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A arte de pôr tudo em causa

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Nathalie Chazeaux (Isabelle Huppert), uma professora de filosofia que sabe estar à altura do que lhe acontece (e não é pouco...) em “O Que Está Por Vir”

A francesa Mia Hansen-Løve assina por fim um filme de maturidade que a maior intérprete do seu tempo se encarrega de levar aos ombros. Entrevista com Isabelle Huppert

Há um momento de “O Que Está Por Vir”, quinta longa-metragem — e de longe a melhor — de Mia Hansen-Løve (estreou-se em fevereiro, no Festival de Berlim, onde a realizadora venceu um Urso de Prata para Melhor Realização), em que Nathalie Chazeaux, experiente professora de filosofia, confessa sentir-se realizada a nível intelectual e que isso lhe basta para ser feliz. Como se nos dissesse: que se lixe o resto, as agruras e as intrigas, as coisas pequenas da vida. Ela acredita nela própria e com uma tal convicção que não temos outro remédio senão ficarmos convencidos. Não admira: Nathalie é Isabelle Huppert, grande atriz que ainda há pouco andou nestas páginas, durante Cannes (a propósito do excelente “Elle”, de Paul Verhoeven). E contudo, para Nathalie, felicidade é coisa que não lhe tem batido à porta. A mãe, mulher espirituosa e secreta (Edith Scob, sublime como é hábito) morre deixando-lhe um gato para cuidar (valha-lhe o consolo); o trabalho que ela mantinha desde sempre numa editora chega ao fim; e como se não bastasse, o marido, também professor da mesma área, e que há muito a engana em segredo, decide finalmente abandoná-la e assumir a amante. Pior do que a perda do marido, lá se vai metade das estantes de livros que lhe perfumavam a casa...

À conversa com Isabelle em Berlim, e logo sobre um filme que sentimos estar-lhe próximo, procurámos saber mais de Nathalie, dessa personagem com uma maturidade e uma experiência de vida que Mia Hansen-Løve, de apenas 35 anos, não pode ainda ter. Parece em tudo uma personagem escrita para Huppert (na verdade, Mia influenciou-se nos seus pais, ambos professores) e que só Huppert poderia preencher de segredos e nuances. Estará Nathalie a ser sincera com quem mais conta: ela própria? “Não acho que ela esteja a iludir-se para ficar mais forte. Perdeu a mãe, o emprego, o marido mas está ciente dos seus horizontes. Perdeu a confiança em quase todos mas, ao mesmo tempo, solidificou outras coisas, que são imateriais — e eu acho que é aqui que a Mia quer chegar, às grandezas da personalidade. Acho que a Nathalie é uma mulher sem expectativas. Já não cai nesse engodo. Conhece bem o mundo. Tem os pés bem assentes na Terra.”

Huppert conheceu Mia Hansen-Løve há muito tempo, já lá vão 16 anos, quando esta fez de sua filha em “Destinos Sentimentais”, um filme de época, passado no fim do século XIX e baseado no romance de Jacques Chardonne, dirigido por Olivier Assayas. “E tanto tempo depois, quem diria que a Mia se tornaria minha ‘mãe’”, diz Huppert com aquele jeito de quem põe aspas na palavra, “porque um realizador, ou neste caso uma realizadora, é sempre um bocadinho ‘mãe’ para a atriz que dirige, sem que importe aqui a idade que as separa.” A idade, de resto, foi um dos aspetos que mais seduziram Huppert quando leu o guião porque, para a atriz, nenhuma geração está fixada àquilo que alegadamente deveria representar, “este filme está cheio de novos-velhos, de velhos-novos, de velhos que já não têm idade, escapando todos, cada um à sua maneira, às caricaturas que o tempo impõe. Por exemplo, naqueles combates intelectuais que Nathalie a dada altura trava com os jovens contestatários de vinte anos, e que nos recordam as comunidades de Maio de 68, notamos que ela é mais jovem de espírito do que os seus alunos e rivais de debate. Tem uma curiosidade mais aguçada do que a deles.”

Estará aqui, na curiosidade, o segredo de “L’Avenir”/“O Que Está Por Vir”, título francamente esperançoso e logo em torno de uma mulher que tinha tudo para se deixar ir abaixo? É provável. Huppert, de resto — e quem conhece o seu trabalho não o pode negar — é um espelho vivo desta personagem. Uma intérprete enorme que, desde esse “Violette Nozière”, de Chabrol (o seu primeiro e verdadeiro grande papel de cinema), não tem parado de pôr tudo em causa e de se pôr em causa, sem amolecer, sem estagnar — segundo a recente entrevista que deu aos “Cahiers du Cinéma” (que lhe dedicaram a capa deste mês de junho) está de novo a rodar com Michael Haneke, depois de ter acabado de entrar no filme de um cineasta tão nos antípodas do austríaco como o coreano Hong Sang Soo.

“No plateau, gosto de ser dirigida, gosto de um realizador que me mostra que tem o poder e a Mia provou-me ser capaz disso, tinha bem definido na cabeça o que queria da personagem. Acho que para a Mia a Nathalie tem qualquer coisa de misterioso, uma espécie de carapaça que a seduz mas que ela não é ainda capaz de sentir e de compreender. Procurei ajudá-la. Instintivamente, acabei por dar bastante de mim à personagem. Acentuava por vezes o seu lado mais negro e obscuro. A Mia vinha então recordar-me que a Nathalie era alguém que jamais respondia impulsivamente: era uma pessoa mais aérea, mais volátil e otimista, e foi assim que a personagem evoluiu.”

De Nathalie, Huppert destaca outra coisa: a coerência. Uma qualidade que a personagem da mãe dela, que no filme se chama Yvette, não tem de todo: Yvette é, de resto, completamente aluada, papel que assenta como uma luva à outra grande atriz desta obra. “A Edith Scob também é um pouco assim na vida, sabe? Nós já tínhamos trabalhado juntas, num filme de Raoul Ruiz [“Comédie de l’innocence”]. Ela tem esta poesia, esta fantasia dentro dela. Nunca a acentua nas suas interpretações. Representa no filme a geração mais velha daquela história e é a personagem mais destravada, a mais naturalmente excêntrica. Definitivamente, aquela relação mãe-filha não é uma relação igual a tantas outras. E também não é uma relação de ficção, uma coisa a fingir. É algo que sentimos ser palpável e verdadeiro, que acomoda a realidade, que sentimos de algum modo fazer parte da vida.”

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 18 junho 2016