Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

Fotografar a ausência

  • 333

VESTÍGIOS. Félix Mula trabalha sobre os restos do passado

FOTO CORTESIA DO ARTISTA E MUSEU COLEÇÃO BERARDO

O moçambicano Félix Mula é o vencedor do Novo Banco Photo 2016, com um trabalho à volta das antigas cantinas rurais que rodeiam a cidade de Maputo, hoje transformadas em ruínas

Não me preparei para ganhar, mas fiquei muito feliz.” Assim reage o moçambicano Félix Mula à notícia que ontem ao fim do dia lhe foi comunicada: tinha ganho o Novo Banco Photo 2016. Logo ele, que não se assume fotógrafo e sim artista plástico, e que não quis ter formação superior em fotografia. As suas imagens são mais do que imagens. São a camada exterior, visível, de uma história que o tempo enterrou. Lá está a parede semidesfeita, o edifício ruído, a vegetação a devorá-lo. A ruína a persistir obstinadamente no mesmo local décadas e décadas depois de ter servido para alguma coisa.

“O que me fez ir por este caminho é o ciúme, a inveja da história que não vivi e que aconteceu. De todo um tempo que já passou. Aquilo é algo que nos diz que ali houve qualquer coisa, que ali viveram pessoas”, diz ao Expresso Félix Mula. Os espaços captados nestas fotografias — expostas até 2 de outubro no Museu Coleção Berardo, em Lisboa, junto ao trabalho das outras duas finalistas do prémio, Mónica de Miranda e Pauliana Valente Pimentel — não foram escolhidos ao acaso. São as antigas cantinas rurais, lojas onde se vendia o que vinha de Maputo porque a produção local não abarcava, sabão, óleo, fósforos, roupa. Félix passava por elas, uma e outra vez, perguntando-se o que seriam. Até que um dia parou.

EDIFÍCIOS. As imagens estão expostas no Museu Coleção Berardo até 2 de outubro

EDIFÍCIOS. As imagens estão expostas no Museu Coleção Berardo até 2 de outubro

FOTO DAVID RATO

“Centrei-me nas lojas que existem a norte de Maputo, no troço que liga o lugar onde nasci com a localidade onde nasceu o meu pai”, conta Félix que, movido pela vontade de questionar estes edifícios, quis saber que pessoas os frequentavam e de que forma eram utilizados. Ouviu dezenas de depoimentos de quem, noutro tempo, deles de serviu. “Procurava os mais velhos, fazia-lhes perguntas, eles explicavam-me.” Por vezes, faziam com ele a viagem, unindo-se ao projeto, querendo também eles rever essas memórias. Um deles marcou-o, chamava-se Paulino: “Fez 200 km comigo para me mostrar a 'sua' cantina. Era a primeira vez que lá regressava desde 1978. Ao chegar, passeou dentro da ruína, reconhecendo os recantos e aproveitando para conhecer as divisões que na altura lhe estava vedadas — porque as lojas tinham por trás quartos onde residiam os seus donos.”

Destes, dos donos, raramente ficou a saber os nomes. Eram em geral conhecidos por alcunhas. E mesmo estas perderam-se em muitos casos, pelo que não lhe foi possível descobrir quem vivia naqueles quartos interiores das cantinas.

Félix falou com as pessoas, mas não as fotografou. Falou com elas porque as ruínas não falam. “Eu gosto de falar das pessoas através da sua ausência”, admite, notando que essa é a via encontrada para complementar o que, aos 13 anos, aprendeu com o pai. Fotógrafo de estúdio, foi quem lhe pôs uma máquina fotográfica entre as mãos pela primeira vez, sonhando com que o filho o ajudasse no trabalho. Ele assim fez. Porém, “a pouco e pouco fui desenvolvendo outras formas de trabalhar, mais artísticas”. Por isso estudou na Escola Superior de Artes na Ilha da Reunião e por isso hoje ensina no instituto Superior de Artes e Cultura, em Maputo. “Aos 13 anos eu fotografava festas, casamentos. Fotografei tantas pessoas que fiquei traumatizado. Então procurei outra forma de falar delas, sem que estejam lá.”

Félix Mula vence o Novo Banco Photo (ex-Bes Photo), pelo valor pecuniário de 40 mil euros, depois de a também moçambicana Ângela Ferreira o ter ganho no ano passado. Em 2007, o certame passou a incluir artistas oriundos de Portugal, do Brasil, e de países africanos com língua oficial portuguesa. Porém, desde 2015 o Brasil ficou excluído desta lista. Nesta edição, o júri composto por Élise Atangana (França/Camarões), David Claerbout (Bélgica) e Yves Chatap (França/Camarões) justificou a sua escolha pela “singularidade estética” do trabalho de Félix Mula e a “consciência do desconhecido que, necessariamente, recai sobre o seu trabalho futuro”.