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Teatro lido em voz alta no Mosteiro São Bento da Vitória. Um ritual completa seis anos

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JOÃO TUNA

Teatro lido em voz alta por profissionais ou simples curiosos, em sessões onde se partilha e difunde a paixão pelo teatro. Um ritual que perdura há seis anos no mosteiro do Porto, onde autores clássicos ressurgem e novos dramaturgos são postos em evidência. Esta noite, a última sessão da temporada 2015/16 contará com a presença do ator Rogério Samora

André Manuel Correia

À terceira terça-feira de cada mês, o Mosteiro São Bento da Vitória, no Porto, serve de templo a um ritual que completa seis anos. Falamos das “Leituras no Mosteiro”, nas quais o teatro é lido em voz alta por todos e para todos, desde profissionais a curiosos. Exorciza-se o afastamento do público em relação a esta arte cénica e promove-se uma aproximação à essência da mesma. O registo é sempre calculadamente informal. Durante as sessões mensais, o público é convidado a dar voz e corpo a textos dramatúrgicos que atravessam diferentes autores, de diversas épocas, estilos e geografias. A iniciativa já abordou mais 180 criadores e contou, até à data, com cerca de 6300 participantes.

Para celebrar o sexto aniversário, a sessão desta terça-feira, com início às 21h, é dedicada ao texto “Sétimo Céu” da britânica Caryl Churchill e terá como convidado o ator Rogério Samora.

Tudo começou em junho de 2010, com a primeira sessão das “Leituras no Mosteiro”, iniciativa gratuita e que é coordenada por Nuno M. Cardoso e Paula Braga, ambos ligados ao Teatro Nacional São João (TNSJ). “Não é só vir, sentar e assistir. É entrar nos textos, nas personagens e fazer com que a voz e o corpo se tornem ativos e participantes”, explica Nuno M. Cardoso em declarações ao Expresso.

Ao olhar para o percurso destas Leituras, o responsável enaltece que são “seis anos de existência e de continuidade, onde foram tentadas fórmulas diversas de abordar os textos, mas sempre mantendo presente a questão da participação e da partilha”. Numa fase inicial, as sessões eram semanais e alternavam entre autores contemporâneos e clássicos. Mais tarde passaram a ser quinzenais, durante quase dois anos, até se fixar a periodicidade mensal que vigora atualmente.

Viagens pelo tempo e pelo espaço

Na opinião do coordenador, a iniciativa serve para “relembrar a ideia de leitura em si como uma forma de passar conhecimento sobre a dramaturgia e sobre os autores”. Trata-se igualmente de uma revisitação do teatro clássico e contemporâneo de todo o mundo. “Fazemos uma viagem pelo espaço e pelo tempo”, reforça Nuno M. Cardoso.

Para cada temporada é delineada uma linha temática e cada trimestre é dedicado a textos inéditos de um autor em específico. Nuno M. Cardoso destaca a “especialização na escolha” das obras que dificilmente podem ser adquiridas nas livrarias. “Necessitamos de um trabalho de procura, de saber onde se encontram os textos que já foram traduzidos, ou então nós próprios temos traduzir para fazer a leitura. Os textos que neste momento estamos a ler são obras a que o público não tem acesso direto”, sublinha.

Desde autores como Federico García Lorca a Fernando Arrabal, de Strindberg a Lars Norén ou de Shakespeare a Howard Barker, passando por novos dramaturgos nacionais, os autores e estilos são variados, assim como as nacionalidades. As “Leituras no Mosteiro” já exploraram obras provenientes de sensivelmente 20 países. Da Inglaterra ao Brasil, da Rússia à Argentina, estas sessões são ecléticas e diversificadas.

A audiência oscila de sessão para sessão, mas o coordenador aponta para um número médio que varia entre 50 a 60 pessoas. Algumas caras são já conhecidas, outras aparecem pela primeira vez. “Há um público que surge nas várias sessões, que já sabe que poderá ser escolhido para ler e já vem preparado para o fazer. Depois, há sempre novas pessoas, porque vamos renovando o nosso corpo de leitores, e essas por vezes ficam um pouco mais tímidas. Mas mesmo essas, voltam em ocasiões seguintes e já sentem essa vontade de participar”, explica Nuno M. Cardoso.

Também em declarações ao Expresso, Paula Braga reitera a ideia de que existe uma fidelização por parte do público e lembra um dos casos. “Há um senhor que é farmacêutico e há cinco anos que vem a quase todas as leituras. Eu nem sei se ele é espectador de teatro, mas é uma presença assídua”, conta a coordenadora.

Uma biblioteca com vida e voz

As “Leituras no Mosteiro” realizam-se no Centro de Documentação do TNSJ, fundado em 2000 e que reúne registos vídeos de espetáculos, textos de teatro, dossiês fotográficos ou materiais promocionais de várias peças. Localizada no Mosteiro São Bento da Vitória, é comummente considerada a melhor biblioteca nacional no que toca às artes performativas. Disponibiliza gratuitamente a consulta de cinco mil livros, além de compilar vídeos, filmes e documentários sobre teatro e dança, óperas dirigidas por encenadores relevante, e ficheiros de teatro radiofónico.

No entanto, “uma biblioteca precisa também de ativar o seu espólio”, considera Paula Braga. “Este espaço é muito mais um ponto de encontro ocasional, do que uma biblioteca de consulta diária”, até porque, na opinião desta responsável, “as bibliotecas tradicionais estão neste momento a sofrer uma transformação, porque há muita coisa disponibilizada na internet e as pessoas vêm muito menos ao espaço”.

Para este trimestre que agora culmina, a autora escolhida foi Caryl Churchill. Esta última sessão da temporada 2015/2016 contará com a presença do ator Rogério Samora e o texto a partilhar é “Sétimo Céu”.

Em Sétimo Céu (1979), Churchill localiza o primeiro ato em África, na segunda metade do séc. XIX, e traça um paralelo entre a opressão sexual e a opressão colonial. Depois, no segundo ato, regressa à Inglaterra sua contemporânea, onde evoluem personagens mais abertamente indisciplinadas, num desafio ao “corpo” político conservador. Na passagem de um ato a outro, Churchill “dramatiza o carácter deslizante da sexualidade, objeto de esforços sempre renovados de a fixar e de a estabilizar”, destaca o TNSJ em comunicado.

Terminado este trimestre, as Leituras no Mosteiro regressam setembro e trazem uma nova linha programática, dedicada a autores francófonos. O primeiro autor a ser abordado será, à partida, Jean Genet, adianta ainda Paula Braga.