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Sexo, Califórnia, velhice e morte

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RED HOT 2016 Flea, Anthony Kiedis, Josh Klinghoffer e Chad Smith

STEVE KEROS

Há muito tempo que nos habituámos a ter os Red Hot Chili Peppers por perto — é reconfortante saber que ainda há grandes bandas de rock que atraem multidões e esgotam festivais. Agora, cinquentões mais ou menos respeitáveis, eles voltam com o álbum “The Getaway” para mostrar que há vida sem o eterno virtuoso da guitarra John Frusciante, mas também que até os punks sabem envelhecer (e cantar sobre isso)

Algures no reino do YouTube circula um comentário que graceja sobre as “coisas que sabes que vais encontrar num álbum dos Red Hot Chili Peppers: 1) Uma linha de baixo incrível; 2) uma canção funky; 3) Rimas; 4) A palavra Califórnia”. E quando a 5 de maio 'Dark Necessities', a primeira canção do álbum “The Getaway”, foi revelada, a MTV chegou a publicar um artigo intitulado “O novo single dos RHCP tem exatamente zero referências à Califórnia. O que se passa”?

O álbum foi lançado esta sexta-feira, dia 17 (edição Warner), e os fãs dos Chili Peppers versão vintage ficaram descansados (sim, Anthony Kiedis continua a cantar sobre a Califórnia e a energia do baixo de Flea continua a não desiludir), mas é preciso dizer que este “The Getaway também trouxe consigo algumas surpresas. É que os agora cinquentões Chili Peppers sabem contrariar os clichés a que são associados e não têm medo de cantar sobre o tempo que passa e que é soberano, a perda e a melancolia (ou de convidar Elton John para tocar piano em 'Sick Love'. Porque não?).

Claro que nem sempre é fácil, ou seguro, concluir sobre o que é que Anthony, mestre do nonsense no que toca à sua poesia, nos está a querer contar (se é que está mesmo a contar alguma coisa quando em 'Go Robot', por exemplo, parece falar da sensação de ter relações sexuais com um robô). Quando em 2011 os Chili Peppers lançavam o seu penúltimo álbum e o primeiro com o guitarrista Josh Klinghoffer, “I'm with You”, a “Pitchfork” escrevia que continuava "a luta continuamente fútil para perceber de que raio está ele a falar".

O próprio Kiedis foi plantando algumas pistas durante a promoção de “The Getaway”, deixando claro que as referências à rapariga que é “demasiado nova para ser sua mulher” e que tem “metade da sua idade” (em 'Dreams of a Samurai' e 'The Longest Wave', respetivamente) se aplicam mesmo a Helena Vestergaard, a modelo com quem começou a namorar em 2013, quando esta tinha 19 anos. “Liricamente, e embora isto seja embaraçoso, uma relação de dois anos que acabou como uma bomba nuclear fez-me sentir disponível no universo emocional para escrever. Apesar de a relação ter sido um desastre, sinto que ganhei algo com isso, que foram metade das canções deste álbum.”

Na mesma entrevista à BBC Radio, o frontman indiscutível dos Chili Peppers revelava que se as suas letras parecem aleatórias, talvez isso aconteça precisamente porque ele quer que seja assim. “Não são histórias literais inteiras, porque isso me parece algo aborrecido nesta altura, escrever sobre algo que é previsível e com que toda a gente se identifica. Prefiro disfarçá-lo na cor e na forma, e fazer com que seja mais aberto a interpretações. Isso inspira-me mais como escritor do que ser abertamente literal.”

steve keros

Os momentos mais interessantes para quem quer perceber melhor um Kiedis que voltou com uma dose renovada de introspeção não ficam por aí. A sensação refrescante de chegar à parte final do álbum e receber os dois presentes que são 'Encore' e 'The Hunter' significa encontrar uns Chili Peppers maduros que refletem sobre o passado (na primeira Kiedis revela que gosta de “abraçar as pequenas coisas da vida” com uma guitarra agradavelmente coesa a acompanhá-lo, e na segunda, que soa como uma homenagem ao seu pai, canta depois de um piano promissor: “Ainda gosto de pensar que sou novo/ O tempo leva a sua avante).

Se a nossa ambição fosse construir um guia para ouvir o novo álbum dos californianos, diríamos que antes de sair da onda de nostalgia será obrigatório passar ainda pelas sugestivas referências de 'Feasting on the Flowers', que na internet há quem aposte ser uma nova homenagem a Hillel Slovak, o primeiro guitarrista da banda, que morreu de overdose, em 1988, com apenas 26 anos de idade. Depois do hino que foi 'Knock me Down' em 1989, Hillel parece voltar a ser recordado (“cantas com mais força quando recordas a canção do teu amigo”): “26 é um número demasiado pequeno para os teus anos dourados, sentencia um Anthony melancólico.

Para quem quer reconhecer os Chili Peppers, talvez a melhor estratégia seja ouvir o álbum por ordem desde o início — 'The Getaway' tem as desejadas referências à Califórnia e uma segunda voz de Josh alinhada com o que o anterior (e nunca esquecido) guitarrista, John Frusciante, nos habitou a ouvir; 'Dark Necessities' traz o familiar e necessário funk do baixo de Flea, com a mesma energia de sempre, e soma-lhe um refrão que entra no ouvido e uma vontade irresistível de dançar.

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Chegamos a 'We Turn Red' com uma bateria em crescendo de Chad Smith para encontrar algumas das referências mais políticas que os Chili Peppers já fizeram (“Permissão para bombas sem coração/ México, és o meu vizinho, terra dos mais corajosos/ Dá-me toda a doença e o cansaço das raças que admiramos). E pouco depois, com 'Goodbye Angels', os californianos conseguem a proeza de nos fazer recordar em quatro minutos e meio todas as razões pelas quais tivemos saudades deles — o refrão forte em contraste com uma segunda voz etérea, o baixo característico a preparar-nos para mais um instrumental irresistível.

Este é, como tinha de ser, um álbum diferente — como o próprio Kiedis diz, mais do que em “I'm With You”, com “The Getaway” a banda encontrou o seu novo equilíbrio e o entrosamento necessário com Josh, contra todas as críticas que os fãs mais agarrados ao virtuoso John Frusciante teimam em apontar ao novo guitarrista. O som também tinha de mudar, uma vez que este é o primeiro álbum desde 1989, ano de “Mother's Milk, em que a banda prescinde do toque de Rick Rubin e entrega a produção do disco a Danger Mouse e Nigel Godrich (sim, aquele nome que costuma aparecer associado aos Radiohead).

steve keros

Os críticos não conseguem decidir se a missão dos Chili Peppers foi bem sucedida — dependendo de se o objetivo era dar um presente aos fãs que os seguem desde que eram uma banda nova e irreverente dos anos 1980 ou encontrar um som maduro em que as melodias da guitarra de Josh soem a coesão. Para a “Rolling Stone”, é uma “tentativa corajosa de envelhecer de forma graciosa” que “nem sempre é perfeita, mas é sempre atraente”. A “Consequence of Sound” chama a “The Getaway” uma “tentativa refrescante de reinvenção” e elogia: “Podem amá-los ou odiá-los, mas toda a gente reconhece uma canção dos Chili Peppers quando a ouve.”

O que se pode então dizer de uma banda que mantém as rimas aleatórias sobre sexo e a Califórnia e as mistura com referências à morte e à velhice, de uma banda que soma sucessos desde 1983 e arrisca agora um novo guitarrista (sendo que muitos fãs parecem ter dificuldades em seguir em frente depois de Frusciante)? No fim do dia, diz Anthony, tem tudo a ver com “escrever boas canções”, não necessariamente rápidas ou lentas, mas mais ou menos maduras. “É como química. Tens esta série de elementos muito interessantes, mas precisas de os conjugar para que tudo se torne o que deve ser. Deve ser um álbum que é, indiscutivelmente, dos Red Hot Chili Peppers.

A “Blitz” deste mês tem os Red Hot Chili Peppers na capa (inclui uma entrevista exclusiva com Flea) e está à venda desde esta sexta-feira. Veja AQUI