bem o que é o amor, que não é um “afeto”...
... mas repare numa coisa: todos os dias abrimos a televisão e vemos um crime, sobretudo no campo da violência doméstica. Quando temos conhecimento desses casos, marido que mata a mulher, pai que mata filho, isso parece de imediato uma coisa camiliana. Portanto, ele não é tão demodé.

Ainda bem que fala disso, porque um dos pontos — a meu ver — que leva ao esquecimento de Camilo está relacionado com a violência. Por uma série de razões (o queirosianismo é uma delas), nós vivemos debaixo da mentira dos brandos costumes, criámos a ideia de que somos um povo mole, porreirinho, brando. Ora, basta ler cinco páginas de Camilo para vermos um país que é o oposto disso, um país violento, bravo, bruto.
Exatamente. Camilo é um escritor muito violento. Além dessa violência, Camilo era sensível a essa maleita chamada demência, como por exemplo em “A Brasileira de Prazins” com a figura da Marta, uma das mais trágicas da sua galeria. Camilo era muito sensível a isso. Aliás, em “A Brasileira de Prazins”, há por vezes momentos em que ele mostra que conhecia alguma coisa sobre demência. De resto, tem vários livros que abordam a psiquiatria.

Nos romances de Eça, a figura da mulher é sempre tratada com desdém. Em Camilo, julga que há mais respeito pelas personagens femininas?
Algumas das melhores páginas de Camilo são retratos de mulheres.

Acha que há uma grande biografia de Camilo?
Para mim, a melhor é a do Pascoaes. Mas há sobretudo bons ensaios sobre Camilo. Por exemplo, o ensaio do José Régio em que Camilo é considerado o maior escritor português. Sabe-se que Régio leu e releu Camilo durante toda a vida. Era mais camiliano do que queirosiano.

O grande vício de Camilo está na forma como não cortava os seus livros, não os acabava, não os reescrevia; tenho sempre a sensação de que estou a ler o primeiro esboço que não foi trabalhado. Normalmente, diz-se que ele era assim porque tinha de publicar muito para ganhar a vida. Será mesmo assim ou ele tinha esta noção de escrita selvagem?
Era um desabafo, digamos assim. Quando vemos os manuscritos de Camilo, ficamos espantados quando constatamos que têm apenas meia dúzia de emendas. Passamos as páginas e não vemos o drama da reescrita do Eça, por exemplo.