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Aleluia! Ou o rock enquanto fé

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Pecado, perdão, redenção. A música dos Arcade Fire, que atuam na próxima semana no festival NOS Alive, explora os mistérios da fé à semelhança do que fazem U2, Springsteen, Nick Cave e Johnny Cash

Que música acompanha as minhas leituras da Bíblia logo pela manhã quando o resto da família ainda dorme na paz do Senhor? ‘A Paixão de São Mateus’, de Bach? ‘Messias’, de Handel? Sim, às vezes sabe bem mergulhar no tempo pré-revolução francesa através da música barroca. Mas este mergulho subaquático numa época remota e devota não pode ser feito todos os dias. Não posso fingir que vivo na atmosfera de Vieira. Portanto, na maior parte dos dias, permaneço à superfície flutuando ao sabor da melhor música pop ou rock do meu tempo. Nos últimos dias, por exemplo, a banda sonora dos meus quinze minutinhos de oração tem estado a cargo dos Arcade Fire, os canadianos que me abalroaram os tímpanos e o coração em 2004 com “Funeral” e que tocarão em breve no NOS Alive. Às sete da manhã, há quem use a energia de Arcade Fire no jogging ou no ginásio, eu uso Arcade Fire no ginásio da fé. A voz de Win Butler ajuda-me a entrar na aventura de José no Egito ou na epopeia da Galileia.

Amor. Nick Cave:
o caminho da Graça

Amor. Nick Cave:
o caminho da Graça

Por experiência própria sei que registar e apontar influências cristãs na música popular é um exercício intelectual que incomoda os dois lados da barricada, o lado laico, cool, ateu e hipster, e o lado beato e fariseu. O sector laico, autoproclamado dono da coolness, fica desconfortável quando percebe que imensas lendas do rock não seguem a corrente anticristã do ar do tempo; fica desconfortável quando percebe que o rock não é propriedade exclusiva da rebeldia pagã, da rutura com a tradição milenar, da explosão hedonista dos anos 60 e 70 ou da depressãozinha pós-moderna dos anos 80. Mas a verdade é que é difícil fazer uma história da cultura pop e rock sem falarmos de músicos inspirados pela Bíblia. Por vezes, chega a ser cómico observar o esforço que a crítica cool faz para separar a música de Bruce Springsteen ou U2 das suas raízes cristãs. O desconforto sente-se à distância: o crítico gosta da música, mas não quer elogiar a fonte dessa beleza musical (a fé). Na literatura, ocorre algo semelhante quando, por exemplo, o crítico tenta desligar a beleza assombrada de “O Céu é dos Violentos” da fé católica da sua autor, Flannery O’Connor. É como explicar o espírito aventureiro de Neil Armstrong sem falar da Lua. É como tentar explicar Zeca Afonso sem falar de comunismo. Não se pode falar de Bruce Springsteen, U2, Arcade Fire, Johhny Cash, Nick Cave ou Belle and Sebastian sem mencionar a transcendência cristã e essa fonte de letras musicais que é a Bíblia. Sei que é um pecado para a intelectualidade que ainda está no poder em Portugal e um pouco por todo o Ocidente, mas a verdade é que o cristianismo não é só uma religião, também é um veículo estético.

Por seu lado, os fariseus da Igreja (isto é, os beatos) também não compreendem que o seu cristianismo pode ser um espantoso veículo artístico para a música popular. Este sector assume logo à partida que o pop-rock é um terreno dos seus inimigos, pagãos e ateus. Sem surpresa, é frequente encontrar neste lado da barricada uma recusa frontal da cultura popular e uma fatwa em prol do regresso aos clássicos pré-anos 60. Estamos a falar de pessoas que ficam chocadas quando afirmo sem ironias que vou dar a catequese às minhas filhas através dos álbuns dos Arcade Fire.

O ciclo da redenção

Cada álbum dos Arcade Fire é uma parábola cristã centrada no ciclo central desta fé: pecado, perdão, redenção. O primeiro, “Funeral” (2004), parte da morte de familiares e da consequente tristeza e choro; essa dor cria frustração, ódio e leva ao pecado:

Perdão. Bruce Springsteen: a população de um lupanar está mais próxima da salvação do que o beatério

Perdão. Bruce Springsteen: a população de um lupanar está mais próxima da salvação do que o beatério

“When daddy comes home, you always start a fight. So the neighbors can dance in the police disco lights”.

O pecado, por sua vez, cria a oportunidade para a expiação. Em ‘Crown of Love’, Butler pede perdão porque já não sente a centelha sagrada dentro de si. Para fechar o círculo, ouvimos o advento da redenção final na explosão que é esse hino de esperança chamado ‘Wake up’. Aquele que continua a ser o hino oficioso da banda é uma marcha de guerra do amor. Sim, aqueles são os tambores de guerra da esperança. Quem diria? O álbum que provocou um terramoto na cultura indie, a autoproclamada dona da coolness, é um pequeno tratado cristão que servirá para as minhas filhas compreenderem o centro da sua fé. Se “Funeral” é um grito de evangelização num mundo pagão e/ou secular, o segundo álbum, “The Neon Bible” (2007), é um grito contra os fariseus, contra a fé formalista dos beatos, contra a Igreja das regras e não das pessoas, contra a fé enquanto atividade mecânica, contra a forma como a religião organizada dificulta o acesso a Deus (algo que também assombrava o jovem Bono). Ao contrário do que muitos pensaram, não é um álbum contra a fé. Nos Evangelhos, o maior alvo das críticas de Jesus Cristo não é o paganismo exterior à fé, é o farisaísmo que seca a fé a partir de dentro. Dentro desta lógica, Butler critica aqueles que cantam o aleluia com medo no coração e que trabalham na Igreja enquanto desprezam a própria família, destruindo assim qualquer centelha de amizade e amor. Apesar da crítica, o álbum não fecha a porta ao pedido de perdão do fariseu, que no final do álbum tem acesso a uma ode calma sobre o paraíso, “No cars go” (“a place where no planes go”), que me faz lembrar “Where the streets have no name”, a abertura do “The Joshua Tree” (1987) dos U2.

O terceiro álbum, “The Suburbs” (2010), volta à sensação de perda. Se “Funeral” lida com a perda de um familiar, “The Suburbs” lida com a perda das nossas memórias de infância, que constitui o derradeiro fim da inocência. Em paralelo, aborda a crescente crise do espírito comunitário no Canadá, nos EUA e no Ocidente por inteiro. O tema até é tratado com uma linguagem quase apocalíptica, pois ouvimos falar em bairros inteiros sem laços de amizade e de cidades sem crianças. Esta fragmentação dos laços comunitários é um dos temas que marcam toda a obra dos Arcade Fire. Nem por acaso, o quarto e último álbum, “Reflektor” (2013), é uma intifada contra a cultura da internet que nos está a afastar uns dos outros, é um ataque direto ao hipster que vai ao concerto ou ao festival só para tirar umas fotos que coloca de imediato no Facebook, quebrando assim os laços emocionais com as pessoas que estão ali com ele a ouvir a mesma música. “Reflektor” é uma revolta dos átomos contra os bytes. A internet, que nos devia ligar, está a desligar-nos uns dos outros: “I thought I found the connector, it was just a reflector”. A estrutura deste álbum não segue à risca o ciclo cristão, mas não deixa de procurar Deus, a comunidade, a família, a paternidade. Sim, esqueçam o hedonismo e as drogas. A faixa ‘The Suburbs’ mostra como hoje em dia a iconoclastia só pode vir de um conservador:

“So can you understand? Why I Want a daughter while I’m still young, I wanna hold her hand, and show her some beauty, Before all this damage is done”.

Se a faixa ‘The Suburbs’ é uma ode à família, a faixa ‘Afterlife’ é um hino de esperança ainda mais poderoso do que ‘Wake up’. É um salmo exuberante numa época viciada em murmúrios cínicos. Há malta que tem de tomar fluoxetina para se alegrar, eu só tenho de ver o vídeo de “Afterlife” realizado por Spike Jonze e interpretado por Greta Gerwig. É o videoclip do paraíso.

Pecado. Arcade Fire: não podemos esconder os nossos pecados

Pecado. Arcade Fire: não podemos esconder os nossos pecados

Nestes dias de cinismo, não encontramos canções mais otimistas e esperançosas do que estes hinos dos Arcade Fire. Convém frisar, contudo, que a montante dessa esperança encontramos o pessimismo do início e do fim da Bíblia. Quando diz que “há algo de errado no coração do homem” (“Neighborhood #3”), Butler coloca a sua narrativa no perímetro do pecado original. Na verdade, só chega ao paraíso quem conhece o inferno, só chega ao paraíso quem se disponibiliza para o teste do purgatório. E, por falar em expiação, tenho de confessar que o ‘Wake Up’ funciona cá em casa como confessionário:

“Children, wake up. Hold your mistake up. Before they turn the summer into dust”.

Este é o mecanismo da confissão e do perdão. Não podemos esconder os nossos pecados, não podemos enterrá-los, temos de carregá-los, temos de admiti-los com orgulho. Não, o orgulho não advém da consumação do erro, mas da coragem que é necessária para admitir esse erro. Quando erguemos bem alto os nossos erros, sentimos uma sensação de libertação e recomeço. Como diz a canção, “ergue bem alto o teu erro”, porque é isso que abre as portas à redenção que se sente quanto toda a gente começa a gritar “ohhhhhhhh”, quando toda a gente sente uma união intraduzível para o intelecto desapaixonado, frio, cool. Foi esta energia gerada na fé que me agarrou logo em 2004.

Agora que estou a completar o meu reencontro com a fé, posso olhar para trás com calma. Esta estrada de Damasco teve vários pontos de ignição. Um deles foi sem dúvida “Funeral”, o primeiro álbum dos Arcade Fire. Mesmo antes de prestar atenção às letras (coisa que faço à vigésima oitava vez em que oiço um disco) senti logo que havia qualquer coisa neste disco que respondia ao apelo espiritual que ainda não tinha coragem para assumir, pois sabia (e ainda sei) que a fé não rende pontos na carreira de um escritor ou intelectual. Hoje em dia só se admite que um escritor encontre a porta de saída da fé, nunca a porta de entrada.

Entre muitas outras coisas, a música dos Arcade Fire ajudou-me a ultrapassar este receio. Há ali uma energia única, uma carga de cavalaria sinfónica, uma exuberância que não se verga à ironia e à desconstrução, uma seriedade que rejeita a indiferença pós-moderna em relação à verdade, há ali uma demanda séria sem engraçadismos ou cinismos, sem a metalinguagem das infindáveis citações da cultura indie e hipster, há ali um orgulhoso desprezo em relação ao império do cool, há apenas a vontade de entrar nas narrativas de sempre, a morte, o amor, Deus, o perdão, o pecado, a família, a comunidade. No fundo, há ali a sinceridade do violino e do tambor em cima do cinismo da guitarra elétrica.

Nenhuma outra banda nas últimas décadas teve a coragem para lançar assim a luz negra do inferno e luz branca do paraíso sobre a ironia pós-moderninha que nos mantém num lusco-fusco enervante que não vai a lado nenhum, nenhuma outra banda teve a coragem para contestar o ciclo autodestrutivo da cultura indie que se perde num ciclo perpétuo de pastiche atrás de pastiche, de piscadela de olho atrás de piscadela de olho de melómano para melómano, de literato para literato, de cinéfilo para cinéfilo. A cultura contemporânea, a começar na música, está mergulhada num cinismo pesado que perdeu a fé não só em Deus mas também na grandeza e no poder transformador da arte — a catarse, que é uma educação das emoções.

É por isso que a literatura, a música e o cinema se perdem num círculo vicioso de metaexercícios. Olhe-se, por exemplo, para o insuportável cinema de Tarantino, que faz filmes para citar outros filmes. O melhor filme de Tarantino não é tarantinesco: “Jackie Brown” não está a fazer metacinema para cinéfilos, está a desenvolver os dilemas humanos das suas personagens. Os Arcade Fire não fazem metamúsica para os melómanos que estão a par de todas as novidades indie, fazem música para o público, têm fé em Deus mas também na catarse da grande arte. Nem por acaso, “Reflektor” é uma crítica aberta a esta cultura cool, hipster, indie, chamem-lhe o que quiserem. Numa das faixas, ‘Rococo’, Butler critica os “miúdos modernos” que “parecem selvagens mas que estão domados”. De resto, a banda assumiu desde o início uma posição antagónica em relação à cultura indie, sobretudo em relação à forma como esta atmosfera “independente” acaba por criar uma ortodoxia fechadíssima, em perpétua autocitação e pouco adepta de espíritos livre e independentes.

Como dizia há uns anos um crítico do “The Guardian”, os Arcade Fire sempre fizeram fogo sobre bairros cool “como Williamsburg, em Nova Iorque, ou Hoxton, em Londres, onde toda a gente entra numa espécie de parada para mostrar as suas credenciais hipsters vestindo e ouvindo as mesmas coisas para depois dizerem com orgulho que são muito diferentes”. Ámen. Eu não tenho o hábito de ir à cinemateca ou a concertos precisamente porque não tenho paciência para estas paradas pedantes de hipsterismo e de coolness que variam de aspeto ao longo das décadas.

Boss, Cash, Cave

Win Butler está longe de ser o primeiro a trazer o Evangelho para a cultura pop. Podemos até considerar os Arcade Fire como os grandes herdeiros da velha luz de Bruce Springsteen. Sobre a dimensão bíblica da obra do “The Boss”, José Tolentino Mendonça já escreveu o que havia a escrever nestas páginas: está lá a fome de resgate divino e a esperança que nasce no “it takes a leap of faith to get things going”. Só quero apenas acrescentar que Springsteen tem o melhor antídoto musical contra a arrogância beata ou farisaica. Estou a falar de ‘Land of Hope and Dreams’ (2012) que evoca o comboio do paraíso. Comboio, esse, que leva “santos e pecadores”, “derrotados e vencedores”, “putas e viciados”, “almas perdidas”. Ao contrário de muitos frequentadores diários de homilias, Bruce Springsteen percebe que a população nativa de um lupanar está mais próxima da salvação do que o beatério que se senta nas linhas da frente da Igreja. Por falar em fé contra os fariseus, recorde-se Johnny Cash, que foi tocar a uma prisão cheia de pecadores (“Folsom Prison”).

Fé. U2: a verdadeira fé é movida por dúvidas

Fé. U2: a verdadeira fé é movida por dúvidas

Toda a obra de Cash assenta numa aguda consciência do pecado e do implacável juízo final: “you can run for a long time” mas “sooner ou later God’ll cut you down”, porque “what’s done in the dark will be brought to the light”. O tal arco cristão de que falei há pouco, do pecado à redenção, é o centro de Johnny Cash. Aliás, por vezes, até fica a impressão de que Cash só acredita no inferno e no purgatório, deixando de lado o paraíso. O homem de negro é implacável no julgamento da nossa condição de seres caídos. Quando oiço Cash, sinto medo, sinto o velho temor perante Deus, aquela cagufa teológica de quem sabe que não há fuga possível ao julgamento final. As letras parecem saídas do Velho Testamento e, acima de tudo, a sua voz tem uma autoridade profética, a autoridade de quem conheceu o inferno na primeira pessoa (a culpa sentida pela morte do irmão, a reprovação do pai, a dependência de drogas). O inferno sente-se na própria textura da sua voz. Esta textura áspera é claríssima em ‘When the Man Comes Around’, que relata os momentos finais não do corredor da morte mas do corredor do julgamento final:

“I looked and behold: a pale horse. And his name, that sat on him, was Death. And Hell followed with him”.Ouvir Cash, sobretudo este Cash do ocaso (American IV, V, VI), não é para mariquinhas. O que faz sentido, diga-se: “Ser cristão não é para mariquinhas (sissies)”, dizia Cash. Até porque depois de conhecer o inferno é preciso ter a coragem para entrar no purgatório. E aqui deixem-me que vos diga que não há confessionário mais pesado do que ‘Hurt’, canção que expõe o “império de pó” que foi a sua vida, que assume a via sacra (“I wear this crown of thorns”) e que pede perdão a todas as pessoas que magoou, “if I could start again, A million miles away, I would keep myself, I would find a way”. Quem não sentir medo ao ouvir os versos infernais de ‘When the Man Comes Around’ não tem a cabeça no sítio. Quem não sentir comoção ao ouvir estes versos purgantes de ‘Hurt’ não tem o coração no sítio.

Também não tem o coração no sítio quem não sentir pele de galinha com o amor cantado por Nick Cave. Por exemplo, a belíssima canção de amor chamada ‘Into my Arms’ também é uma pequena catedral cristã. Para começar, Cave diz-nos que “não acredita num Deus intervencionista”, tese fundamental no cristianismo. Deus não nos controla como títeres, nós não estamos a seguir um caminho predeterminado, Deus criou-nos como seres dotados de livre arbítrio, somos criaturas radicalmente livres, somos livres até para escolher o mal de forma consciente (o pecado). Mas, se não acredita num Deus intervencionista, Cave acredita no amor e na existência de um caminho que podemos percorrer até Cristo, o caminho da Graça.

Bono e Butler

Para terminar, U2. Bono apadrinhou Butler. É fácil perceber porquê. O impacto de Arcade Fire nos anos 2000 só pode ser comparável ao impacto do triunfalismo dos U2 nos anos 80, sobretudo com “The Joshua Tree” (1987). Se a esperança religiosa e o respetivo som triunfal dos canadianos é uma resposta ao cinismo mole e pretensioso do indie, a esperança religiosa e a Big Music dos irlandeses foi uma resposta à raiva explosiva do punk. Basta reouvir ‘Gloria’, que até tem momentos em latim, “Glória... in te domine, Gloria... exultate, Gloria... Gloria, Oh Lord, loosen my lips”.

Bono enche estádios com 70 mil pessoas. Dessas 70 mil almas, quantas têm a noção de que estão a ouvir uma banda marcada pelas Escrituras? Poucas. O paradoxo é evidente: aquela que é muito provavelmente a banda mais famosa do nosso tempo pós-cristão é uma banda mergulhada no imaginário cristão de quatro garotos irlandeses. Quando cantam “only to be with you” de “I still haven’t found what I’m looking for”, a maioria dos fãs de U2 pensa que está a entoar uma canção de amor dirigida à mulher de Bono. Sucede que aquele “you” é Deus, Bono está a falar com Deus, está à procura de Deus subindo a montanhas, percorrendo campos, subindo muralhas, falando a língua dos anjos para depois dizer “I believe in kingdom come”, para depois se ajoelhar perante Jesus:

“He broke the bounds, he loose the chains, Carried the cross of my shame, Broke my shame, you know I believed it”.

Bono termina a canção com uma marca de dúvida, o lendário “I still haven’t found what I’m looking for”. Esta podia ser a banda sonora de muitas das minhas orações, que por vezes também acabam com dúvidas. Não, não é um problema ter dúvidas. A verdadeira fé é movida pelas dúvidas, uma fé sem dúvidas é uma crença morta, mecânica, farisaica, feita mais de medo do que de verdadeira misericórdia. “I still haven’t found what I’m looking for” é de 1987. Dezassete anos depois, Bono fez uma sequela com ‘Yahweh’ (Javé, Deus) para dizer “Still i’m waiting for the dawn”, “why the dark before the dawn?”. Seja como for, com ou sem dúvida, com ou sem a certeza da Glória do Espírito Santo, Deus está sempre presente na mente da maior estrela pop do mundo:

“Ser cool pode ajudar nas negociações com gente de todo o mundo, talvez, mas é impossível conhecer Deus com os óculos de sol postos. É impossível conhecer Deus sem resignação, sem nos expormos, sermos crus. É essa a ligação com a música superior e a arte superior, e é por isso que é desconfortável, é por isso que o cool é o inimigo”.

Ohhhhhhh

Se a maior banda pop rock do mundo está submersa no imaginário cristão (U2), se a banda indie mais explosiva da última década está assente no arco redentor do cristianismo (Arcade Fire), se outros nomes incontornáveis (Cash, Springsteen, Cave) assentam a sua música na Bíblia, não será então tempo de revisitarmos a relação entre música popular e cristianismo, entre pop e tradição? Sei que ateus e católicos, indies e não indies, hipsters e não hipsters não gostam de falar do assunto, mas não me parece possível fazer a história da rebeldia rock sem um grande capítulo sobre cristianismo. Cristo está em acordes e letras inesperadas. Moral da história? Era bom ver abraços entre católicos e ateus ao som de um dos hinos de Arcade Fire. Andamos todos a precisar de mimo, andamos todos a precisar de comunidade, de congregação, andamos todos a precisar de quebrar esta pátina de cinismo que encobre e entorpece tudo e todos. Se for ao concerto, sei perfeitamente o que irei sentir quando gritar aquele “ohhhhhh, ohhhhhhhh” do ‘Wake Up’ e do ‘Afterlife’. Estou a falar do sentido de comunhão que sinto na missa na parte da paz de Cristo, a parte em que temos de beijar as pessoas que estão à nova volta, perfeitos desconhecidos que se tornam irmãos. Na missa, costumo beijar velhinhas de buço eriçado. No concerto, espero beijar faces mais macias, mas o efeito será o mesmo. É o efeito de Deus (os não crentes podem substituir a palavra “Deus” por qualquer coisa mais insossa e higienicamente cool como “transcendência” ou coisa que o valha.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 4 julho 2016

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