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Pare, escute e veja a história de Portugal a acontecer

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D.R.

Recriação histórica em Arcos de Valdevez “arranca” das paredes da Estação de São Bento, no Porto, um dos momentos mais importantes da história de Portugal

André Manuel Correia

Em 1141, D. Afonso Henriques e D. Afonso VII de Leão e Castela sentam-se lado a lado para assistirem a um torneio medieval que irá ficar conhecido como o Recontro de Valdevez. O episódio histórico serviu para evitar uma batalha quase certa entre as forças portucalenses e o exército castelhano. 875 anos depois, este momento fundamental para a afirmação da nacionalidade portuguesa, irá ser recriado em Arcos de Valdevez entre 8 e 10 de julho.

O Recontro de Valdevez encontra-se representado num dos painéis de azulejos que marca presença na centenária estação ferroviária de São Bento, no Porto, por onde passam todos os dias inúmeros visitantes e turistas. Alguns tiram fotografias, outros passam mais apressados. O painel, da autoria de Jorge Colaço e que ilustra o torneio medieval que teve lugar junto ao vale do Rio Vez, é um dos mais capturados pelas lentes dos mais curiosos.

No entanto, poucos conhecerão o acontecimento a que a obra faz alusão. “É preciso que as pessoas entendam que se estamos todos aqui a olhar para aquele painel, ele tem com certeza um conteúdo artístico e simbólico para a história portuguesa. Se o desfecho do Recontro de Valdevez não fosse o que foi, favorável aos portucalenses, agora estaríamos aqui a falar em galego”, disse Nuno Santos, um dos responsáveis pela iniciativa, em declarações ao Expresso.

Quarta-feira passada, os visitantes que às 17h transitavam na estação de comboios pararam, escutaram e viram a história a acontecer. A Idade Média invadiu o átrio de São Bento e durante quase meia hora o tempo passou mais devagar, num local onde o ritmo é habitualmente frenético.

Duelos entre nobres guerreiros foram vistos de perto pelos olhos atentos de Afonso Henriques e D. Afonso VII, bem como por uma multidão de curiosos. Um homem acerca-se e, num português arranhado, pergunta: “O que se está aqui a passar?”. É a história de Portugal a acontecer, ao ritmo de música e dança do séc. XII. A ‘performance’ foi apenas um aperitivo para a recriação que entre 8 e 10 de julho vai decorrer em Arcos de Valdevez, no emblemático Paço de Giela.

No dia 8 de julho, próxima sexta-feira, pelas 21h, decorre um cortejo de recrutamento no “burgo”, numa reconstituição daquilo que Afonso Henriques fez há quase 900 anos. Depois segue-se um banquete na frontaria do Paço do Concelho e um agradecimento às gentes locais, com um espetáculo de malabares de fogo, informa a organização.

No dia seguinte, 9 de julho, às 11h realiza-se uma arruada e um cortejo de tropas que anuncia o Recontro. À tarde, pelas 17h, os soldados treinam no acampamento militar situado no Paço da Giela e já depois de cair a noite, pelas 21h, as forças castelhanas chegam finalmente e aí tem início efetivamente a contenda, com um torneio de armas a cavalo e a feitura de prisioneiros. A recriação nesse dia culmina com folguedos e bailarias (música de mouros e cristãos) e novamente com um espetáculo de malabares de fogo.

No último dia, pelas 16h, as forças de Afonso Henriques competem novamente com as de Afonso VII e, posteriormente, ocorre a negociação entre os dois monarcas que permitiu aos portugueses marcar o seu território e a sua identidade. Às 19h, as tropas desfilam em retirada.

“Integrar a história num processo de futuro”

Presente nesta breve apresentação na estação de São Bento, esteve o presidente da câmara de Arcos de Valdevez, João Manuel Esteves, que à conversa com o Expresso afirmou que esta é uma forma de “integrar a história e a cultura num processo de desenvolvimento e isso, sem dúvida alguma, é essencial, porque marca a diferença em relação a outros territórios”. Na opinião do autarca, com a globalização tende-se, erradamente, a pensar que tudo é igual. “Nós temos diferenças e temos esta história que serve para alicerçar o futuro”, frisou.

“É essencial aprender com a história e com o que aconteceu naquele momento. Aquilo que Afonso Henriques pretendeu fazer no Recontro de Valdevez foi marcar a diferença de um território e conseguiu isso dialogando com um reino vizinho”, sublinhou João Manuel Esteves, para quem “é possível com as diferenças somar-nos e darmos outra dimensão às nossas ações”.

A recriação que fica a cargo da companhia de teatro Viv’Arte é uma iniciativa promovida pela Câmara Municipal de Arcos de Valdevez e conta com o apoio institucional das Infraestruturas de Portugal.