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As vidas irrelevantes

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NADIR AFONSO. Na próxima segunda-feira é inaugurado em Chaves o museu concebido por Álvaro Siza Vieira para acolher a obra do pintor

FOTOS D.R.

Em conversa com a viúva do pintor e arquiteto Nadir Afonso (1920-2013), dava-me Laura conta de um facto tão surpreendente quanto intrigante, ocorrido após a morte daquele homem nascido em Chaves cuja vida foi uma permanente sucessão de inquietudes artísticas e pessoais. Grande figura da arte portuguesa contemporânea, com uma obra tantas vezes pioneira, seja pelo modo como materializou uma certa abordagem surrealizante, seja como se afirmou com lugar de relevo no panorama internacional no âmbito do abstracionismo geométrico, Nadir é, ainda assim, um pintor insuficientemente inscrito na história da arte portuguesa, muito em resultado do que têm sido ao longo de décadas os discursos dominantes na definição de um cânone artístico nacional. Talvez por isso, ou até por isso, dizia-me Laura Afonso, quando o pintor morreu, com 93 anos, o Expresso não tinha, para publicar, nenhuma fotografia deste artista singular, autor de uma profunda reflexão teórica sobre a arte.

Independentemente de haver, ou não, um absoluto rigor naquela afirmação, a simples perceção desta verdade por parte de alguém tão próximo do artista, já seria motivo para um vasto conjunto de questionamentos sobre o modo como nos jornais, por vezes, se deixam escapar por entre a poeira dos dias tantos dados, tantas informações, tantas existências sem o registo das quais corremos o risco de não entender na sua totalidade o mundo em que vivemos. Tanto quanto consegui apurar, há uma dolorosa razão no desabafo de Laura. O inexplicável acontece. Não há registo de que alguma vez o Expresso tenha publicado uma qualquer entrevista com Nadir Afonso. Ou será que o tido por inexplicável é em si mesmo o resultado de uma construção narrativa capaz de espelhar um tempo?

Não deixa de ser uma constatação inusitada, válida para o Expresso como, por certo, para tantos outros jornais, revistas ou televisões. E é, sobretudo, a confirmação de como demasiadas vezes a negação da realidade é uma forma de construir outras realidades. José Eduardo Agualusa escreveu um romance intitulado “O Vendedor de Passados”. Já muito perto do final, uma personagem, na sequência de uma pergunta sobre uma foto, diz: “Os melhores retratos não são aqueles que conseguem resumir uma personalidade, são aqueles que resumem uma época”.

Ora, este silêncio, esta ausência, este espaço em branco criado à volta de uma personalidade concreta, diz seguramente muito sobre um transmontano despojado, desprendido e pouco interessado na promoção pessoal, mas funciona especialmente como espelho da mecânica dos interesses e das abstrações à volta do gosto em diferentes momentos instaladas nas várias estruturas de poder dos órgãos de comunicação social.

Nascido em Chaves a 4 de dezembro de 1920, cidade onde, de resto, na próxima semana o Presidente da República inaugurará um belíssimo museu concebido por Álvaro Siza Vieira para acolher a vastíssima obra de alguém cujo nome invulgar para um português terá sido sugerido ao pai por um amigo de etnia cigana, Nadir foi sempre um homem em viagem pelo mundo. Paris era a sua segunda, ou primeira, ou primeira, segunda e terceira cidade, embora Chaves fosse o local onde nunca deixava de aportar. Permanecia longas temporadas e, depois, partia. Partia sempre, porque o sentido de descoberta era estruturante naquela vida cheia de vidas.

Relacionou-se ou trabalhou com grandes nomes da arte contemporânea do seu tempo, nacionais e internacionais. Tem uma produção artística construída ao longo de sete décadas e poderá ter sido vítima involuntária da sua própria voragem criativa. No catálogo de uma exposição organizada em 2010 pelo Museu Nacional Soares dos Reis e pelo Museu do Chiado, diz-se que “a sucessão de exposições realizadas, com enfoque na produção de Nadir posterior aos anos 70, resultou num diminuído conhecimento da ação criativa anterior e consequentes equívocos na interpretação da sua obra, em particular da sua metodologia”.

E é pena. Desde logo por se tratar de uma produção estética riquíssima, em particular entre meados dos anos de 1940 e finais da década de 1960, que não se compadece com o habitual 'cliché' a que muitos associam a sua obra, como forma de a menorizar.

Um dos capítulos do livro de Agualusa chama-se 'As vidas irrelevantes'. São estas vidas que, não o sendo na verdade, desde logo pela dimensão, importância e originalidade da obra criada, tornam-se uma espécie de não existência à luz de um certo discurso mediático. A história tem, porém, formas de corrigir a artificial direção dos ventos criados em épocas distintas. Não cria novos ventos. Mostra, antes, como nunca há irrelevâncias definitivas.