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Ronaldo e a sombra de Rei Lear

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RONALDO. Tal como no Rei lear, à volta de Ronaldo circula um mar de intriga, inveja e hipocrisia

REUTERS/ROBERT PRATTA LIVEPIC

Ao assistir ontem ao jogo Portugal-Hungria pensei no Rei Lear. Sim, Shakespeare é difícil, mas a vida não o é menos, para parodiar o título de um livro de Fintan O’Toole, crítico teatral e editor literário do jornal Irish Times. Antes que em mim desabe o vitupério traduzido na classificação de possidónio, esclareça-se a evidência: tendemos a pensar no que nos está mais à mão. Ora, o Teatro Nacional S. João está a preparar a estreia, de hoje a oito dias, desta tragédia sobre um rei cego pela ideia do absoluto.

Foram sobretudo os conceitos de cegueira e absolutismo a conduzir-me para esta associação inesperada de um rapaz bom de bola às tragédias inerentes a um drama shakespeariano construído à volta de três temas centrais: inveja, hipocrisia e perdão.

Na verdade esta conexão começara uns dias antes, motivada por um inacreditável e inenarrável artigo de opinião sobre Cristiano Ronaldo, publicado no “El País” e reproduzido na imprensa portuguesa com a mesma subserviência e enlevo com que no século XIX se babavam alguns em Portugal com as novidades chegadas de Paris.

Ontem foi o episódio do microfone, reproduzido até à náusea pelas televisões, sempre ávidas de fenómenos paranormais. Como há muito desistiram da ideia de cumprir a função, cultivar o gosto, e trabalhar o prazer de dar notícias, entendidas como momentos informativos feitos de verdadeira relevância para a vida de uma comunidade, revelam uma preocupante adição a um género que, em si mesmo, não tem género nenhum.

Jorge Pinto vai ser Rei Lear no TNSJ

Jorge Pinto vai ser Rei Lear no TNSJ

FOTO RICARDO PINTO

Por associação de ideias dei comigo a recordar Goneril e Regan, duas das três filhas de Lear. Calculistas, frias, perversas, vivem na permanente expectativa de conseguir o máximo proveito pessoal de toda e qualquer ação, sem escrúpulos, sem tentações éticas ou morais. Farão tudo quanto seja necessário para conquistarem os seus objetivos. Personificam a hipocrisia em todo o seu esplendor.

Como não tenciono deter-me nos detalhes do microfone ou nas circunstâncias em que alguém, ao segurar um microfone, de repente o vê na água, sempre direi que, em tese, há ali um comportamento errado. Poderá haver dois, mas essa é a parte dos pormenores. Importa-me, antes, tentar perceber o porquê de tanto fogo-de-artifício mediático criado à volta do incidente. Torna-se muito relevante tentar compreender muitas indignações postas à solta por quem, no dia-a-dia, não revela um pingo de repulsa pelos constantes atropelos sociais, laborais, económicos ou culturais do cidadão comum e faz da vida um tráfico de emoções em permanente exposição nos pequenos ecrãs ou nos tabloides.

Nenhum microfone atirado á água tem força bastante para justificar tanto delírio televisivo. Nenhuma vaidade, justificada ou não, ridícula ou não, tem dimensão para motivar tão assanhados escritos. Porém, se tivermos noção que Cristiano Ronaldo tem mais de 200 milhões de seguidores na soma do Instagram, Twitter e Facebook, ou que não há ninguém no mundo a apresentar, como o jogador do Real Madrid, 112 milhões de “amigos” no Facebook, talvez estejamos, então, em condições de perceber melhor o porquê da náusea mediática à volta do madeirense.

Acontece, ainda, que o madeirense, nascido no seio de uma família pobre e pouco estruturada, não é apenas um madeirense nascido no seio de uma família pobre e pouco estruturada. Cresceu e construiu uma personalidade própria apesar de todas as adversidades de origem. Segundo a revista Forbes, é neste momento o jogador mais bem pago do mundo, muito à frente de Messi, LeBron James ou Roger Federer. Em 2015 terá ganho 77,1 milhões de euros, 30 milhões dos quais resultantes de contratos publicitários, em particular com a Nike. Um simples twit seu, diz-se, pode custar quase €90 mil, enquanto a média dos mais conhecidos jogadores da seleção espanhola não passa dos €10 mil.

SERGEY DOLZHENKO

Ainda segundo a Forbes, o êxito de Ronaldo nas redes sociais é de tal ordem que os patrocinadores admitem ter recebido um lucro de 449% em troca dos €30 milhões pagos para CR7 os promover. Segundo o El País, a Nike terá pago em 2015 ao capitão da seleção portuguesa €13 milhões por 59 "posts" sobre aquela marca, dos quais resultaram €36 milhões de proveitos para a empresa.

Logo, falar de Ronaldo é dinheiro em caixa, ou números a disparar no gráfico das audiências. Não importa o como. Não importa o porquê.

Um dos dilemas por resolver no jornalismo português passa pela existência, ou não, de capacidade, disponibilidade e vontade para, no seu trabalho quotidiano, encontrar forma de escapar dos extremos. Se não é razoável esperar um jornalismo com a profundidade e a sumptuosidade literária de Shakespeare, é, pelo menos, admissível desejar um jornalismo suficientemente culto e informado para rejeitar acomodar-se na dimensão da sarjeta.

Regresso, então ao Rei Lear e a Fintan O’Toole. Num trabalho intitulado “King Lear: Zero Hour”, o editor do Irish Times diz que “a existir uma esperança em Rei Lear, não será de que o mundo possa subitamente mostrar-se justo, mas sim de que o mundo possa ser mudado antes que seja tarde de mais”.

Oxalá.