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O reino está desunido no Teatro Nacional São João

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João Tuna

A peça “Rei Lear”, uma das obras mais célebres de William Shakespeare, espelha os perigos e as consequências de um reino onde a hipocrisia e as lutas pelo poder ditam a lei. O espetáculo vai estar em palco no Teatro Nacional São João, no Porto, entre esta quinta-feira e 17 de julho

André Manuel Correia

A agitação e a incerteza pairam no ar. Um reino está desunido. Os laços de fraternidade de pouco parecem valer, subjugados pelos jogos de poder. “Nas cidades há motins, nas aldeias há discórdia”, diz alguém.

Não estamos em Londres e não falamos do Brexit. No Teatro Nacional São João (TNSJ) assiste-se a um dos ensaios da peça “Rei Lear”, escrita por William Shakespeare e que agora é de novo trazida aos palcos numa encenação inédita do Rogério de Carvalho. Este espetáculo, onde a falta de escrúpulos e a ambição imperam enquanto a ética e a verdade morrem de fome, estreia esta quinta-feira e estará em apresentação na emblemática sala portuense até 17 de julho.

“Rei Lear” apresenta-nos um monarca – interpretado por Jorge Pinto – que decide abandonar as suas funções e dividir o reino em três partes, para deixá-lo à regência das filhas. Num palco com o fundo vermelho conferido por duas enormes cortinas, que acentuam a componente trágica, os afetos assumem-se como bens transacionáveis e juramentos de amor vazios em relação ao pai constituem a garantia de mais território e soberania. Apenas a filha mais nova, Cordélia, se mantém fiel a si própria e afirma: “Amo vossa majestade/ Conforme o meu dever. Nem mais, nem menos”.

O enredo está envolto em hipocrisia e traição. O rei enfrenta a sua própria loucura e caminha cruelmente no sentido da humanização quando começa a sofrer todas as consequências trágicas das suas decisões. É, acima de tudo, o percurso ou a fuga de um velho homem, para quem o poder absoluto sempre fez parte da sua natureza, rumo a um crescente sentimento de impotência. Como companheiro tem o Bobo, personagem sagaz, de língua afiada e com comentários acertados, embora nem sempre pertinentes. “A verdade é uma vadia corrida para o canil”, afirma.

A peça, que assinala os 400 anos da morte de Shakespeare, mostra-nos como os temas são intemporais e que, por vezes, a história anda em círculos, repete-se e não aprende consigo mesma. No entanto, em “Rei Lear” não vemos apenas um reino e uma família dividida. “A peça dá-nos a impressão de uma abundância de vida magnificamente concentrada: mostra-nos a gama de criação empática. Dir-se-ia que não nos encontramos perante homens e mulheres, mas perante toda a Humanidade”, considera o encenador Rogério de Carvalho, citado num comunicado do TNSJ.

Ligações e paralelismos com a atualidade

Após um dos ensaios, o ator Jorge Pinto esteve à conversa com os jornalistas e sublinhou a atualidade de uma peça que conhece desde os 16 anos. “Não se trata de arqueologia teatral”, frisou. Para o homem que neste espetáculo dá corpo ao Rei Lear, as loucuras constroem-se e confessa, em jeito de brincadeira, que a sua lhe deu “muito trabalho para construir”.

Relativamente ao personagem, considera que “Lear entende o poder como uma forma natural. Ele entende que é naturalmente essa vontade absoluta. É isso que ele descobre que não, e aceita, no fim da vida, que nada é tão importante como tudo. Quando tinha tudo percebe que, afinal, não tinha nada.”

Jorge Pinto estabeleceu igualmente um paralelismo entre a peça e a forma como Portugal conseguiu a sua independência. “A nossa própria história mostra a forma como um filho foi ter com a mãe e disse: ‘Isto agora é meu.’ E é um rapaz que nós respeitamos muito”, referiu-se assim o ator a respeito da disputa que colocou D. Afonso Henriques contra Dona Teresa de Leão.

Também em declarações à imprensa, a atriz Emília Silvestre, que neste espetáculo desempenha a função de assistente de encenação, destacou a frescura e a atualidade da peça. “Continuamos a valorizar mais a bajulação e as palavras bonitas, em detrimento da verdade, da fidelidade e da dignidade das pessoas”.

Na opinião de Emília Silvestre, “Rei Lear” adquire ainda maior significado neste momento, em que o Brexit é uma das expressões utilizadas e a indefinição abate-se sobre a Europa. “Percebemos o perigo das decisões insensatas de quem está à frente desta nossa Europa e ao que está a levar. A história da Humanidade é impressionante, parece que nunca aprendemos”. Para a assistente de encenação, isso deve-se a “um certo exercício de poder afastado” das pessoas. “Isso é muito grave. Temos esta Europa a ficar completamente desmantelada, como fica o reino do Lear”, conclui.

O espetáculo é uma coprodução entre a Ensemble – Sociedade de Atores, o Teatro Municipal de Bragança e o TNSJ. As récitas são às quartas-feiras pelas 19h, de quinta a sábado às 21h, e ao domingo à tarde pelas 16h.

Este domingo, 3 de julho, enquanto o público mais velho assiste à peça, as crianças entre os seis e os 12 anos são convidadas a aprender um pouco mais sobre William Shakespeare. A partir das 15h30, Maria de La Salette Moreira orienta a Oficina Criativa, “um espaço de aprendizagem e desenvolvimento onde o jogo assume um especial destaque, e que toma por base o espetáculo em cena”, promove o TNSJ na nota informativa.

“Rei Lear” também em livro e o fechar de um ciclo dedicado a Shakespeare

No dia 9 de julho, será lançado no Salão Nobre do Teatro Nacional São João o livro “Rei Lear”, uma edição conjunta da Húmus e do TNSJ. A sessão, com entrada gratuita, decorre às 18h e conta com a apresentação de David Antunes, professor na Escola Superior de Teatro e Cinema, Fernando Villas-Boas e o próprio Jorge Pinto.

Nesse mesmo dia, a poetisa e docente universitária Ana Luísa Amaral encerra o seminário “Shakespeare 400” com a leitura atenta da obra “A Tempestade”. A iniciativa teve início em janeiro e realizou-se uma vez por mês, sempre ao sábado, para se debruçar sobre várias peças do mais influente dramaturgo do mundo.

“A Tempestade”, que decorre numa ilha remota, é uma comédia romântica e é considerada, por muitos críticos, como a última peça escrita por Shakespeare.