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As notícias sobre a morte do rock'n'roll foram manifestamente exageradas

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Florence Welch encerrou, com chave de ouro, o festival Rock Werchter

Raphael Dias/Getty Images

Bem-vindo a Werchter, o pequeno lugar chuvoso no meio da Bélgica que nos faz acreditar que na música ainda há lugar para as lendas, para o improviso e para os artistas que levam o público ao êxtase com a voz, a guitarra e poucos truques. Estivemos na edição deste ano do festival Rock Werchter e trazemos-lhe todos os melhores momentos, dos coros eternos de “Hey Jude” aos arrepios que Florence Welch e uma harpa são capazes de provocar

Toda a gente que já foi a pelo menos um festival na vida sabe que há algumas regras de boa convivência que deve respeitar. Uma delas contraria todas aquelas que aprendemos na escola ou em família: num festival, um mau vizinho é aquele que nos deixa escutar a nossa própria voz, que nos incomoda pouco com os seus movimentos, que não tapa a nossa visão com os gestos de entusiasmo – porque um mau vizinho não está entusiasmado, e isso não é companhia que se queira.

Fazemos esta introdução porque queremos explicar-lhe tudo o que se passou num dos grandes festivais de rock que persistem na Europa, o Rock Werchter, mais precisamente na Bélgica. Para lá chegar, terá de voar até terras belgas e depois chegar a uma cidade chamada Leuven, apenas para depois apanhar um autocarro até à pequena Werchter e fazer uma longa caminhada até ao recinto, que alberga quase 90 mil pessoas.

Quando os pórticos de entrada, que agora parecem os controlos de segurança dos aeroportos, estiverem à vista, vai reparar nas roupas excêntricas dos festivaleiros: é que em Werchter, como aconteceu este ano em Glastonbury, chove (muito), e às temperaturas amenas que pedem calções e t-shirts junta-se a necessidade de calçar galochas e fugir o mais que se pode à inevitável lama. Cumpriu todos os passos? Então, agora sim: bem-vindo ao lugar que nos lembra de que o rock continua vivo.

Esta edição, terminada este domingo com chave de ouro (Florence Welch sabia que os festivaleiros já acusavam cansaço, mas não deixou ninguém parar de saltar e “mostrar amor”), provou desde o início que as grandes lendas do rock não estão esquecidas. No primeiro dia, Paul McCartney encerrou o palco principal – e se ao princípio custou animar uma multidão que a custo repetia os refrões de êxitos como “Blackbird”, pela altura em que se sentou ao piano para uns dez minutos de “Hey Jude” não havia quem não cantasse o mais alto que podia (excepto, como referimos, aqueles maus vizinhos que de vez em quando aparecem para estragar a festa).

Houve homenagens a John Lennon – o momento em que Paul interpretou “Here Today” foi um dos mais emocionantes da noite – e a George Harrison, de ukelele na mão para oferecer aos fãs dos Beatles uma versão sentida de “Something”; houve dedicatórias à mulher, Nancy, em flamengo, e à antiga mulher, Linda Eastman, que partiu ainda no século passado. Sobretudo, houve um Paul bem disposto e cheio de histórias para contar: “Quando fui tocar à União Soviética, conheci membros do Governo russo que me disseram que aprenderam a falar inglês com a ‘Hello, Goodbye’”, gracejou, logo depois de “Back in the USSR”.

Houve tempo para os êxitos – “Eleanor Rigby” e “Let it Be” não poderiam ficar de fora -, para Wings, para as mais recentes (Kanye West e Rihanna marcaram presença no pano de fundo enquanto Paul cantava “Four Five Seconds”), para um espetáculo de fogo de artifício em “Live and Let Die”, para piadas sobre o barulho que os colegas dos outros palcos faziam (“Tum tum tum, pensem nisto como um mashup”, pedia Paul). No fim, houve tempo para até ao fim do festival continuar a ouvir os coros de “Hey Jude”, entoados das casas de banho às filas das bebidas de forma espontânea por festivaleiros que provavelmente seriam mais fãs das barracas de cerveja do que propriamente dos Beatles.

Paul McCartneysubiu ao palco bem disposto e cheio de histórias para contar

Paul McCartneysubiu ao palco bem disposto e cheio de histórias para contar

Steve Jennings/Getty Images

No capítulo das lendas, destaques para Robert Plant, antigo Led Zeppelin, que num dia de chuva intensa pôs o palco “The Barn” em êxtase com versões de “Whole Lotta Love” ou “Dazed and Confused” e garantiu adorar estar na Europa (e com um público daqueles, quem não gostaria?): “Esta é a melhor tendinha do mundo!”. No último dia, um Iggy Pop bem enérgico enchia de entusiasmo o palco principal, correndo todos os êxitos (de “I Wanna be your dog” a “Passenger”, passando por “Wild One”) enquanto corria por entre o público para cumprimentar e agradecer o apoio: “Gosto de gente que sabe apreciar música” (e neste último dia, os maus vizinhos deviam estar todos a descansar nas suas tendas).

Esta foi também uma edição recheada de momentos com mensagens políticas mais ou menos encapotadas, ou não estivéssemos na Bélgica depois de uns meses de acontecimentos trágicos. “Sabemos o que aconteceu em Paris no ano passado, em Bruxelas e em Orlando. O facto de estarmos aqui a ouvir música como comunidade prova que o ódio e o medo nunca superarão o amor”, discursava no último dia Macklemore antes de cantar a música “Same Love”, com um casal ostentando uma bandeira gay a iluminar os ecrãs gigantes, num dos momentos mais comoventes de todo o festival (quem diria que seria o intérprete de êxitos de discoteca como “Thrift Shop” ou “Can’t Hold Us” a criá-lo?).

No primeiro dia de festival, também Ellie Goulding pedira a todos os festivaleiros que se abraçassem e mostrassem amor pelo próximo. “Talvez com mais umas bebidas haja mais abraços e até beijos”, gracejava, pedindo “mais amor” com uma bandeira gay como pano de fundo. Florence Welch pedia o mesmo, com a mesma bandeira na mão, durante a versão mais calma de “Spectrum”: “Abracem-se, beijem-se, digam que se amam. Amor é amor!”. A seguir brindou o público com a maravilhosa versão de “You’ve got the love” acompanhada pela harpa, num momento de fazer arrepios.

Com o seu vestido vermelho leve, os pés descalços e os movimentos de rodopio constante, Florence conseguiu arrepiar muitas vezes o público que assistia como que hipnotizado – a voz trémula em conversa com os fãs contrasta com a voz forte com que entrega temas como “What Kind of Man” ou “Ship to Wreck”, mesmo quando corre sem parar e desce para cumprimentar os fãs.

É a última atuação do último dia de festival, e serve para fechar com magia uma série de cabeças de cartaz que não desiludem. No segundo dia, os Red Hot Chili Peppers invadem o palco com a energia de sempre, desta vez com um Anthony de t-shirt vestida mas com o eternamente diabólico Flea no baixo e o refrescante Josh a conseguir tomar com mérito o lugar do virtuoso da guitarra John Frusciante. Num ritmo sem pausas, os californianos apresentaram um alinhamento que mais parecia o de um “best of”: a entrar com “Can’t Stop” e a fechar com “Give it Away”, os fãs ainda tiveram direito aos clássicos “Scar Tissue”, “Californication”, “Under the Bridge” ou “Snow (Hey oh)”, para além das cinco músicas do novo álbum (com destaque para as enérgicas “Go Robot” e “Detroit”).

No terceiro e penúltimo dia, é a vez de os Rammstein encherem as medidas ao público que os espera e que numa questão de minutos os aclama de punho no ar. Como sempre, há fogo de artifício, há muita pirotecnia (e até uma espécie de colete de explosivos vestido pelo homem do microfone, Till Lindemann, que “explode” em palco), há muito espetáculo e há uma amostra competente dos maiores êxitos da banda alemã, culminando com a clássica “Amerika”, como não podia deixar de ser.

É depois destes nomes de luxo (podíamos falar-lhe ainda do espetáculo que James Bay nos ofereceu às três da tarde como se de um cabeça de cartaz se tratasse, ou da voz segura do novinho Jake Bugg) que chegamos a Florence Welch, que no último dia anuncia que aquele é também o último concerto da presente digressão e o sétimo aniversário do primeiro álbum da banda – uma espécie de fecho de um ciclo que merece toda a sua dedicação e energia. O público corresponde, porque como canta Paul McCartney na clássica “The End”, que como sempre fechou a atuação, grandes artistas merecem grandes públicos sem vizinhos desmancha-prazeres: “E no fim, o amor que recebes é igual àquele que crias”.