Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

Pixies para sempre

  • 333

Marcos do rock americano na segunda metade dos anos 80 e início dos 90 (e uma das bandas mais queridas da sua geração), regressam a Portugal para aquele que será o sexto concerto entre nós desde a reunião em 2004 — é quinta-feira, às 22h45, no NOS Alive. Agora que passam 25 anos sobre os míticos concertos nos Coliseus de Lisboa e Porto, David Lovering — o baterista mas também ilusionista ‘encartado’ — fala-nos da força do passado, do temperamento do ‘patrão’ Black Francis e do dia em que a banda conheceu Robert Plant (que atua no mesmo festival, imediatamente antes dos Pixies) num avião.

Luís Guerra

Jornalista

O concerto dos Pixies no NOS Alive será o segundo da banda este ano e o primeiro num festival. Estão bem ensaiados?
Ainda hoje de manhã ouvi o “Surfer Rosa” [primeiro álbum, de 1988] e um bocadinho do “Indie Cindy” [o mais recente, de 2014], por isso estou a fazer o meu trabalho! [risos]

Voltar ao primeiro álbum é uma experiência prazenteira?
Fui de novo ouvir a ‘Where Is My Mind?’ e percebi que ando a tocá-la mal há anos! No restante, isto é como andar de bicicleta, só preciso de refrescar um bocado a memória.

E canções novas, vai haver?
Vamos tocar duas ou três que já escolhemos. A intenção é melhorá-las. Para já, ainda não sei no que é que vai dar. Correndo bem, vão entrar num álbum novo.

O último álbum, o primeiro em 23 anos, não foi acolhido entusiasticamente pela velha guarda. Pensa que o peso do passado vai ser menor num próximo disco?
Espero que sim. Antes de “Indie Cindy”, as pessoas estavam muito condicionadas pela nostalgia, queriam ouvir os Pixies clássicos ou aquilo que se convencionou chamar ‘o som Pixies’. Mesmo tendo sido lançado 13 anos depois de “Trompe Le Monde” [1991], “Indie Cindy” é ainda o álbum a seguir a “Trompe Le Monde”. Sem querer arranjar desculpas, não é possível comparar “Indie Cindy” a [outros álbuns da banda como] “Surfer Rosa” ou “Bossanova”. São discos diferentes. Curiosamente, as músicas novas parecem ecoar o espírito das mais antigas, pelo que talvez consigamos deixar as pessoas mais satisfeitas para a próxima.

Entre 1987 e 1991, os Pixies tocaram muito e editaram um número apreciável de discos. Era a urgência da juventude?
Éramos jovens e impressionáveis, de facto. Se se está numa banda ‘bebé’, está-se nas mãos da editora. E a editora queria um álbum todos os anos. Nós também queríamos lançar um álbum todos os anos, pelo que havia uma coincidência de expectativas. A verdade é que tínhamos muita música e adorávamos fazer aquilo. O único ponto negativo é que, dois meses depois de andarmos a tocar na estrada um determinado álbum, concluíamos: “Era assim que deveríamos tê-lo feito.” Agora dominamos todo o processo e só sai música quando nos sentimentos completamente satisfeitos com o resultado.

Desde que se juntaram de novo, passaram 12 anos. É quase o dobro da ‘primeira vida’...
É assustador. Ao sétimo aniversário da reunião olhámos uns para os outros e deu-se uma experiência surreal: percebemos que estávamos juntos há mais tempo do que da primeira vez. E a tocar só músicas antigas. Foi aí que sentimos o impulso para gravar “Indie Cindy”. Não nos deveríamos perpetuar sem fazer música nova.

Quão autoritário é Black Francis?
Em jovens, éramos completamente disfuncionais. Todos. Há uma evidência: Charles escreve toda a música e é natural, por isso, que se assuma como o líder da banda. Quem me dera escrever melhor do que ele! Quanto mais velhos ficamos... não diria que nos tornamos mais sábios, mas ficamos mais capazes de lidar com as pessoas. A maior parte das pessoas não muda, incluindo eu, mas aprende-se a gerir melhor as relações. E agora temos a Paz Lenchantin [baixista que ocupa o lugar que até 2013 foi de Kim Deal]... Ela é um novo membro e ninguém quer fazer figura de parvo à frente de uma pessoa nova.

Atrás da cortina, há uns Pixies bem-humorados?
Não somos estrelas rock, ponto final. Somos o Joey [Santiago, guitarrista], o David e o Charles [Thompson, verdadeiro nome de Black Francis]. Tocamos os nossos instrumentos, temos opiniões diferentes sobre as canções, somos um bocado desregulados, mas também dizemos umas piadas e gostamos do que fazemos.

Do que é que falam quando não falam de música?
Eu faço magia... sou ilusionista. Quer dizer, não ando propriamente a aborrecê-los com os meus truques, mas brincamos... Fazemos coisas estúpidas. A Paz é muito cómica e mantém-nos entretidos.

Robert Plant vai atuar antes dos Pixies, no NOS Alive. É fã dele?
Claro! E temos uma história engraçada. [Em 2014] estávamos num avião em Inglaterra, e eu, o Joey e o nosso manager começámos a falar sobre futebol inglês. Entretanto, o cavalheiro que ia no lugar da janela juntou-se à conversa. Já estamos a falar há uns bons cinco minutos quando percebo: “É o Robert Plant!” Quando lhe dissemos que éramos os Pixies, ele respondeu: “Ah, os melhores de Boston!” Fiquei derretido! Falámos durante todo o voo, no desembarque, no levantamento da bagagem, no parque de estacionamento... Foi um gentleman. Um mês depois recebemos um telefonema, era para nos juntarmos a ele em digressão [na primavera de 2015]! Vai ser ótimo reencontrá-lo.

O que pensa do caso de alegado plágio em ‘Stairway to Heaven’, do qual os Led Zeppelin foram recentemente inocentados?
Não consigo culpar os Led Zeppelin de nada... Mesmo que eles tenham tirado umas ideias daqui e dali — e fizeram-no, claramente —, souberam tornar tudo ainda melhor.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 4 julho 2016

  • Encontro de titãs

    Na sua décima edição, o NOS Alive recebe, em Algés, gigantes como Radiohead, Pixies, Arcade Fire e Robert Plant. Mas também há espaço para revelações, fado e comédia

  • Aleluia! Ou o rock enquanto fé

    Pecado, perdão, redenção. A música dos Arcade Fire, que atuam na próxima semana no festival NOS Alive, explora os mistérios da fé à semelhança do que fazem U2, Springsteen, Nick Cave e Johnny Cash