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“Seinfeld”, outra vez

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CULTO. A série foi para o ar entre 1989 e 1998 e era vista por 40 milhões de norte-americanos, mas incontáveis são os fãs por todo o mundo

Quase vinte anos depois do último episódio, Jerry Seinfeld e companhia ainda estão vivos

Ainda na crónica que Miguel Esteves Cardoso assina no “Público” nesta primeira segunda-feira de julho, afirma: “O melhor mês é este: Julho”, porque as noites “ficam melhores e parecem mais compridas porque passamos mais tempo fora de casa, à noite, que se torna cada vez mais quente”. Mas julho também é o melhor mês do ano porque é mês de férias e de dias compridos, a convidarem à leitura, àquela que não precisa de desculpas, que é livre e avessa a imposições profissionais ou intelectuais. Julho é o mês das leituras misturadas com areia, daquelas que provocam gargalhadas. E que melhor leitura senão uma obra que conta, de fio a pavio, como se construiu e deu forma àquela que muitos, juram a pés juntam, é a melhor sitcom de todos os tempos? Qual? “Seinfield”, que outra, poderia ainda inspirar livros quase 20 anos depois da emissão do último episódio?

Nota aos leitores: a autora deste texto não conhece de cor as ‘punch line’ que marcaram várias gerações de telespectadores, lembra-se vagamente do episódio “The Nazi Soup” e da tirada (“No soup for you!”) e outros tantos episódios emblemáticos sobre o grupo de amigos de Jerry Seinfeld — mas isso acontece porque a memória sempre foi assim, para séries de televisão como para livros. Vê-se, lê-se, adora-se, desgosta-se, passa-se a outros. Mas lembra-se bem das gargalhadas entodas, à hora de jantar, pela família. Antes, era assim, deixava-se a gravar durante a madrugada, altura em que os episódios passavam na TVI, e via-se no dia seguinte. E era exasperar com Constanza e amar Kramer. Todos os dias, um a seguir a outro. Jerry, Elaine, George, Cosmo. Há nomes e caras dos quais não nos esquecemos.

Julho é, pois, praia e regresso ao passado, com bilhete marcado através de “Seinfeldia”, escrito por Jennifer Keishin Armstrong, crítica de televisão, atualmente colunista da BBC Culture e que assina regularmente artigos para The New York Times Book Review, Fast Company, New York’s Vulture, ou The Verge.

A crítica ao livro feita pelo “The New York Times” lembra que “Seinfeld”, no ar entre 1989 e 1998, foi concebida quando “Alf” era um sucesso de audiências. Era “genuinamente engraçada”, “seca como um bom ‘vermouth’”, e cheia de possibilidades de citações. Uma boa memória. E, finalmente, “um livro inteligente sobre ela”, que vai mesmo ao fundo do baú e recorda como Jerry Seinfeld e Larry David chegaram à conclusão, num café coreano, que as piadas que iam trocando entre si até podiam dar uma comédia — apesar de duvidarem que fossem muitas as pessoas capazes de sentarem à frente da televisão para acompanharem uma série, modesta, sobre um comediante nova-iorquino e o seu dia-a-dia com o grupo de amigos. Os próprios administradores da estação NBC duvidaram que tal cenário fosse alguma vez capaz de acontecer, pelo que atiraram os primeiros episódios para a silly season do verão. Nove anos mais tarde, 40 milhões de norte-americanos eram acompanhantes assíduos de Seinfeld e da sua trupe, mais outros milhões incontáveis de fãs espalhados por todo o mundo.

Jennifer Keishin Armstrong entrevista os guionistas, os realizadores, os atores, e um sem fim de pessoas que participaram ativamente na série. Desde o momento em que Seinfeld e David disseram a primeira piada, passando pelo processo de casting, quando Jason Alexander ganhou à concorrência — incluindo Danny DeVito, Steve Buscemi ou Nathan Lane — e fez de George Constanza uma das personagens televisivas mais marcantes (e reacionárias e irascíveis e...) de sempre. Desconstrói piadas, desvenda segredos e inspirações. Ficamos a saber, por exemplo, que o pai de Elaine, o autoritário veterano de guerra Alton Benes, foi inspirado pelo escritor norte-americano Richard Yates — que sobre Larry David, que namorou a sua filha, terá dito: “I’d like to kill that son of a bitch”.

Seinfeldia — How a Show About Nothing Changed Everything, de Jennifer Keishin Armstrong, Simon & Schuster, 320 páginas, €15,50 (preço na Amazon)

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“Desde praticamente o seu início, ‘Seinfeld’ gerou uma dimensão de existência especial, algures entre a própria série e a vida real, a que decidi chamar de ‘Seinfeldia’”, escreve a autora. À volta, criou uma legião de fãs, com fervor quase religioso por Jerry e companhia, que continuam a manter viva, duas décadas depois, aquelas personagens. Jerry, Elaine, George e Cosmo: eles ainda estão vivos!