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Morreu Abbas Kiarostami, o homem do cinema poético

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Chung Sung-Jun / Getty Images

Fez mais de 40 filmes. Deslumbrou o ocidente com a a sua cinematografia e em 1997 ganhou a Palma de Ouro do Festival de Cannes com “O Sabor da Cereja”, onde usa a imagem para redescobrir a milenar tradição poética do seu país. Apresentou a cultura persa ao mundo, num tempo que muitos julgavam que ela tinha sucumbido à ditadura religiosa dos ayatollahs

Abbas Kiarostami fez da sala de cinema um automóvel. Personagens dentro de carros em percursos intermináveis entre a cidade e o campo tornaram-se a imagem de marca do realizador iraniano. Diálogos cheios de reflexões sobre a vida e as relações humanas marcaram toda uma geração de realizadores mais jovens.

Nascido em 1940 em Teerão, Kiarostami começou por estudar pintura, tendo depois trabalhado como designer gráfico e realizador de filmes publicitários para a televisão. Em 1969, ainda no tempo da monarquia iraniana, assumiu a direção do departamento de cinema de um centro de apoio ao desenvolvimento de crianças e jovens e foi aí que começou a realizar os seus primeiros filmes de autor.

Depois da revolução islâmica de 1979, o artista protagonizou uma forma singular de resistência político-cultural ao optar por continuar a viver no Irão. A ditadura criou um novo tipo de censura e passou a controlar todas as esferas da vida pública e privada.

Para iludir o controlo religioso, Kiarostami apoiou-se numa narrativa poético-simbólica que recuperou a tradição milenar da cultura persa, dando assim um sólido contributo para lembrar ao mundo ocidental de que o Irão era o país dos cantos oníricos de Ferdusi e Rumi.

Foi casado com a artista plástica Parvin Amir-Gholi. Juntos tiveram dois filhos - Ahmad, que é editor de multimédia, e Bahman, que faz documentários. O casal divorciou-se em 1982.

Em março deste ano foi-lhe diagnosticado um tumor gastro-intestinal. Depois de várias operações, uma delas feita em Paris em junho, Kiarostami partiu. A 4 de julho de 2016, fechou-se um ciclo da cinematografia de autor no Irão. Kiarostami partiu para a última viagem.

“Cópia Certificada”, o seu penúltimo filme, e também o primeiro que realizou fora do Irão, recorda-nos que “ser simples não é simples”. E esta é a frase que condensa a grande herança que nos deixa o cinema de autor de “Através das Oliveiras”, “Shirin” e “O Vento Levar-nos-á”, entre quase 40 películas.