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Carlos Vargas. “Amo o São Carlos e a CNB”

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António Pedro Ferreira

Entrevista com o presidente da empresa que gere o Teatro Nacional de São Carlos e a Companhia Nacional de Bailado

Luciana Leiderfarb

Luciana Leiderfarb

Texto

Jornalista

António Pedro Ferreira

António Pedro Ferreira

Fotos

Fotojornalista

Chega à presidência da Opart — empresa que gere o Teatro Nacional de São Carlos e a Companhia Nacional de Bailado (CNB) — conhecendo os cantos à casa. E chega a uma entidade que os sucessivos governos, mal se sentam na cadeira do poder, ameaçam extinguir. Carlos Vargas não percebe o motivo e defende que a vocação da Opart é ser um instrumento — não um fim — ao serviço dos projetos artísticos.

Que vantagens trouxe a Opart às duas casas que gere?
A grande novidade é separar o gestor do diretor artístico. Porém, o processo ficou contaminado por uma espécie de pecado mortal que é a saída de Paolo Pinamonti. Fora isso, a Opart tem virtualidades se a equipa de gestão for competente e se estiver alinhada com os diretores artísticos.

São muitos ‘ses’. Algum se verificou nestes nove anos?
Eu diria que à fase de implementação, de 2007 a 2010, segue-se outra de turbulência e de abandono pelo poder político. Isto ao mesmo tempo que o Tribunal de Contas admite resultados positivos na gestão.

Entre outubro de 2010 e janeiro de 2015, a administração mudou oito vezes. Como irá garantir estabilidade?
É com estranheza que vejo essa dança de cadeiras. Por isso, o nosso esforço de coesão é decisivo. O que quero é construir a equipa com os diretores artísticos. Não quero ter um projeto de gestão exemplar se não tenho espetáculos para servir os públicos. É em função dos projetos artísticos que se devem fazer adaptações. De nada vale ter um relatório e contas maravilhoso se tiver críticas sinistras.

De que adaptações fala?
A CNB e o São Carlos vão lançar um Centro Educativo conjunto nas instalações da Rua Vítor Cordon. No caso do teatro, precisamos de um local para a Sinfónica ensaiar e estamos a elaborar um plano de intervenção do edifício. E temos que sair, sair. Estas instituições são tão autocentradas que vivem por si só.

No entanto, estão suborçamentadas.
Pois estão. Em 2016, a Opart teve €19,3 milhões, dos quais só 15% para programação. Com estes recursos é difícil inscrever os corpos artísticos nos circuitos europeus. Só a CNB o conseguiu.

Luísa Taveira, diretora da CNB, disse que esta tem sido tratada como um apêndice do São Carlos. O que lhe responde?
Admito que tenha tido dificuldades, mas connosco não será assim. Vamos trabalhar para dar resposta às suas necessidades.

Há dois anos nomeou-se um consultor para o teatro de ópera. A Opart tinha autonomia para se opor?
Em termos formais, nenhuma. Mas pode exercer influência sobre a tutela, se tiver esse capital.

Tem esse capital?
Tenho, sim. Achei estranha a opção por um consultor. Não há teatro sem diretor artístico.

Para Patrick Dickie, novo diretor do São Carlos, o ideal seria uma temporada com 10 óperas. Acha possível?
Não é possível. Foi um desejo, a que eu acrescento que uma boa parte não deveria ser feita em Lisboa. Sair deve ser o nosso objetivo. O que define uma instituição nacional não são as paredes, são os projetos. E os recursos não se esgotam nos fundos públicos. Se tiver um projeto e for capaz de o vender, posso captar mecenato.

O Millennium BCP foi mecenas do São Carlos até 2008. Acha que a Opart o afastou?
Não há apoio mecenático para organizações sem projeto e sem liderança. A EDP tem-se mantido fiel à CNB por força do projeto artístico. É evidente a lição a tirar.

Porque se demorou tanto a contratar um diretor artístico e acabou por escolher-se quem já cá estava [como consultor]?
Foi uma opção política. A tutela podia ter optado por fazer um convite, mas optou por um lento processo de seleção, sem consultar ninguém.

A Opart vem sendo ameaçada de extinção pelos sucessivos governos. Porque aceitou presidi-la?
A Opart é interessante porque não é um fim, mas um instrumento de gestão. Acredito que posso adaptar os processos típicos da administração pública à agilidade que os projetos artísticos requerem. E porque amo o São Carlos e a CNB.