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Jamie Cullum. “A Grã-Bretanha devia ser um país de compaixão e inclusão”

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É uma das estrelas do festival Cascais Groove, que começou ontem no Parque Palmela e se estende até amanhã. Ao Expresso, o britânico — que toca no dia 26 — conta o que esperar do seu concerto

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Aos 36 anos, Jamie Cullum é useiro e vezeiro dos palcos nacionais, onde atuou por numerosas vezes e, garante-nos mais uma vez, se sente sempre bem acolhido.

Apanhámo-lo numa terça de manhã, a bordo de um táxi e a caminho dos estúdios onde grava o programa de rádio de jazz mais escutado na Europa.

Onde o encontramos nesta manhã?
No banco de trás de um táxi, a caminho do estúdio. Tenho feito música para filmes e para um programa de televisão, que deverá estrear no final deste ano ou no começo do próximo. Ao mesmo tempo, estou a trabalhar no meu próprio disco, que será composto por canções originais.

Tem alguma ideia de quando o disco será lançado?
Quem me dera saber! E o meu manager ainda mais. Vou continuar a fazer música até sentir que já tenho o que preciso; estou a tentar mudar o processo. O mundo recebe música nova a toda a hora — eu quero que a minha tenha a intensidade necessária.

Que espetáculo trará ao festival Cascais Groove?
Vai ser um reflexo de tudo o que venho fazendo nos últimos 12 anos. Vou tocar algumas coisas novas e muitas canções que já não apresento há muito tempo. Mas também os grandes favoritos, aqueles que as pessoas conhecem.

Escolhe os alinhamentos com muita antecedência?
Nunca! Por isso é que temos de ter tantas músicas ensaiadas, porque nem a banda sabe o que eu vou tocar. Nunca têm ideia do que eu vou fazer, o que torna as coisas mais invulgares do que aqueles concertos em que toda a gente já sabe o que se vai passar.

Tem um projeto com os seus músicos chamado Song Society, no qual se dedica a construir versões no espaço de uma hora. Como funciona?
Como deverão saber, sempre gostei de tocar as canções dos outros. Os músicos que me acompanham têm interesse em conhecer esse processo, e é curioso: [percebi que] estou sempre a aprender, ao aprender a tocar as canções dos outros. Sou um estudante, e quanto mais estudamos, melhores ficamos como songwriters. Por vezes pego em canções de que não gosto, ou que não percebo, como êxitos do top 40, Justin Bieber e coisas assim. E depois temos uma hora. Ou seja, ouvimos a canção, aprendemos a tocá-la e temos de gravá-la antes que a hora chegue ao fim, para não ficar demasiado polida ou perfeita. Também filmamos algumas destas sessões e os vídeos [disponíveis no YouTube] têm-se tornado muito populares junto dos meus fãs e até dos que não são fãs. E também dos artistas cujas canções tocamos.

Qual a última versão que fizeram?
A última foi do Mike Posner, ‘I Took a Pill in Ibiza’. E conseguimos fazê-la em 20 minutos! Nem precisámos de gastar a hora toda.

Tem também apresentado um programa de rádio dedicado ao jazz, na BBC 2. Como se sente nesse papel?
O programa já tem seis anos. Disseram-me que eu tinha qualquer coisa de radialista, porque estava sempre a elogiar a música dos outros, e desafiaram-me: porque é que não experimentas? Seis anos depois, o programa continua. Parece-me uma parte natural da minha personalidade: partilhar música dessa forma.

Tem sido um desafio preparar os alinhamentos ou escolher os convidados? Por lá já passaram Lars Ulrich, dos Metallica, ou Paul McCartney...
O que eu adoro nos programas de rádio semanais é que o programa tem de ser feito. Por exemplo, hoje vou gravá-lo, é por isso que estou a caminho do estúdio. E os meus convidados serão os Ben Folds Five, porque o Ben está [em Londres] e eu adoro a sua música. As coisas acontecem, geralmente, de forma muito improvisada.

No seu último álbum, “Interlude”, convidou Laura Mvula e Gregory Porter: são cantores que admira?
Sem dúvida! E a sua participação no álbum foi um reflexo direto do programa de rádio, onde comecei por passar os seus discos.

Fará 37 anos em agosto. Acha que, pela sua postura jovial, continuam a encará-lo como um miúdo?
Penso que isso acontece, sim. Mas, quando temos filhos, há uma mudança imediata. Tenho impressão que as pessoas ainda pensam que eu estou na casa dos 20, mas, por ter filhos, já me sinto velho e digo coisas de velho. Regra geral, já me sinto adulto.

Dá por si a dizer as coisas que os seus pais lhe diziam?
Sim, e reviro os olhos e penso: não acredito que estou a dizer isto! [risos]

Já veio a Portugal numerosas vezes. Quais as suas melhores recordações do país, fora dos palcos?
Sem dúvida a comida, as praias, o surf. E a coisa mais importante para mim, em Portugal, que são as pessoas. Na banda até temos uma piada sobre Portugal, porque certa vez fizemos uma digressão pelo Reino Unido, com as datas todas esgotadas, e toda a gente muito amorosa e educada. Quando acabámos essa digressão, saímos diretamente de Manchester para Portugal, e quando entrámos em palco, o barulho que o público fez foi muito maior do que em todos os concertos no Reino Unido. Para um músico, ter uma receção assim é imensamente compensador! Completamente incrível.

Qual a sua posição sobre o referendo do Brexit [cujo resultado já será conhecido quando esta revista chegar às bancas]?
Sou um europeísta apaixonado e penso que será uma desgraça se decidirmos sair da Europa. A única coisa que posso dizer é que penso que não duraria muito. Talvez uns três ou quatro anos, ao cabo dos quais provavelmente voltávamos. A Grã-Bretanha devia ser um país de compaixão e inclusão, abrindo as suas asas e fazendo com que a Europa seja boa para nós e nós bons para ela. Ficarei arrasado se o ‘não’ ganhar.

Há dois anos, participou na versão que a BBC organizou de ‘God Only Knows’, dos Beach Boys. Aproveitou para ver Brian Wilson este ano, recordando “Pet Sounds”?
Infelizmente não, pois estava a dar um concerto, mas já tive oportunidade de tocar com ele, uma vez, e conheci-o. Foi como conhecer Jesus Cristo! [risos]