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Curtas de Vila do Conde regressa despido de tabus para fazer a arqueologia do cinema

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Uma das imagens de marca do festival são os filmes-concerto, este ano o destaque vai para as atuações dos ingleses Tindersticks, Jay-Jay Johanson

Richard DUMAS

O Curtas Vila do Conde – Festival Internacional de Cinema está de regresso, entre os dias 9 e 17 de julho, com 241 filmes, sete filmes-concerto, duas exposições e 14 debates

Prestes a atingir as bodas de prata de um casamento feliz com o público, o evento regressa nesta 24.ª edição despido de preconceitos e com o objetivo de oferecer uma homenagem ao cinema e à sua história através de um conjunto de sessões distribuídas pelas várias secções do festival. Durante mais de uma semana, em Vila do Conde volta a sentir-se o pulsar do cinema contemporâneo.

Como já é habitual, tem como principal ponto atrativo os filmes que se apresentam a concurso nas competições internacional e nacional, bem como na categoria dedicada ao cinema experimental. Para 2016, há mais filmes distribuídos pelas 81 sessões exibidas no Teatro Municipal de Vila do Conde, avançou a organização.

Ao todo, são 46 os países representados no Curtas, que apresentam o “melhor do cinema contemporâneo”, destacaram os responsáveis. Na edição deste ano, 65 das produções cinematográficas são portuguesas.

Em conferência de imprensa que serviu para apresentar o festival, um dos diretores artísticos, Miguel Dias, comparou algumas das atividades contempladas no programa a um trabalho de “arqueologia” do cinema. “Pusemos a tónica na cinefilia, porque sempre foi uma tradição do Curtas desde 1993, que constitui uma espécie de história alternativa do cinema. Este ano recuperamos muito essa tradição com uma série de programas que vão de encontro à história do cinema”.

Como exemplos, o responsável destacou as três sessões que integram uma seleção de curtas-metragens elaborada pelos realizadores João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra dos Santos e que incluem autores como Buster Keaton, Charles Chaplin, Jacques Tai, Alan Scheider, Jean Genet, Andy Warhol, Kenneth Anger, Jacques Demy, Jean-Luc Godard, entre outros. São filmes históricos e que “desafiam as convenções do cinema narrativo”, lê-se no comunicado distribuído aos jornalistas.

Combater preconceitos e pôr o público à prova

O trabalho de João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata estará também em foco neste Curtas de Vila do Conde, com uma exposição paralela, inaugurada a 2 julho no Solar – Galeria de Arte Cinemática, e que propõe um percurso lúdico pelo universo dos dois cineastas.

“A obra do João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata têm, sobretudo, um reconhecimento externo, embora em Portugal sejam muito queridos dos cinéfilos, não são propriamente cineastas do grande público. Não são ‘blockbusters’”, sublinhou Mário Micaelo, outro dos programadores do festival. “São muito performativos e próximos das artes plásticas. São obras de arte que pertencem ao cinema, mas que estão encostadas a um território mais artístico”, acrescentou o responsável acerca dos dois realizadores nacionais.

A mostra tem como ponto de partida os filmes de ambos os autores, mas assenta sobretudo em instalações artísticas, pensadas em articulação com o espaço, com fragmentos e adereços que fizeram parte de algumas produções.

O trabalho cinematográfico de João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata aporta uma sexualidade sempre muito vincada e, por vezes, os seus filmes são conotados como ‘cinema gay’. O objetivo da exposição passa também por abrir mentalidades. “É bonito ver um beijo entre homens, desde que isso nos transporte para um ambiente de amor e sensualidade. Nós gostamos muito de trabalhar contra esse tipo de preconceitos”, afirmou Mário Micaelo, apesar de reconhecer que não sabe se o público estará preparado para este tipo de “cinema marginalizado”.

The Legendary Tigerman apresenta um projeto em que se juntou à fotógrafa Rita Lino e ao realizador Pedro Maia

The Legendary Tigerman apresenta um projeto em que se juntou à fotógrafa Rita Lino e ao realizador Pedro Maia

DR

Um festival que dá música aos mais graúdos e educa os mais novos

Outra das imagens de marca do festival são os filmes-concerto, inseridos na secção “Stereo”. Este ano os destaques vão para as atuações dos ingleses Tindersticks, Jay-Jay Johanson, The Legendary Tigerman (para apresentar um projeto em que se juntou à fotógrafa Rita Lino e ao realizador Pedro Maia) e ainda o quinteto de jazz The Greg Foat Group. Destaque para estes últimos, que vão apresentar uma banda sonora, intitulada “Visual Music”, para acompanhar clássicos do cinema de vanguarda dos anos 20. Somam-se ainda as performances de ‘live-cinema’ a cargo de Jorge Quintela e Pedro Maia.

O público infantil não é esquecido e, como sempre, as “Curtinhas” assumem-se como um mini-festival dentro do próprio festival. “É um momento de encontro para as famílias”, destacou José Nuno Rodrigues, outro dos integrantes responsável pela direção artística do festival. Na sua opinião, estas sessões de cinema pensadas para os mais novos, assim como a competição de filmes em que o júri é também composto por crianças e as oficinas práticas de cinema contribuem para “formar novos públicos”. Na abertura do “Curtinhas”, no dia 9, pelas 15h, será exibido o filme de animação “À Procura de Dory”, uma “aventura subaquática dos peixes favoritos da Disney”, realça a organização no comunicado.

“À procura de Dory” é um dos filmes do mini-festival dedicado aos mais novos

“À procura de Dory” é um dos filmes do mini-festival dedicado aos mais novos

DR

Também a competição de filmes de escola “Take One!” se mantém como uma das apostas. Esta secção promove igualmente ‘masterclassses’, debates e um ‘workshop’ de crítica de cinema, que vai juntar críticos, cineastas e académicos com um grupo de aspirantes à escrever sobre a sétima arte.

Um casamento feliz à beira de completar as bodas de prata

Também presente na apresentação do festival, a presidente da Câmara Municipal de Vila do Conde, Elisa Ferraz, destacou que “a cidade projeta-se internacionalmente” com a realização do evento. “Caminhamos para as bodas de prata de um casamento feliz, naquilo que tem dado ao concelho, ao país e que tem dado internacionalmente”, acrescentou.

O orçamento para edição deste ano foi de 235 mil euros, valor que é “sempre pouco”, confessou Miguel Dias. O Curtas de Vila do Conde conta com o apoio da autarquia local, do Ministério da Cultura, do Instituto do Cinema e Audiovisual, bem como várias parcerias com entidades privadas.

Em 2015, o Curtas recebeu cerca de 23 mil pessoas. “Acho que já é um megafestival de verão”, disse, entre risos, Mário Micaelo.