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Biógrafo do Rio

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Ruy Castro gosta de investigar as vidas dos outros, em livros que são sempre retratos da sua cidade: o Rio de Janeiro

Ruy Castro, um carioca nascido em Minas Gerais, esteve em Lisboa para lançar o seu livro sobre a ascensão e queda da Bossa Nova

Ruy Castro, um carioca nascido em Minas Gerais, esteve em Lisboa para lançar o seu livro sobre a ascensão e queda da Bossa Nova

antónio pedro ferreira

O ano é 1988. Ruy Castro vive e trabalha em São Paulo, mas desloca-se ao Rio de Janeiro para entrevistar Tom Jobim, o mítico António Carlos Jobim, um dos pais da Bossa Nova, o estilo musical que projetara o Brasil internacionalmente nos anos 60 mas que entretanto caíra em desgraça. “Nessa altura, a Bossa Nova estava desaparecida, esquecida, abandonada, sepultada. Ninguém queria saber, era um estigma, um anátema, mesmo as pessoas que tinham sido da Bossa Nova diziam que não eram, já não se identificavam.”

A entrevista seria publicada na edição brasileira da revista “Playboy”, o que implicava fazer perguntas de carácter mais íntimo, “sobre as namoradas e coisas assim”. Habituado a este tipo de trabalho, o repórter já tinha em vista uma conversa longa: “Eu levava umas 300 ou 400 perguntas preparadas, mas sabia que a maneira de atingir melhores resultados é criar um clima, um ambiente de cordialidade, fazer com que o entrevistado se esqueça de que está a dar uma entrevista.” Para isso, o truque é começar por 30 ou 40 perguntas sobre um tema da sua preferência, mesmo se depois esse começo acabe extirpado do texto final. “Como à minha frente estava o Tom Jobim, fiz-lhe perguntas sobre a Bossa Nova, claro.”

Falaram com entusiasmo durante “uma fita e meia” (na época ainda não havia gravadores digitais), mas no final da sessão o jornalista estava convencido de que aquelas palavras nunca veriam a luz do dia. Foram transcritas pelas secretárias da “Playboy”, mas, previsivelmente, não constaram da versão publicada. “Foi aí que eu comecei a pensar naquilo tudo. Eu entrevistara o Tom pela primeira vez em 1968, quando estava a começar, com uns 20 anos, e mantive contacto com toda aquela gente que fez a Bossa Nova: o Vinicius de Moraes; a Nara Leão, cujo apartamento se tornou lendário; o Ronaldo Bôscoli, ao lado de quem trabalhei durante dois anos na TV Globo, tantos outros. Principalmente, eu conhecia a geografia onde se tinha passado aquela história. Todas as esquinas dos bairros de Ipanema e Copacabana.” Na sua cabeça, as peças de um puzzle imenso começavam a encaixar-se umas nas outras. Havia ali um livro à espera de ser feito. Assim que teve luz verde de um editor (Luiz Schwarcz, da Companhia das Letras), dedicou-se a tempo inteiro ao projeto e cerca de três anos depois surgia nos escaparates “Chega de Saudade — A História e as Histórias da Bossa Nova”, a biografia de um movimento musical que acaba de conhecer edição portuguesa, com chancela da Tinta da China.

“Muita coisa daquela fita e meia acabou entrando no livro”, recorda Ruy Castro, de passagem por Lisboa para apresentar a obra. Depois da conversa com Tom, voltou para casa, vasculhou estantes e gavetas, encontrando muitas pastas com recortes de imprensa e anotações sobre o assunto, feitas na década de 60. “Acontece-me muito. Reúno materiais durante anos a fio, sem imaginar que um dia lhes darei uso.” Mais tarde, nas suas três biografias, sobre Nelson Rodrigues (“O Anjo Pornográfico”, 1992), Garrincha (“Estrela Solitária”, 1995) e Carmen Miranda (“Carmen”, 2005), voltou a valer-se do seu espólio particular. “Chega de Saudade”, o seu primeiro livro, foi mais difícil, assegura, porque nunca fizera um trabalho de tão grande fôlego e porque “não havia modelos no Brasil para este tipo de coisa”. Até àquele momento, todas as obras sobre música popular brasileira eram de cariz académico: análises das letras, ensaios musicológicos, textos teóricos, “uma bibliografia muito aborrecida”. Pelo contrário, o que Castro pretendia, sem abdicar do rigor dos factos, era contar uma história que fosse apelativa e fizesse jus à espantosa energia que a Bossa Nova convocou. “Acabou sendo mais difícil do que fazer uma biografia normal, porque tinha de conjugar os percursos de uma quantidade enorme de pessoas, todas elas fazendo coisas importantes ao mesmo tempo. Havia vários grupos, várias turmas e turminhas, acontecimentos paralelos. Era preciso dar ordem a tudo isso, de forma a que fizesse sentido. Para ser sincero, houve momentos em que achei ser impossível, mas lá consegui. Lembro-me que foi uma composição difícil, quase um quebra-cabeças chinês.”

No meio de tantas personagens, teria de haver uma que servisse de fio condutor. Inicialmente, Castro pensou em Tom Jobim. “Ele era uma presença esmagadora naquela história toda, quer pela quantidade de canções que compôs quer pelo impacto da sua ida para os EUA. Também podia ser o Vinicius, o cara mais velho, mais experiente. Mas assim que comecei a investigação, percebi que teria de ser o João Gilberto.” O mais secreto e idiossincrático dos músicos brasileiros, de temperamento difícil e tendência para a reclusão. À sua volta, havia uma espécie de conspiração de silêncio, “como se ele tivesse feito coisas meio censuráveis no passado”, quando na realidade o que havia era um grande desconhecimento da sua trajetória de vida.

Escavando a história desde o princípio (a infância em Juazeiro, na Bahia) até aos momentos de glória, passando pelos essenciais anos de recolhimento antes da explosão criativa (o período de Porto Alegre, no início dos anos 50), a figura de João Gilberto emergiu como o arauto, ao mesmo tempo complexo e contraditório, de uma nova forma de tocar e cantar. “Nessa investigação, eu tive a sorte de ainda encontrar muita gente viva. Falava com uma pessoa e ela me levava a outra, e a outra, e a outra. Se fosse hoje, seria muito mais difícil, porque já devem ter morrido uns dois terços dessas fontes que eu usei.”

Aliás, Ruy Castro apercebeu-se dessa dificuldade recentemente, ao pesquisar a mesma época, os anos 50 e 60, para um livro gémeo do que dedicou à Bossa Nova: “A Noite do Meu Bem — A História e as Histórias do Samba-Canção”, publicado em 2015. “É uma espécie de contraponto, em que se retrata a mesma época, mas com outras pessoas, de outra classe social. A Bossa Nova tinha a ver com a juventude daquele tempo. O samba-canção tocava a esfera do poder, era ouvido nas boates de Copacabana, um ambiente de luxo e sofisticação.” Um quarto de século depois da primeira versão de “Chega de Saudade”, durante o qual aprendeu fazendo, agora já dominava por completo a técnica da investigação e da escrita, mas o problema foi a falta de testemunhos diretos, “porque a maior parte das pessoas que viveram aquela vida noturna já cá não estavam”.

Nos vários tipos de livro que faz, há um denominador comum: o Rio de Janeiro, cidade não só maravilhosa como inesgotável. “É meu único assunto. As personagens que investigo, ou que invento (na ficção), só moram lá.” Para não fugir à regra, o próximo livro será sobre o Rio, claro, mas nos anos 20 do século passado. “Quero fazer um retrato abrangente da cidade naquela época: a música, a literatura, a política, a arquitetura, o futebol, os comportamentos sociais, o sexo, tudo, tudo, tudo.”

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 18 junho 2016