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Jazz e Serralves: as bodas de prata de um casamento feliz

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“Jazz no Parque” completa 25 anos e para assinalar a efeméride a programação inclui quatro concertos distribuídos pelos próximos três domingos de julho

André Manuel Correia

Longe vai o ano de 1923, quando Carlos Alberto Cabral, conde de Vizela, herdou a Quinta de Lordelo e iniciou um processo de ampliação dos jardins da propriedade que, mais tarde, viria a tornar-se no Parque de Serralves. Por essa mesma altura, do outro lado do Atlântico, um estilo musical nascido nas comunidades afro-americanas de Nova Orleães, Chicago e Nova Iorque conquistava com a sua irreverência um espaço único na história da música ocidental. Nos Estados Unidos, a cultura tornava-se mais democrática e por cá a época de ouro para a aristocracia há muito estava em declínio.

Em 1986, o Estado adquire o Parque, caracterizado por um classicismo moderno e inspirado nos jardins franceses do séc. XVI e XVII, que passou assim a ser de todos. Abriu-se a estéticas menos convencionais e mais insubordinadas, como é disso exemplo o jazz. Em 2016, um casamento feliz entre o Parque de Serralves e este estilo desconcertante comemora as suas bodas de prata. A festa inicia-se no próximo domingo, 3 de julho, e prolonga-se nos dois seguintes, com quatro concertos no total.

Em entrevista ao Expresso, o programador desde 2014, Rui Eduardo Paes, sublinha a circunstância de ser este um dos ciclos “mais duradouros” no território nacional. Desde que se tornou o responsável pela orientação artística do “Jazz no Parque”, tem procurado que “se diferencie do normal circuito de digressões de grupos portugueses e estrangeiros, para encomendar espetáculos pensados especificamente para esta iniciativa”.

Já neste domingo sobe ao palco o trio brasileiro composto pelo saxofonista Ivo Perelman, Marcio Mattos no contrabaixo e António “Panda” Gianfratti na bateria. Esta é uma estreia absoluta de um grupo que se junta a convite do “Jazz no Parque”.

Ivo Perelman mudou-se para os Estados Unidos no início dos anos 1980, país onde gravou álbuns que o tornaram numa das referências maiores do saxofone tenor contemporâneo. Marcio Mattos estabeleceu-se no Reino Unido há quarenta anos e conquistou um lugar de destaque na cena londrina da improvisação livre. Por sua vez, António "Panda” Gianfratti manteve-se em São Paulo e nessa cidade tornou-se no patrono da música criativa, refere a programação em comunicado. “O que vai ouvir-se no Ténis do Parque de Serralves está totalmente em aberto, prevendo-se apenas que surgirá dos legados combinados de John Coltrane, Albert Ayler, John Stevens e Derek Bailey”, lê-se também no documento.

No domingo seguinte, a 10 de julho, chega um dos mais importantes pianistas de jazz em Espanha. Nani García. Vem interpretar composições que o artista dedicou ao grande ecrã. A música também pode ser um grande filme e o projeto musical “Cinematojazzia” vai de encontro a uma das matrizes da programação que passa por conferir uma dimensão cinematográfica ao jazz. Trata de “cinema para os ouvidos, com improvisação jazzística”, destaca a organização.

Além do acompanhamento habitual do contrabaixista Simon García e do baterista Miguel Cabana, este concerto conta ainda com a presença de um quarteto de cordas composto por Eduardo Coma, Lázaro Wilman, Raymond Arteaga e Luis Enrique Caballero.

A 17 de julho, último dia da programação, há jazz em dose dupla. A iniciativa faz subir ao palco uma nova formação de jovens músicos portugueses intitulada “Slow is Possible, que apresentará um projeto especialmente concebido para Serralves (“Hunting Weather”, a partir de um poema de Charles Bukowski). O septeto composto por João Clemente, Bruno Figueira, Patrick Ferreira, André Pontífice, Nuno Santos Dias, Ricardo Sousa e Duarte Fonseca apresenta “um jazz sem tiques, truques ou vícios, que incorpora elementos clássicos, do rock e da música exploratória, sustentado sobre uma rítmica intensa e com melodias que ficam no ouvido”, lê-se na nota informativa.

No mesmo dia há lugar para uma atuação mais elétrica do “consagrado e internacionalmente aplaudido” “Red Trio”, como define a organização. Para este concerto em Serralves, a formação composta pelo pianista Rodrigo Pinheiro, o baixista Hernâni Faustino e o baterista Gabriel Ferrandini alia-se ao guitarrista finlandês Raoul Bjorkenheim, conhecido pelo cruzamento que faz entre o jazz e o rock.

“Algo de especial” se está a passar no jazz em Portugal

Questionado sobre o panorama do jazz em Portugal, o responsável afirma que “há cada vez um maior reconhecimento” daquilo que é feito pelos artistas nacionais. “Os próprios músicos internacionais se interessam por isso, dado que já percebem – assim como os programadores de outros países – que algo de especial se está a passar no nosso país”, considera

Os espetáculos têm lugar no complexo de ténis do Parque do Serralves, sempre às 18h. Na edição de 2015, estiveram presentes em cada um dos três concertos do ciclo cerca de 600 pessoas, assegura Rui Eduardo Paes.

“É um bom número e que nos satisfaz”, apesar de manifestar a vontade de que a iniciativa chegue ainda a mais gente. “Durante 25 anos formou-se um público fiel. Esse público foi voltando e importa que continue a vir ao ‘Jazz no Parque’. Está agora a procurar-se que, para além desse público, haja um novo que surja e para isso procura-se incluir na programação coisas novas e diferentes que se estejam a fazer lá fora e cá dentro”, explica.