Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

Drones com açúcar

  • 333

Anteriormente conhecida como Antony, de Antony and the Johnsons, Anohni traz aos Coliseus do Porto e Lisboa “Hopelessness”, um disco pop de coração negro. Esta terça está a norte, depois a sul

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

foto alice o'malley

Há pouco mais de um ano, Antony Hegarty passou pelo NOS Primavera Sound, no Porto, para dar um concerto quase litúrgico. Acompanhado por uma orquestra de 50 músicos, transportou solenidade e ambição para o contexto festivaleiro, solicitando à organização que, durante o seu espetáculo, não se realizassem outros concertos no recinto. A metamorfose que se seguiu vai além da música. Aos Coliseus do Porto (terça-feira) e de Lisboa (quarta-feira) virá Anohni, que no decurso do último ano passou a identificar-se oficialmente como mulher transgénero. O seu primeiro disco na nova pele, “Hopelessness”, tem cativado velhos e novos fãs pelo fortíssimo conteúdo lírico, repleto de comentários contundentes de ordem política, social e ecológica. Para que mais pessoas prestassem atenção às ideias de ‘Drone Bomb Me’ ou ‘4 DEGREES’, a artista embrulhou as canções num papel pop e sedutor. “Quis criar um cavalo de Troia para [transportar] o conteúdo lírico”, disse ao Expresso Anohni, que respondeu às nossas perguntas por e-mail, durante uma pausa da caminhada que encetou pelo deserto australiano, contra a construção de uma mina de urânio e em defesa de um povo indígena que deverá ser afetado por ela.

Regressa a Portugal para concertos nos Coliseus do Porto e de Lisboa. Que tipo de espetáculo é que podemos esperar?
Atuo com o Dan Lopatin [Oneohtrix Point Never] e o Chris Elms, que são programadores e músicos eletrónicos. Canto cerca de 15 canções, frente [à projeção] de um filme que fiz, que apresenta retratos de uma grande variedade de mulheres, muitas das quais são minhas amigas e colaboradoras de longa data, assim como de outras que escolhi especificamente para este projeto: artistas, escritoras, doutoras, bailarinas, idosas, académicas e outras [pessoas] de todo o mundo; todas me acompanham ao longo das letras das canções. É uma espécie de colaboração entre a presença visual e a presença sonora. Inicialmente, a ideia era representar um oráculo feminino composto por muitos rostos. Canto frente ao filme, usando um véu. Por isso, a minha presença faz-se sentir fortemente, mantendo ao mesmo tempo, e formalmente, um certo carácter visual de anonimato. De igual forma, sonoramente é um concerto muito presente e específico e emocional. [Estes espetáculos] têm sido uma montanha-russa; estou a aprender muito.

Vai cantar temas mais antigos ou apenas os do novo álbum, “Hopelessness”? Tendo uma carga política tão forte e particular, prefere manter as novas canções isoladas das restantes?
Canto só canções do meu novo trabalho, bem como algumas canções por editar. Tem sido refrescante [fazer essa separação de repertório].

Recentemente, a imprensa passou a referir-se a si no feminino. Quando decidiu passar a identificar-se como mulher?
Identifico-me como uma pessoa transgénero, ou uma mulher transgénero. Sempre me identifiquei assim. Passei a ser identificada como ‘ela’, em público, de há um ano para cá. É uma forma de reconhecer, formalmente, a minha experiência. Uma forma de honrar a minha identidade enquanto pessoa transgénero.

alice o´malley

Numa entrevista, confessou que não o fizera antes por uma questão de “cobardia e vergonha”. O que mudou desde então?
Mudei eu, enquanto pessoa que se desvalorizava desnecessariamente. Na verdade, ainda não tinha chegado ao ponto a que sentia querer chegar.

As letras do seu disco novo estão cheias de comentários políticos, sociais, ecológicos. Pensa que é possível apreciar as canções sem prestar atenção às letras, ou estas acabarão sempre por captar a atenção dos ouvintes?
Não sei. As pessoas estão sempre a surpreender-me.

Sente que tem feito novos fãs, com as canções de “Hopelessness”? E como têm reagido os fãs de Antony and the Johnsons aos novos temas?
Não estou propriamente à procura de ‘ganhar novos fãs’. Mas quis chegar a mais ouvidos, e foi por isso que fiz um disco com uma estética mais comercial. Alguns dos meus fãs mais antigos gostam das canções novas, outros nem por isso.

Há referências à Nigéria em pelo menos duas canções do disco: ‘Execution’ e ‘Marrow’. Está mais atento a esse país africano devido à ação de grupos terroristas como o Boko Haram?
Em ‘Execution’ e ‘Marrow’ não me refiro a essas ações terroristas. Escolhi destacar essa nação em particular simplesmente por ser um exemplo de mais um país onde se pratica a pena de morte, e um país que também sofre horrores às mãos das multinacionais que de lá retiram uma grande riqueza baseada nos minerais, mostrando um desrespeito atroz pelas pessoas [nigerianas] e pela paisagem.

Numa outra canção, intitulada ‘Obama’, canta num tom de voz mais grave do que é habitual. O conteúdo da mesma, com fortes críticas ao Presidente norte-americano, levou-o a sentir a necessidade de cantar de forma tão soturna?
Não senti uma necessidade de o fazer. Foi assim que me saiu, simplesmente.

Tem tido algumas reações mais extremas à letra dessa canção?
É óbvio que a canção é provocadora, embora sinceramente eu tenha dito apenas aquilo que sentia, ou seja, que estou amargamente desiludida e com a sensação de que muitos perigos só se agravaram desde que a Administração Obama tomou posse.

Foi fácil ter uma estrela como a supermodelo Naomi Campbell a protagonizar o vídeo de ‘Drone Bomb Me’?
Ela concordou em participar no vídeo porque apoiou o material. Eu mostrei-lhe a canção e ela aceitou. O [estilista] Riccardo Tisci, [que realizou o vídeo], apresentou-lhe o projeto, ela veio ter connosco e decidiu por si. A sua performance no vídeo deslumbrou-me de tal forma que até acabou por ser um dos fatores que inspiraram a minha apresentação no concerto, de forma mais lata.

A forma como tenta abordar várias temáticas político-sociais lembra, de certa forma, o ativismo online de Cat Power, que usa as redes sociais e algumas canções para esse efeito. Identifica-se com a sua abordagem e sensibilidade?
Eu adoro a Cat Power. Ela é uma inspiração enorme para mim. E também adoro a M.I.A.

Quando deu a entrevista ao Expresso, Anohni estava no deserto australiano, numa marcha de protesto contra a construção de uma mina de urânio

Quando deu a entrevista ao Expresso, Anohni estava no deserto australiano, numa marcha de protesto contra a construção de uma mina de urânio

alice o´malley

Ao trabalhar com os produtores Oneohtrix Point Never e Hudson Mohawke, tentou encontrar uma nova linguagem sonora? Sentiu que, como as letras eram tão pesadas, a música devia ser mais elástica, dançável até?
Quis que o som fosse dançável, sim. A ideia foi criar um cavalo de Troia para [transportar] o conteúdo lírico. Algo que soasse muito açucarado e irresistível ao ouvido, e que fosse animador, motivador.

No último tema do disco, ‘Marrow’, canta “we’re all americans now”. Isso passa, também, por todos os cidadãos do mundo poderem ter uma palavra a dizer sobre as eleições norte-americanas, a violência no país e outros assuntos internos da nação?
Neste contexto, ‘americano’ é uma metáfora que significa ser-se inextricavelmente cúmplice dos sistemas de exploração e consumismo que não têm os interesses da Terra em mente (embora admire Portugal particularmente, pela sua coragem pioneira em tentar evoluir além [da dependência] dos combustíveis fósseis).

Tendo nascido na Grã-Bretanha, vivendo nos Estados Unidos e sendo uma cidadã do mundo, há alguma nacionalidade com a qual se identifique mais?
Sou uma cidadã norte-americana e uma cidadã inglesa; os meus pais são ingleses e irlandeses. Quando era miúda, vivi na Holanda. Por isso, há muitas nacionalidades com as quais me identifico.

Como reagiu à morte, este ano, de David Bowie e Prince? Além da música que deixam, ambos desafiaram, à sua maneira, os estereótipos de género…
A minha identidade enquanto pessoa transgénero não é uma performance que passe por desafiar estereótipos de género, nem é algo que eu ‘tente’ fazer. Quando era miúda, ouvia muito o Bowie e gostava da sua música e do seu coração. Sobre o Prince não sei muito. Mas, em ambos os casos, as suas performances de dandismo e efeminação serviram para amplificar o seu apelo viril enquanto homens heterossexuais. Essa não é a mesma experiência que uma criança ou um adulto transgénero têm. Não uso a efeminação ou a feminilidade como plumas para atrair mulheres, o que se verificava no caso do Prince e do Bowie.

alice o'malley

Ficou feliz quando “The Guardian” se referiu a si como autora de canções de protesto, dizendo que há pouco quem o faça hoje em dia. Quem são as pessoas que mais admira nesse aspeto?
Há muitas pessoas a fazer canções de protesto em todo o mundo. Poderei ter dito que não há muita música de protesto explícita a ser escrita no mundo da pop ocidental, neste momento. Mas há vestígios da mesma em toda a parte. Obviamente a M.I.A., a PJ Harvey, e muitos outros. Pessoalmente, adoro a Laurie Anderson e a Buffy Sainte-Marie. Neste disco, concentrei-me em articular, do ponto de vista de uma artista, no sistema de aspetos codependentes da nossa sociedade que se exacerbam uns aos outros e acabam por resultar em ecocídio. Estamos habituados a olhar para os assuntos como espécimes separados, num laboratório, e a tentar abordá-los um de cada vez. Quis iluminá-los como uma árvore de Natal e explorar a constelação de assuntos como uma síndrome, em vez de uma desordem imunitária.

Encetou uma caminhada pelo deserto australiano, como forma de protesto contra a construção de uma mina de urânio que poderá pôr em perigo um povo indígena. O que nos pode contar sobre essa experiência [que ainda decorria à hora da entrevista]?
Continuamos a caminhar. Hoje vim à aldeia buscar mantimentos, razão pela qual estou a escrever estas respostas na internet. Está a chover, a paisagem aqui é tão arrebatadora e as pessoas são incríveis. Algumas das pessoas do povo Martu não puderam vir, porque tem havido muitas mortes na comunidade. Mas alguns dos meus amigos mais próximos, do povo Martu, estão comigo na caminhada, incluindo Nola Taylor, uma artista, tradutora e membro sénior da comunidade, que aparece no filme do concerto que levarei ao Porto e a Lisboa. Dentro de três dias, chegaremos ao local pretendido, a mina de Kintyre. Por alguma razão, estou com algum medo de o ver.


Texto publicado na edição do Expresso de 18 junho 2016