Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

Festival de Locarno vai exibir 13 filmes portugueses este ano: é um recorde

  • 333

"O Ornitólogo"

DR

João Pedro Rodrigues e Rita Azevedo Gomes têm obras a concurso pelo Leopardo de Ouro. O festival suiço decorre entre 3 e 13 de agosto

Em 2001, o Festival de Cinema de Veneza cometeu o 'desplante' de mostrar ao mundo nove produções portuguesas numa só edição, coisa nunca vista e que, desde então, não mais se repetiu. Pois bem, da Suiça, do cantão de Ticino, chegaram hoje notícias de uma participação lusa ainda mais abrangente – é um recorde cá para o rectângulo, se assim lhe quiserem chamar. A 69ª edição do Festival de Locarno selecionou nada mais nada menos do que 13 obras, seis delas em estreia mundial.

De “O Ornitólogo”, a quinta e muito aguardada longa-metragem de João Pedro Rodrigues, sabemos que é um filme que, tal como “O Fantasma” (a longa de estreia, de 2000), está ancorado num herói solitário. Esta coprodução entre a portuguesa BlackMaria, a francesa House on Fire e a brasileira Ítaca Filmes foi filmada em exteriores e em formato scope. Cheira a western... Recorde-se que João Pedro Rodrigues e o seu companheiro de trabalho e na vida João Rui Guerra da Mata (também realizador, ator ocasional e diretor artístico de todas as obras de João Pedro) estão a ser homenageados no Curtas, em Vila do Conde (decorre até domingo), onde também montaram uma instalação sobre o seu trabalho.

João Rui Guerra da Mata e João Pedro Rodrigues

João Rui Guerra da Mata e João Pedro Rodrigues

DR

“O Ornitólogo” não é o único português na competição pelo Leopardo de Ouro. “Correspondências”, nova longa-metragem de Rita Azevedo Gomes depois do extraordinário “A Vingança de Uma Mulher” (2012), e de novo produzida pela C.R.I.M., de Joana Ferreira e Isabel Machado, parte das cartas trocadas entre Jorge de Sena e Sophia de Mello Breyner Andresen no período de 1959 a 1978. Que filme, certamente poético e intuitivo, terá feito Rita Azevedo Gomes a partir deste diálogo, que só pode ser fabuloso, já que o remetente e o destinatário são dois dos nossos maiores poetas?

E outra surpresa, também na Competição, a presença do francês Julien Samani (que conhecemos, já lá vão 12 anos, em Vila do Conde, quando ele por cá apresentou a curta “La Peau Trouée”) numa produção franco-portuguesa de Paulo Branco, também rodada no nosso país, com Kevin Azaïs, Samir Guesmi e Jean-François Stévenin: “Jeunesse”. Falado em francês, o filme é baseado num texto Joseph Conrad. Os portugueses António Simão e Miguel Borges também fazem parte do elenco. Presume-se, pelo texto de base, que seja um filme passado em alto mar (tal como “La Peau Trouée” já o era). Portugal tem assim três hipóteses para chegar ao Leopardo de Ouro.

"Correspondências", de Rita Azevedo Gomes

"Correspondências", de Rita Azevedo Gomes

Na Competição, estão entre outros o egípcio Yousry Nasrallah, o japonês Katsuya Tomita (autor de “Saudade”), a alemã Angela Schanelec, os argentinos Milagros Mumenthaler (que venceu Locarno em 2011) e Matías Piñeiro, assim como o romeno Radu Jude. Há também no lote um “roman porno”, género cinematográfico de filmes pornográficos softcore muito populares no Japão desde os anos 70. Chama-se “Wet Woman in the Wind”, de Akihiko Shiota. Facto importante, destacado pelo diretor artístico do festival, Carlo Chatrian: dos 17 filmes a concurso, 8 foram realizados por mulheres.

Licínio de Azevedo

Licínio de Azevedo

DR

Voltando aos portugueses, a procissão ainda vai no adro. Com honras de Piazza Grande, e fora de concurso, eis que o moçambicano Licínio de Azevedo, cineasta injustamente mal conhecido entre nós, mostra em estreia mundial “Combóio de Sal e Açúcar”, uma história de amor e de guerra, adaptado de um romance do cineasta. A selecção de Locarno é porventura o maior reconhecimento internacional até à data da obra de Licínio de Azevedo, que a Cinemateca Portuguesa retrospetivou no final de 2015.

Na secção Cineastas do Presente, a 'competição B' de Locarno, o argentino Eduardo Williams (que há uns anos mostrou uma curta absolutamente notável, “Pude Ver Un Puma”, estreando-se depois nas longas com “I Forgot!”, que passou no FID Marselha) apresenta um novo trabalho, “El Auge del Humano”, que contou com participação da Bando à Parte, a produtora de Rodrigo Areias. Mais uma coprodução com chancela portuguesa!

Também a concurso, mas na secção Pardi Di Domani, quatro curtas-metragens: “À Noite Fazem-se Amigos”, de Rita Barbosa, “Estilhaços”, nova animação de José Miguel Ribeiro, “Setembro”, de Leonor Noivo e “Campo de Aviação”, de Joana Pimenta. As três primeiras podem ser vistas esta semana no Curtas; já a última, de Joana Pimenta, é uma estreia mundial.

"Longe", de José Oliveira

"Longe", de José Oliveira

DR

De portugueses, faltam referir os filmes fora de concurso. “O Cinema, Manoel de Oliveira e Eu”, documentário ficcionado de homenagem a Oliveira que João Botelho já apresentou no IndieLisboa. Duas curtas de Gabriel Abrantes, “The Hunchback” (correalizado com Ben Rivers) e “A Brief History of Princess X” (que também está no Curtas). E por fim “Longe”, de José Oliveira, uma produção da OPTEC Filmes que já foi exibida nos Encontros Cinematográficos do Fundão. Em entrevista, José Oliveira elegeu “The Lusty Men”, de Nicholas Ray, como influência. Respigada da Net, uma das imagens – filmada na Rua de Dona Estefânia, em Lisboa - recordou logo outra de “Sicília!”, de Danièle Huillet e Jean-Marie Straub. É o que basta para que se trate “Longe” com especial atenção.